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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Por que todos os cristão devem se importar com Teologia Sistemática



by Peter J. Gentry and Stephen J. Wellum.

O que é teologia sistemática?

Teologia bíblica fornece a base para compreensão de como textos em uma parte da Bíblia tem relação com todos os outros textos, segundo a intenção de Deus, a qual é descoberta pelos autores humanos, mas,  em última análise, no nível canônico. No fim, teologia bíblica é a tentaiva de pensar por meio de “todo o conselho de Deus”, e fornece a base e o sustento para toda a teologização.

Se isto é o que a teologia bíblica é, então, o que é teologia sistemática? Assim como “teologia bíblica”, há várias ideias quanto ao que a “teologia sitemática” é. Não é necessário escavar dentro de todas aquelas visões diversas; antes, vamos simplesmente declarar como concebemos a disciplina. Para nossos propósitos, vamos utilizar a definição dada por John Frame: Teologia Sistemática é “ a aplicação da Palavra de Deus por pessoas à todas as áreas da vida”1.


2 Componentes chave

Em nossa visão, isto envolve pelo menos dois componentes chave.

Primeiro, a fim de aplicar a Escritura adequadamente, devemos primeiro interpretar a Escritura corretamente, o que exige a prática da teologia bíblica, como já foi descrito. Por isso que afirmamos que teologia bíblica é a base para toda teologização, uma vez que não fazemos teologia, a menos que compreendamos como o canôn inteiro das Escriutaras se encaixam.

Segundo, teologia sistemática vai mais longe do que a teologia bíblica, uma vez que envolve a aplicação da Escritura em todas as áreas da vida. Teologia sistemática, então, inevitavelmente, envolve construção teológica e formulação doutrinária, fundamentada na teologia bíblica e feita à luz da teologia histórica, mas também envolve interação com todas as áreas da vida – história, ciência, psicologia, ética, e assim por diante.

Formação da cosmovisão

Ao fazê-la, a telogia sistemática leva para formação de cosmovisão à medida que procuramos definir o quadro bíblico teológico da Escritura contra todas as outras cosmovisões e aprender a “pensar os pensamentos de Deus segundo Ele” , mesmo em áreas que a Bíblia não trata diretamente. Neste importante modo, teologia sistemática apresenta uma cosmovisão bem pensada, contra todos os concorrentes, assim, ela procura aplicar a verdade bíblica para cada domínio da vida.

Como uma displina ela também é crítica buscando avaliar ideias dentro e fora da igreja. Fora da igreja, a teologia sistemática assume uma função apologética de como ela, em primeiro lugar, coloca a fé adiante para ser acreditada e defendida, e, então, critica e avalia visões que rejeitam a verdade da Palavra de Deus. Deste modo, a apologética é corretamente um subsistema da telogia sistemática. Dentro da igreja, a teologia é crítica por analizar propostas teológicas, primeiramente em termos de seu encaixe com a Escritura e, em segundo lugar, em termos de suas implicações para outras doutrinas. Em todos estes aspectos, a teologia sistemática é a disciplina a qual tenta “levar cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (ver 2 Cor. 10:1-5), para o nosso bem como igreja e, principalmente, para a glória de Deus.

Como, então, devemos pensar sobre o relacionamento entre teologia bíblica e sistemática? Em nossa visão, teologia bíblica é primariamente uma disciplina hermenêutica, uma vez que procura adequadamente dividir a Palavra de Deus (2 Tm 2:14-15). È por esta razão que as conclusões da teologia sistemática devem, em primeiro lugar, ser fundamentadas nas conclusões exegéticas da teologia bíblica.

Mas então a teologia sistemática vai mais longe: com base na teologia bíblica, ela tenta construir o que precisamos acreditar da Escritura para hoje, criticar outras propostas teológicas dentro da igreja, e também as falsas ideias das cosmosvisões não cristãs, de modo que apredamos à cada dia sob o senhorio de Cristo.


1John M. Frame, The Doctrine of the Knowledge of God (Phillipsburg, NJ: P&R, 1987), 76.  
(Esse livro é editado, aqui no Brasil, pela Editora Cultura Cristã como "Doutrina do Conhecimento de Deus, A - Teologia do Senhorio"

Tradução: Eudmarly Sena

Fonte: CROSSWAY

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Lado Inútil da Teologia




   Bem, o tema parece que meio intrigante, pois podemos inquirir; existe um lado inútil da teologia? Penso que sim, mas vale lembrar que esse lado não é próprio dela, são os próprio estudantes de teologia que fazem esse lado emergir. Quando um cristão se debruça a estudar teologia, o que é ótima coisa, deve ele considerar que não estuda, apenas, para encher a mente de conhecimento, mas também, encher o coração de Deus. 

   O problema não é o estudar teologia, mas sim o praticar a teologia estudada (ortodoxa, é claro), pois, por vezes, os homens não sabem lidar com o conhecimento que adquirem, o problema, portanto, não está no conhecimento, mas na má utilização deste. Na verdade, o conhecimento teológico, sem vida prática cristã, revela o lado inútil da teologia. Por teólogo entendemos serem todos os cristãos, partindo do pressuposto  de que todos aqueles que versam sobre Deus e refletem sobre suas obras são teólogos, isso pelo menos de uma forma ampla do termo. 

   A questão que se levanta é, como diz Sproul,  "sabermos se somos bons ou maus teólogos", pois mau teólogo traz á tona o lado inútil da teologia, onde não há prática de vida cristã, e tudo o que ele ensina (o professor) ou assimila mentalmente (o aluno) é divorciado de sua vida cristã. Todo cristão é teólogo, mas nem todo teólogo é cristão.

   Esse lado inútil da teologia tem sido crescente, pois os estudantes (alguns, e certamente  a maioria) tem se devotado ao estudo, simplesmente, por motivos escusos, interesses secundários, o fato de algumas vezes forçarem as pessoas a estudarem teologia - pois caso contrário não terá chance no ministério - fazem as salas se encherem de teólogos com corações vazios,  a teologia é importante para quem quer desempenhar um bom serviço para Deus, em qualquer função, porém, ela não deve ser feita como um fim em sim mesma, e sim um meio de servir melhor a Deus e a igreja.

   O lado inútil da teologia deve ser freado, pois embarga muitos de se familiarizarem mais com ela, ao verem "teólogos" sem vida prática cristã, logo julgam ser, a teologia, um mau para o crescimento da igreja, quando na verdade é o contrário, e quando isso acontece a culpa recai, na maioria dos casos, sobre os ditos estudantes de teologia. A teologia, como dizia Lutero, "é a gramática do Espirito Santo" e devemos muito valorizar e incentivar a igreja a cada vez mais crescer no conhecimento teológico, mas na mesma medida incentivar a viver a teologia que assimilam, caso contrário, será inútil. 

    As Escrituras devem ser conhecidas (teologia) porém, também, vividas, é a pratica cristã que nos leva a experimentar o poder de Deus em nossas vidas.
   Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. (Mt 22.29)

Paz em Cristo.

Por Eudmarly Sena




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Uma Breve Visão da Teologia Arminiana




Por Roger E. Olson 

Um dos mais prevalecentes mitos difundidos por alguns calvinistas sobre o Arminianismo é que ele é o tipo de teologia mais popular nos púlpitos e bancos evangélicos. Minha experiência contradiz essa crença. Depende muito de como consideramos a teologia arminiana. Os críticos calvinistas estariam corretos se o Arminianismo fosse o Semipelagianismo. Mas ele não é como espero mostrar. O evangelho pregado e a doutrina da salvação ensinada na maioria dos púlpitos e tribunas evangélicos, e crido na maioria dos assentos de igrejas evangélicas, não é o Arminianismo clássico, mas o Semipelagianismo, se não um completo Pelagianismo. Qual é a diferença? O teólogo H. Orton Wiley, da Igreja do Nazareno, corretamente define o Semipelagianismo dizendo, “Ele sustentava que restou poder suficiente na vontade depravada para dar o primeiro passo em direção à salvação, mas não o suficiente para completá-la. Isso deve ser feito pela graça divina.”[1] Esta antiga heresia tem origem nos ensinos dos assim chamados massilianos, liderados principalmente por João Cassiano (m. 433 d.C.), que tentou construir uma ponte entre o Pelagianismo, que negava o pecado original, e Agostinho, que defendia a eleição incondicional sobre o fundamento de que todos os descendentes de Adão nascem espiritualmente mortos e culpados do pecado de Adão. Cassiano acreditava que as pessoas são capazes de se voltarem para Deus mesmo à parte de qualquer infusão da graça sobrenatural. Isto foi condenado pelo Segundo Concílio de Orange em 529 (sem endossar a extrema doutrina agostiniana da predestinação).



O Semipelagianismo tornou-se a teologia popular da Igreja Católica Romana nos séculos que antecederam a Reforma Protestante. Ele foi completamente rejeitado por todos os reformadores, exceto os assim chamados racionalistas ou antitrinitarianos, tais como Fausto Socinus. Alguns calvinistas adotaram a prática de se referir a toda teologia que ficou aquém do Calvinismo rígido (TULIP) como semipelagiana. Isto, no entanto, está incorreto. Hoje em dia, o Semipelagianismo é a teologia padrão da maioria dos cristãos evangélicos americanos. [2] Podemos comprovar isto na popularidade de clichês como “Se você der um passo em direção a Deus, ele fará o resto do caminho em direção a você,” e “Deus vota em você,  Satanás vota contra você, e você tem o voto decisivo,” juntamente com a negligência quase total da depravação humana e da incapacidade nas questões espirituais.



O Arminianismo é quase totalmente desconhecido, e menos ainda crido, no cristianismo evangélico popular. Um dos propósitos deste livro é superar este déficit. Um mito predominante sobre o Arminianismo é que a teologia arminiana é equivalente ao Semipelagianismo. Isto será contestado no processo de refutação de vários outros mitos que tratam da condição humana e da salvação. Isto é apenas uma antecipação do ponto de vista arminiano que será mais para frente exposto.



Em primeiro lugar, é importante compreender que o Arminianismo não tem uma doutrina ou ponto de vista específico sobre tudo no Cristianismo. Não há nenhuma doutrina arminiana especial das Escrituras. Os arminianos do coração – os arminianos evangélicos – acreditam nas Escrituras e têm a mesma gama de opiniões sobre os seus detalhes como os calvinistas. Alguns arminianos acreditam na inerrância bíblica e outros não. Todos os arminianos  evangélicos estão comprometidos com a inspiração sobrenatural da Bíblia e sua autoridade sobre todos os assuntos de fé e prática. Da mesma forma, não há uma eclesiologia ou escatologia arminiana distintiva; os arminianos refletem o mesmo espectro de interpretações que os outros cristãos. Um mito popular promovido por alguns calvinistas é que todos os teólogos arminianos aceitam a teoria governamental da expiação e rejeitam a teoria da substituição penal. Isso é simplesmente falso. Os arminianos acreditam na Trindade, na divindade e humanidade de Jesus Cristo, na depravação da humanidade devido à Queda primitiva, na salvação pela graça somente através da fé somente, e em todas as outras crenças protestantes essenciais. A justificação como justiça imputada é afirmada pelos arminianos clássicos seguindo o próprio Arminius. As doutrinas distintivas do Arminianismo têm a ver com a soberania de Deus sobre a história e a salvação; a providência e a predestinação são as duas doutrinas chave onde os arminianos se separam dos calvinistas clássicos.



Não há melhor ponto de partida para examinar as questões da providência e predestinação que a própria Remonstrância. Ela é o documento fundamental do Arminianismo clássico (além dos escritos de Arminius). A Remonstrância foi preparada por mais ou menos 43 (o número exato é debatido) pastores e teólogos reformados holandeses após a morte de Arminius em 1609. O documento foi apresentado em 1610 para uma conferência de líderes da igreja e do estado em Gouda, Holanda, para explicar a doutrina arminiana. Ele foca principalmente nas questões da salvação e especialmente a predestinação. Várias versões da Remonstrância (da qual os remonstrantes receberam o seu nome) existem. Iremos usar uma tradução para o inglês do original em latim apresentada de forma um tanto condensada pelo estudioso inglês do Arminianismo A. W. Harrison:



1. Que Deus, por um decreto eterno e imutável em Cristo antes da fundação do mundo, determinou eleger, da raça caída e pecadora, para a vida eterna, aqueles que, através de Sua graça, creem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência; e, ao contrário, resolveu rejeitar os não convertidos e os descrentes para a condenação eterna (Jo 3.36).



2. Que, em consequência disto, Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todo e cada homem, de modo que Ele obteve, pela morte na cruz, reconciliação e perdão pelo pecado por todos os homens; de tal maneira, porém, que ninguém senão os fiéis verdadeiramente desfrutam dos mesmos (Jo 3.16; 1Jo 2.2).



3. Que o homem não podia obter a fé salvadora de si mesmo ou pela força de seu próprio livre-arbítrio, mas se encontrava carente da graça de Deus, através de Cristo, para ser renovado no pensamento e na vontade (Jo 15.5).



4. Que esta graça foi a causa do início, desenvolvimento e conclusão da salvação do homem; de forma que ninguém poderia crer nem perseverar na fé sem esta graça cooperante, e consequentemente que todas as boas obras devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Quanto ao modo de operação desta graça, no entanto, não é irresistível (At 7.51).



5. Que os verdadeiros crentes tinham força suficiente através da graça divina para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo, sua própria carne, e obter vitória sobre eles; mas se por negligência eles não poderiam apostatar da verdadeira fé, perder a alegria de uma boa consciência e ser privado da graça necessária, deve ser mais plenamente investigado de acordo com a Sagrada Escritura.[3]



Observe que os remonstrantes, como Arminius anteriormente, não tomaram qualquer posição sobre a questão da segurança eterna dos crentes. Ou seja, eles deixaram em aberto à questão se uma pessoa verdadeiramente salva poderia cair da graça ou não. Eles também não seguiram o padrão da TULIP. Embora o modelo de cinco pontos que descreve a crença calvinista fora desenvolvido mais tarde, a negação dos três pontos centrais é bastante clara na Remonstrância. No entanto, ao contrário da ideia popular sobre o Arminianismo (especialmente entre os calvinistas), nem Armínio nem os remonstrantes negaram a depravação total; eles a afirmaram. É claro que a Remonstrância não é uma declaração completa da doutrina arminiana, mas ela aborda bem a sua essência. Além do que ela diz, há um campo de interpretação onde os arminianos às vezes discordam entre si. Todavia, existe um consenso arminiano geral, e é isso o que este breve resumo irá explicar, recorrendo amplamente ao teólogo nazareno Wiley, que recorreu amplamente a Armínio, Wesley e os principais teólogos metodistas do século XIX mencionados anteriormente.



O Arminianismo ensina que todos os seres humanos nascem moralmente e espiritualmente depravados e impotentes para fazerem qualquer coisa boa ou digna aos olhos de Deus sem que haja uma infusão especial da graça de Deus para superar os efeitos do pecado original. “Os homens não apenas nascem debaixo da penalidade da morte como consequência do pecado, mas eles também nascem com uma natureza depravada, que em contraste com o aspecto legal da pena, é geralmente chamada de pecado inato ou depravação herdada.”[4] O Arminianismo clássico em geral concorda com a ortodoxia protestante que a unidade da raça humana no pecado resulta em que todos nascem “filhos de ira”. No entanto, os arminianos acreditam que a morte de Cristo na cruz fornece um remédio universal para a culpa do pecado herdado, de modo que ele não é imputado às crianças por causa de Cristo. É assim que os arminianos, de acordo com os anabatistas, tais como os menonitas, interpretam as passagens universais do Novo Testamento como Romanos 5, onde tudo é declarado estar incluído debaixo do pecado assim como tudo é incluído na redenção através de Cristo. Esta é também a interpretação arminiana de 1Tm 4.10, que indica duas salvações através de Cristo: uma universal para todas as pessoas e uma especialmente para todos os que creem. A crença arminiana na redenção geral não é a salvação universal; é a redenção universal do pecado de Adão. Assim, na teologia arminiana todas as crianças que morrem antes de atingirem a idade do despertar da consciência e cometerem pecados atuais (em oposição ao pecado inato) são consideradas inocentes por Deus e levadas ao paraíso. Entre aquelas que cometem pecados atuais, apenas aquelas que se arrependem e creem têm Cristo como Salvador.



O Arminianismo considera o pecado original primariamente como uma depravação moral que é resultado da privação da imagem de Deus; esta é a perda do poder de evitar o pecado atual. “A depravação é total, visto que ela afeta todo o ser do homem.”[5] Isso significa que todas as pessoas nascem com inclinações alienadas, intelecto obscurecido e vontade corrompida. [6] Há tanto uma cura universal quanto um remédio mais específico para essa condição; a morte expiatória de Cristo na cruz removeu a penalidade do pecado original e liberou para a humanidade um novo impulso que começa a reverter à depravação com que todos vêm ao mundo. Cristo é o novo Adão (Romanos 5) que é o novo cabeça da raça; ele não veio apenas para salvar alguns, mas para fornecer um novo começo para todos. Uma medida da graça preveniente se estende através de Cristo a toda pessoa que nasce (João 1).



Dessa forma, a verdadeira posição arminiana admite a completa penalidade do pecado, e consequentemente não diminui a extrema pecaminosidade do pecado, nem deprecia a obra expiatória de nosso Senhor Jesus Cristo. Faz assim, no entanto, não negando toda a força da penalidade, como fazem os semipelagianos, mas magnificando a suficiência da expiação, e a consequente transmissão da graça preveniente a todos os homens através da autoridade do último Adão. [7]



A autoridade de Cristo é coextensiva com a de Adão, mas as pessoas devem aceitar (através da não resistência) esta graça de Cristo a fim de se beneficiar plenamente dela.



O homem é condenado unicamente por suas próprias transgressões. A oferta gratuita removeu a condenação original e é abundante para muitas ofensas. O homem torna-se responsável pela depravação de seu próprio coração somente quando rejeita o remédio para ela, e conscientemente ratifica-a como sua própria, com todas as suas consequências penais. [8]



A depravação herdada inclui o cativeiro da vontade ao pecado, que só é superado pela graça sobrenatural, preveniente. Esta graça começa a operar em todos mediante o sacrifício de Cristo (e o Espírito Santo enviado ao mundo por Cristo), mas surge com poder especial mediante a proclamação do evangelho. Wiley, seguindo Pope e outros teólogos arminianos, chama a condição humana – por causa do pecado herdado – de “impotência para o bem”, e rejeita qualquer possibilidade de bondade espiritual à parte da graça especial de Cristo tendo a precedência.



Porque Deus é amor (Jo 3.16; 1Jo 4.8), e não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento (1Tm 2.4; 2Pe 3.9), a morte expiatória de Cristo é universal; alguns de seus benefícios são automaticamente estendidos a todos (por exemplo, a libertação da condenação do pecado de Adão) e todos os seus benefícios são para todos que os aceitarem (por exemplo, o perdão dos pecados atuais e a imputação da justiça).



A expiação é universal. Isto não quer dizer que toda a humanidade se salvará incondicionalmente, mas apenas que a oferta sacrificial de Cristo satisfez as pretensões da lei divina, de maneira que tornou a salvação possível para todos. A redenção, portanto, é universal ou geral no sentido de provisão, mas especial ou condicional na sua aplicação ao indivíduo. [9]



No entanto, somente serão salvos aqueles que são predestinados por Deus para a salvação eterna. Eles são os eleitos. Quem está incluído nos eleitos? Todos aqueles que Deus anteviu que aceitarão sua oferta de salvação através de Cristo pela não resistência à graça que se estende a eles por meio da cruz e do evangelho. Assim, a predestinação é condicional ao invés de incondicional; a presciência eletiva de Deus é causada pela fé dos eleitos.



Em contraste com o Calvinismo acima estudado, o Arminianismo sustenta que a predestinação é o propósito gracioso de Deus de salvar da ruína completa toda a humanidade. Não é um ato arbitrário e indiscriminado de Deus para garantir a salvação a um número especial de pessoas e a ninguém mais. Inclui provisionalmente todos os homens e está condicionada somente pela fé em Cristo. [10]



O Espírito Santo opera nos corações e mentes de todas as pessoas até certo ponto, dá-lhes alguma consciência das expectativas e provisão de Deus, e as chama ao arrependimento e à fé. Assim, “a Palavra de Deus é, em certo sentido, universalmente pronunciada, mesmo quando não registrada em uma linguagem escrita.” “Aqueles que ouvem a proclamação e aceitam o chamado são conhecidos nas Escrituras como os eleitos.”[11] Os reprovados são aqueles que resistem ao chamado de Deus.



Uma doutrina arminiana crucial é a graça preveniente, na qual os calvinistas também acreditam, mas os arminianos a interpretam diferentemente. A graça preveniente é simplesmente aquela graça de Deus que convence, chama, ilumina e capacita, e que precede a conversão e torna o arrependimento e a fé possíveis. Os calvinistas a interpretam como irresistível e eficaz; a pessoa em quem ela opera irá crer e arrepender-se para salvação. Os arminianos a interpretam como resistível; as pessoas são sempre capazes de resistir à graça de Deus, como a Escritura chama a atenção (At 7.51). Mas sem a graça preveniente, elas inevitavelmente e inexoravelmente resistirão à vontade de Deus por causa de sua escravidão ao pecado.



Quando falamos de “graça preveniente” estamos pensando na que “precede”, que prepara a alma para a sua entrada no estado inicial da salvação. É a graça preparatória do Espírito Santo exercida para o homem enfraquecido pelo pecado. Pelo que se refere aos impotentes, é tida como força capacitadora. É aquela manifestação da influência divina que precede a vida de regeneração completa. [12]



Em um sentido, então, os arminianos, como os calvinistas, creem que a regeneração precede a conversão; o arrependimento e a fé são somente possíveis porque a velha natureza está sendo dominada pelo Espírito de Deus. A pessoa que recebe a total intensidade da graça preveniente (isto é, através da proclamação da Palavra e a chamada interna correspondente de Deus) não mais está morta em delitos e pecados. Entretanto, tal pessoa não está ainda completamente regenerada. A ponte entre a regeneração parcial pela graça preveniente e a completa regeneração pelo Espírito Santo é a conversão, que inclui arrependimento e fé. Estes se tornam possíveis por dádiva de Deus, mas são livres respostas da parte do indivíduo. “O Espírito opera com o concurso humano e por meio dele. Nesta cooperação, contudo, dá-se sempre à graça divina preeminência especial.”[13]



A ênfase sobre a antecedência e preeminência da graça forma o denominador comum entre o Arminianismo e o Calvinismo. É o que torna o sinergismo arminiano “evangélico.” Os arminianos levam extremamente a sério a ênfase neotestamentária na salvação como um dom da graça que não pode ser merecido (Ef 2.8). Entretanto, as teologias arminianas e calvinistas – como todos os sinergismos e monergismos – divergem sobre o papel que os humanos desempenham na salvação. Como Wiley observa, a graça preveniente não interfere na liberdade da vontade. Ela não dobra a vontade ou torna certa a resposta da vontade. Ela somente capacita a vontade a fazer a escolha livre para cooperar ou resistir à graça. Essa cooperação não contribui para a salvação, como se Deus fizesse uma parte e os humanos fizessem outra parte. Antes, a cooperação com a graça na teologia arminiana é simplesmente não resistência à graça. É meramente decidir permitir a graça fazer sua obra renunciando a todas as tentativas de auto justificação e autopurificação e admitindo que somente Cristo pode salvar. Todavia, Deus não toma esta decisão pelo indivíduo; é uma decisão que os indivíduos, sob a pressão da graça preveniente, devem tomar por si mesmos.



O Arminianismo sustenta que a salvação é toda pela graça – todo movimento da alma em direção a Deus é iniciado pela graça divina – mas os arminianos reconhecem também que a cooperação da vontade humana é necessária, porque, em última análise, o agente livre decide se a graça oferecida é aceita ou rejeitada. [14]



O Arminianismo clássico ensina que a predestinação é simplesmente a determinação (decreto) de Deus para salvar através de Cristo aqueles que livremente respondem à oferta de Deus da graça livre pelo arrependimento do pecado e fé (confiança) em Cristo. Ela inclui a presciência de Deus de quem responderá. Não inclui uma seleção de certas pessoas para a salvação, muito menos para a condenação. Muitos arminianos fazem uma distinção entre a eleição e a predestinação. A eleição é corporativa, Deus determinou Cristo para ser o Salvador daquele grupo de pessoas que se arrependem e creem (Ef 1); a predestinação é individual – a presciência de Deus daqueles que se arrependerão e crerão (Rm 8.29). O Arminianismo clássico também ensina que essas pessoas que respondem positivamente à graça de Deus pela não resistência a ela (que envolve arrependimento e confiança em Cristo) são nascidas de novo pelo Espírito de Deus (que é a regeneração completa), perdoadas de todos os seus pecados e consideradas por Deus como justas por causa da morte expiatória de Cristo por elas. Nada disto é baseado em qualquer mérito humano; é um dom gratuito, não imposto, mas livremente recebido. “A única base da justificação… é a obra propiciatória de Cristo recebida pela fé,” e “o único ato de justificação, quando visto negativamente, é o perdão dos pecados; quando visto positivamente, é a aceitação do crente como justo [por Deus].”[15] A única diferença significativa entre o Arminianismo clássico e o Calvinismo nesta doutrina, então, é o papel do indivíduo em receber a graça da regeneração e justificação. Como Wiley coloca, a salvação “é um trabalho feito nas almas dos homens pela operação eficaz do Espírito Santo. O Espírito Santo exerce seu poder regenerador apenas em certas condições, isto é, nas condições de arrependimento e fé.”[16] Assim, a salvação é condicional, não incondicional; os humanos exercem um papel e não são passivos ou controlados por alguma força, interna ou externa.



É aqui onde muitos críticos monergistas do Arminianismo apontam o dedo e declaram que a teologia arminiana é um sistema de salvação pelas obras, ou pelo menos algo inferior à vigorosa doutrina de Paulo da salvação como um dom gratuito. Se ele deve ser livremente aceito, eles afirmam, é merecido. Pelo fato do ato de aceitação ser crucial, o que é recebido não é um dom gratuito. Os arminianos simplesmente não conseguem entender essa afirmação e sua acusação implícita. Como veremos em vários pontos ao longo deste livro, os arminianos sempre têm afirmado enfaticamente que a salvação é um dom gratuito; até mesmo o arrependimento e a fé são apenas causas instrumentais da salvação e impossíveis à parte de uma operação interna da graça! A única causa eficiente da salvação é a graça de Deus através de Jesus Cristo e do Espírito Santo. A lógica do argumento de que um dom livremente recebido (no sentido de que poderia ser rejeitado) não é um dom gratuito surpreende a mente arminiana. Mas a principal razão para os arminianos rejeitarem a noção calvinista da salvação monergística, em que Deus incondicionalmente elege alguns para salvação e inclina suas vontades irresistivelmente, é que ela ofende o caráter de Deus e a natureza de um relacionamento pessoal. Se Deus salva incondicionalmente e irresistivelmente, por que ele não salva a todos? Apelar para mistério neste ponto não satisfaz a mente arminiana porque o caráter de Deus como amor se mostrando em misericórdia está em jogo. Se os homens escolhidos por Deus não podem resistir a ter um relacionamento correto com Deus, que tipo de relacionamento é esse? Pode uma relação pessoal ser irresistível? Tais predestinados são realmente pessoas em um relacionamento assim? Estas são questões fundamentais que motivam os arminianos – como outros sinergistas – a questionarem toda forma de monergismo, incluindo o Calvinismo rígido. A questão não é, mais enfaticamente, uma visão humanista do livre-arbítrio autônomo, como se os arminianos fossem apaixonados pelo livre arbítrio pela sua própria causa. Qualquer leitura imparcial de Arminius, Wesley, ou qualquer outro arminiano clássico, irá revelar que este não é o caso. Pelo contrário, a questão é o caráter de Deus e a natureza do relacionamento pessoal.



Anteriormente eu observei que não apenas a predestinação, mas também a providência fornece um ponto de diferença entre o Arminianismo e o Calvinismo. Em resumo, os arminianos creem na soberania divina e na providência, mas as interpretam diferentemente dos calvinistas rígidos. Os arminianos consideram que Deus se autolimita em relação à história humana. Portanto, muito do que acontece na história é contrário à perfeita vontade antecedente de Deus. Os arminianos afirmam que Deus está no comando da natureza e da história, mas negam que Deus controla todo evento. Os arminianos negam que Deus “esconde um rosto alegre” por trás dos horrores da história. O diabo não é o “diabo de Deus”, ou mesmo um instrumento da autoglorificação providencial de Deus. A Queda não foi preordenada por Deus para algum propósito secreto. Os arminianos clássicos acreditam que Deus pré-conhece todas as coisas, incluindo todo evento mal, mas rejeitam qualquer noção de que Deus provê “impulsos secretos” que controlam até as ações de criaturas malignas (angélicas ou humanas). [17] O governo de Deus é abrangente, mas porque Deus se limita para permitir a livre agência humana (por uma questão de relacionamentos genuínos que não são manipulados ou controlados), esse governo é exercido de modos diferentes. Tudo o que acontece é, pelo menos, permitido por Deus, mas nem tudo que acontece é positivamente desejado ou mesmo tornado certo por Deus. Assim, o sinergismo entra na doutrina arminiana da providência bem como da predestinação. Deus pré-conhece, mas não age sozinho na história. A história é o produto de ambas as agências divina e humana. (Não devemos esquecer as agências angélicas e demoníacas também!) O pecado especialmente não é nem desejado nem governado por Deus, exceto no sentido que Deus o permite e o limita. Mais importante, Deus não o predestina ou o torna certo. Não é possível uma expressão breve melhor do entendimento arminiano da providência do que a fornecida pelo teólogo reformado revisionista Adrio König:



Há lamentavelmente muitas coisas que acontecem sobre a Terra que não são a vontade de Deus (Lc 7.30 e todo outro pecado mencionado na Bíblia), que são contra a sua vontade, e que derivam do incompreensível e sem sentido pecado no qual nascemos, no qual a maior parte dos homens vive, e no qual Israel persistiu, e contra o qual até os “mais santos homens” (Heid. Cat. p. 114) lutavam todos os seus dias (Davi, Pedro). Deus tem apenas um curso de ação para o pecado, e que é prover sua expiação, por tê-lo totalmente crucificado e sepultado com Cristo. Tentar interpretar todas estas coisas através do conceito de um plano de Deus cria dificuldades intoleráveis e dá origem a mais exceções do que regularidades. Mas a mais importante objeção é que a ideia de um plano é contra a mensagem da Bíblia, visto que Deus mesmo se torna inacreditável se aquilo contra o qual ele lutou com poder, e pelo qual ele sacrificou seu único Filho, foi, todavia, de alguma forma parte integrante do seu conselho eterno. Então, é melhor partir da ideia que Deus tinha certo objetivo em mente (a aliança, ou o reino de Deus, ou a nova Terra – que são a mesma coisa vista de diferentes ângulos) que ele irá alcançar conosco, sem nós, ou mesmo contra nós. [18]



Fonte: Arminian Theology: Myths and Realities, pp. 30-39.

Extraído do site: http://arminianismo.wordpress.com/2012/08/05/uma-breve-visao-da-teologia-arminiana/

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que o Apocalipse não é?


Não confunda o profeta João com o lunático Nostradamus!
Por Gutierres Fernandes Siqueira


Neste segundo trimestre de 2012 estudaremos, nas escolas dominicais de confissão assembleiana, o último livro da Bíblia: o Apocalipse de João.

Estudar o livro das revelações será uma rica oportunidade para apresentar o que o Apocalipse não é. Infelizmente, a Igreja Evangélica Brasileira está contaminada por uma escatologia de matriz popular e espetacular sem a devida reflexão bíblica e desprovida de uma exegese bem trabalhada.

O que o Apocalipse não é?

1. O Apocalipse não é Cabala. O livro não pode ser interpretado como um manual de códigos misteriosos que precisam de uma intuição apurada para abraçar verdades ocultas. O Apocalipse não é “uma tabela de enigmas matemáticos ou um almanaque astrológico divinamente inspirado” [1]. A simbologia do Apocalipse não é de fácil interpretação, mas como lembrava o teólogo F. F. Bruce: “mesmo que em alguns aspectos tenhamos perdido totalmente a chave para a compreensão do texto, as linhas gerais da mensagem são suficientemente claras” [2]. A dificuldade em analisar símbolos, imagens e figuras não justifica nenhuma interpretação exótica e rica em criatividade ficcional.

2. O Apocalipse não é numerologia. As análises dos números no Apocalipse certamente são parte importante da interpretação dos símbolos e figuras. Mas é certamente temoroso qualquer espiritualização dos números classificando-os como divinos. A tendência supersticiosa é forte na numerologia.

3. O Apocalipse não é um livro aterrorizante. A revelação bíblica não é baixa literatura de terror. Quantos dizem ter medo de ler o último livro da Bíblia? Já ouvi de uma professora de literatura a confissão desse temor. Quem assim pensa esquece que o Apocalipse foi escrito para o conforto dos cristãos que eram duramente perseguidos pelos governadores tiranos de Roma.

4. O Apocalipse é profético, mas não frenético e detalhista. Há quem veja a União Soviética (que nem existe mais), a União Europeia, o papa João Paulo II (que já morreu), a queda das Torres Gêmeas, a China (seria o dragão?) e outros fatos históricos, geopolíticos e religiosos nas páginas do Apocalipse. É quem quer ler o jornal do dia nas profecias de João. É o desejo estranho ao cristianismo de adivinhar detalhes do futuro. Infelizmente, para muitos evangélicos o Apocalipse é uma espécie de Nostradamus.

5. O Apocalipse tem Cristo como tema principal. Como Sagradas Escrituras o livro não poderia de deixar a ênfase na supremacia de Cristo. O foco do livro não são tribulações, mas sim a pessoa de Jesus Cristo.

Referências Bibliográficas:

[1] BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 2214.
[2] BRUCE. Idem. pp 2212 e 2213.



Fonte: TeologiaPentecostal

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tudo o que é, é!





As tragédias, o deus de Gondim e o Deus das Escrituras…
Perplexos. É assim que ficamos diante do sofrimento, das mazelas, das grandes tragédias.
O último terremoto que arrasou o norte do Japão, deixou-nos todos muito perplexos e apertou nossos corações. Mais perto de nós, no Brasil, no começo deste ano, as chuvas que fizeram desmoronar montanhas enormes sobre as casas no estado do Rio de Janeiro causou-nos também essa perplexidade, essa comoção que leva-nos à compaixão.

É normal nutrimos simpatia pelo nosso semelhante, pelo nosso próximo. Aliás, a palavra simpatia é a aglutinação de dois termos gregos, sún, que quer dizer ‘juntamente’ e  páthos, eos-ous, que quer dizer ‘o que se experimenta’. Simpathos é a  “participação no sofrimento de outrem”, “comunhão de sentimentos”. E sentimos isso. Afinal, os que sofrem são nossos próximos, nossos semelhantes.
E Deus? Sente ele também simpatia pelos que sofrem, pelos que são vitimados pela tragédia, pelas guerras, fomes, doenças e miséria?

Para alguns evangélicos que alcançaram alguma fama no Brasil, como Ricardo Gondim,  pastor da igreja Assembléia de Deus Betesda, que tem amealhado incontáveis seguidores, a simpatia de Deus para com os que sofrem é incompatível com a idéia da soberania e governo de Deus sobre todas as coisas. Gondim desenvolveu uma nova teoria que dá explicação para os fenômenos que causam tragédia, afirmando que Deus resolveu abrir mão de sua soberania, de sua onisciência, onipresença para desenvolver relacionamentos verdadeiros com suas criaturas. Ele chamou sua teoria de “Teologia Relacional”. No entendimento de Gondim, Deus não pode evitar as catástrofes e não tem conhecimento do futuro.
Sam Mendes, diretor de cinema hollywoodiano, dirigiu um filme premiado chamado “American Beauty” (Beleza Americana) que tinha como premissa básica a frase “look closer” (olhe mais perto). A idéia do diretor ao retratar uma família média norte-americana era demonstrar que, de longe, a aparência era de que tudo estava certo; no lugar; funcional. Mas, à medida em que a família era vista mais de perto, era possível perceber seus problemas – cada vez mais complexos.

Fazemos bem em olhar mais de perto o ensino de Gondim e da teologia relacional. Vamos encontrar nele aquilo que o Dr. Valdeci Santos chamou de labirinto teológico, mas, em uma de suas várias saídas, esse labirinto leva-nos aos pressupostos encontrados na teologia do processo e no panenteísmo – ainda que o próprio Gondim não tenha condições de afirmá-lo.

O discurso de Gondim e de adeptos da teologia relacional, faz uso de linguagem evangélica e apela para a superioridade dos atributos morais de Deus em relação aos seus atributos invisíveis.
Todavia, para afirmar suas conclusões eles precisam interagir com idéias teológicas que romperam com a ortodoxia cristã. Não é muito difícil traçar suas idéias até a “Teísmo Aberto”, como demonstrou com bastante precisão o Dr. Valdeci dos Santos, em seu artigo “A Teologia Relacional: Suas Conexões com o Teísmo Aberto  e Implicações para a Igreja Contemporânea”. Os elementos fundamentais da teontologia da “teologia do processo” também se vê nas afirmações de Gondim. Os papas da teologia do processo, Whitehead e Hartshorne  também afirmaram que Deus está no tempo; que não conhece o futuro; que é sujeito a mudanças e reações em conformidade com os acontecimentos futuros. Quanto ao homem esses“papas do panenteísmo”, assim como Gondim, afirmam uma liberdade quase absoluta ao homem; afirmam ambos que a decisão humana determina os eventos futuros – que está em construção.
A impressão que os eforços de Gondim e seus seguidores causam é a de que ele empreendeu um grande esforço para fazer uma teodicéia um tanto desastrada, face à sua dificuldade em encontrar respostas bíblicas para as inquietantes perguntas acerca da presença do mal no mundo. O resultado, todavia, é a criação de um deus fraco. Um deus menor e vazio. Um deus que não oferece esperanças e deixa só o desespero e o temor diante das grandes tragédias.

O problema reside justamente na inabilidade dos adeptos da teologia relacional em lidar com doutrinas bíblicas como a providência, os efeitos da Queda, a Redenção – conforme a interpretação ortodoxa e histórica.

Não tendo condições de afirmar sua teologia com base na interpretação histórico gramatical das Escrituras, preenchem suas lacunas – ou buracos – com a argamassa de fontes estranhas ao cristianismo. Ao usar uma linguagem evangélica e tentar essa composição com o teísmo clássico, os adeptos da teologia relacional acabam incorrendo em um non sequitur, por não explorarem ao máximo os desdobramentos de suas afirmações e não assumirem a origem de suas premissas.
A idéia de Deus “renunciando aos seus atributos” é extremamente ofensiva à teontologia clássica. Para ficarmos em um só exemplo, podemos dizer que ao sujeitar-se a não saber, Deus teria de fazer-se menor do que o tempo; teria de colocar-se dentro do tempo. Ao fazer isso, o tempo tonar-se-ia maior do que seu próprio criador. Tornar a criatura maior que o criador é a prática comum do homem desde a Queda. Conforme se vê na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, o homem é pródigo em tornar algo que Deus criou na própria divindade. A ofensa deste ato repousa em justamente na tentativa de conter o criador em algo palpável e cognoscível. Esta é a essência da idolatria:

…porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.
Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;
porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.
Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos
e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.
Romanos 1.19-23
A tabela abaixo exibe a diferença entre os atributos de Deus segundo as Escrituras e aqueles reinterpretados pela teologia do processo. Não será difícil encontrar na tabela o deus de Gondim…
Atributos Clássicos
Atributos Neo-clássicos
1. Absoluto (Ausência de relatividade)
1. Realitividade (Deus é internamente relacionado às criaturas através de sua ação sobre eles e seu relacionamento com eles)
2.  Realidade pura (não há potencialidade em Deus)
2. Potencialidade (Nem tudo que é real ou pode ser real é possível a Deus)
3. Total necessidade (Toda verdade sobre Deus é necessariamente verdade)
3. Necessidade e contingência (Deus existe necessariamente, mas várias coisas são verdadeiras sobre a contingencialidade de Deus – por exemplo: seu conhecimento é contingente)
4. Absoluta simplicidade
4. Complexidade
5. Criação ex nihilo por um ato de livre vontade; Deus poderia ter se refreado de cirar qualquer coisa, se assim quisesse.
5. Deus e o mundo das criaturas existem necessariamente, embora os detalhes sejam contingentes.
6. Onipotência (Deus tem o poder de fazer todas as coisas que sejam consistentes com sua vontade)
6. Deus tem todo o poder que um agente metafísico poderia ter e possui limitações lógicas.
7. Incorpóreo
7. Corpóreo (o mundo é o corpo de Deus)
8. Não temporalidade (Deus não vive em uma série de momentos no tempo)
8. Temporalidade (Deus vive na sucessão temporal – mas para sempre)
9. Imutabilidade (Deus não pode mudar porque Deus não está sujeito à sucessividade do tempo)
9. Mutabilidade (Deus está continuamente atingindo sínteses mais elevadas de experiências)
10. Perfeição absoluta (Deus é eternamente aquele que não pode ser mais perfeitamente conebido)
10. Perfeição relativa (A todo momento Deus é mais perfeito do que o momento anterior, mas Deus está em estágio de constante desenvolvimento).
Portanto, a teologia do processo e a teologia relacional acabam por negar um Deus imutável, absoluto, criador, todo-poderoso, infinito, eterno, perfeito, controlador e governador de todo universo e da história, sancionador, e que se manifesta na figura masculina e com expressões familiares como “Pai”. O deus da teologia relacional é um deus que está – não é um Deus que É! Mas, um deus que não é, mas está, não se encaixa na própria definição que o termo Deus evoca. Não pode ser Deus, porque está e virá a ser. Um Deus que não é, não tem nada a oferecer ao homem – nem mesmo sua simpatia diante do sofrimento e do caos, como sugerem os teólogos relacionais, pois a simpathos estaria sempre sujeita a graus de conhecimento, identificação e de intensidade.

Esse deus relacional, que está em processo, em fluxo, é um deus fraco, limitado, susceptível. É o deus da Hiera anagrafe, de Evêmero. Como no evemerismo, a divindade é construída segundo a imagem do homem. Limitado, frágil e susceptível.  As Escrituras Sagradas oferecem uma definição diferente de Deus. Vejamos um dentre tantos textos que exaltam a majestade, governo, poder e grandeza de Deus, mostrando-O como o incomparável:
Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão?
Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o ensinou?
Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?
Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta.
Nem todo o Líbano basta para queimar, nem os seus animais, para um holocausto.
Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo.
Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?
O artífice funde a imagem, e o ourives a cobre de ouro e cadeias de prata forja para ela.
O sacerdote idólatra escolhe madeira que não se corrompe e busca um artífice perito para assentar uma imagem esculpida que não oscile.
Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio? Ou não atentastes para os fundamentos da terra?
Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar;
é ele quem reduz a nada os príncipes e torna em nulidade os juízes da terra.
Mal foram plantados e semeados, mal se arraigou na terra o seu tronco, já se secam, quando um sopro passa por eles, e uma tempestade os leva como palha.
A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? diz o Santo.
Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar.
Isaías 40.12-26
R. C. Sproul, em seu livro sobre filosofia, traz-nos lembrados de Parmênides, importante filósofo da antiguidade que  foi assertivo quando determinou que se alguma coisa está mudando, na verdade ela não é. Pensar em mudança nos obriga a pensar em termos do que não é, e isso é impossível. Parmênides entendia que tudo que existe de modo absoluto, não pode mudar. Não pode ser e não ser ao mesmo tempo e da mesma maneira. Se está se tornando, não pode estar sendo. Se está sendo, não é nada. Tem de ser absolutamente, ou não ser. Sua célebre frase diz: “Tudo o que é, é!”. Moisés, um pastor de ovelhas de 80 anos de idade, no alto do monte Sinai, ouviu uma voz retumbante e terrível que disse: EU SOU O QUE SOU!
Diante de grandes tragédias, a alma humana parece anelar por respostas, por explicações. Até a curiosidade humana faz como que desejemos entender e conversar sobre o que aconteceu com tais e tais pessoas, em situações de morte, tragédias e coisas assim. O Senhor Jesus Cristo mesmo chama a atenção para aqueles dois episódios trágicos, a queda da torre de Siloé e o assassinato de galileus. Esses eram assuntos que estavam na “boca do povo”. No entanto, Jesus procurar mostrar aos seus discípulos que essas tragédias não são resultado, como às vezes gostamos de pensar, de castigos divinos ou coisas assim. Eles são governados por Deus através de sua misteriosa providência e são resultado de vivermos num mundo caído, corrompido pelas mazelas do pecado.

A simpathos de Deus com a humanidade é tamanha que Ele resolveu enviar seu próprio filho, Jesus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, Luz de Luz, para tomar nossa natureza humana e, como homem-Deus fazer-se mediador entre Deus e os homens. Ele veio para resgatar e redimir. Todo o que nEle crê, não perecerá, mas terá a vida eterna. No seu reino, na ressurreição, não haverão tragédias, morte, destruição e miséria. Teremos um reino sempiterno de amor, na presença do próprio Deus. Essa é a esperança cristã. Essa é grande promessa do evangelho!

Fonte: blogfiel