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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Revista Newsweek analisa a “crise do cristianismo” no Ocidente


“Ensinamentos de Jesus foram destruídos pela 

cultura moderna”, escreve jornalista

É comum que na Páscoa e no Natal as grandes 
publicações dêem espaço para a fé cristã. Quase 
sempre as matérias questionam a veracidade dos relatos bíblicos ou apresentam alguma teoria polêmica.
Neste ano não foi diferente. A Newsweek, um dos semanários mais conceituados do mundo, deu como manchete “Esqueça a Igreja, siga Jesus”. A reportagem de capa, escrita por Andrew Sulllivan argumenta que o cristianismo que temos hoje “foi destruído pela política, pelos sacerdotes e teleevangelistas do enriquecimento rápido”.
Ao longo de suas páginas, há um questionamento de porque em vários lugares do mundo parece haver uma nova “onda de moralidade”, onde os políticos usam como plataforma política os ensinamentos de Cristo.
Isso é visto de maneira especial em 2012 na corrida presidencial americana, onde um mórmon e um católico se apresentam para ser o candidato que irá derrotar Barak Obama nas urnas.
Porém, em lugares onde antes o cristianismo predominava, hoje há um descrédito em relação à igreja. Ao mesmo tempo em que há um crescimento do movimento evangélico, em especial dos pentecostais, nos países da América do Sul, África e Ásia, o Islã tem se firmado em vários paises europeus.
A chamada “crise atual” do cristianismo passa pelos escândalos seguidos que tomaram as manchetes mundiais expondo os casos de abuso e pedofilia dentro da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, pastores evangélicos compram horas e mais horas do horário da televisão para fazerem promessas de enriquecimento rápido.
Para a Newsweek, isso gera um enfraquecimento de grande parte dos ensinamentos milenares de Jesus, conforme relatam os Evangelhos.
Sullivan escreve “Eu não tenho idéia como o Cristianismo vai lutar com sua crise atual, suas distrações e tentações, e acima de tudo, a maneira como parece ter se enredado com as coisas deste mundo. Mas eu sei que não vai ser concentrando-se em política, em vez de oração, a preocupação excessiva a vida sexual e pensamentos heréticos dos outros… Esse tipo de cristianismo que precisamos não vem da cabeça ou do intestino, mas da alma.
É tão manso quanto libertador. Não aproveita o momento presente… não busca o reconhecimento ou sucesso mundano, e foge do poder e da riqueza. É a religião da falta de conquistas. E não é cheio de medo… este cristianismo puro, que busca a verdade, sem a expectativa de resolução imediata, que ensina a simplesmente viver a cada dia fazendo o possível para cumprir a vontade de Deus, é mais vital do que nunca.
Pode, de fato, ser a única transformação espiritual que pode, no final, transcender o vazio persistente de nosso capitalismo ou do culto contemporâneo à diversão, ou a ameaça de guerra apocalíptica na terra onde Jesus andou certa vez. Você vê as tentativas de se encontrar isso em todo lugar, desde a espiritualidade experimental até o fundamentalismo ressurgente. Algo dentro está nos dizendo que precisamos dessa mudança espiritual radical”.
È curioso que uma revista secular, acostumada a fazer reportagens sobre os males da civilização moderna pareça se preocupar com o resgate da espiritualidade cristã. Ao pedir que seus leitores “esqueçam a igreja”, ela faz uma leitura ácida de como a sociedade percebe o discurso dos cristãos, em especial o que é apresentado na mídia.

Traduzido e adaptado de The Daily Beast

Fonte: GospelPrime

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

DOM ROBINSON CAVALCANTI: SEM PAPAS NA LÍNGUA!!




Desligado da Igreja Anglicana do Brasil por manifestar-se contra a ordenação de um bispo gay nos EUA, Dom Robinson Cavalcanti mantém-se firme em defesa da ortodoxia bíblica e dispara críticas a outras denominações brasileiras que se renderam às teologias liberal e da prosperidade


Paladino da ortodoxia bíblica, Dom Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife, ligada à Comunhão Anglicana, “tem comido o pão que o diabo amassou”, nas palavras de um amigo seu de longa data. O caso do bispo é sui generis no meio evangélico, pois a sua defesa do casamento e da exortação bíblica sobre o homossexualismo lhe rendem críticas e forte oposição dentro de sua própria denominação.
Na condição de bispo da Diocese recifense, Dom Robinson se opôs à ordenação de um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos. Embora muitas lideranças anglicanas mundo afora tenham manifestado o mesmo desconforto com a agenda liberal dos americanos, a posição do pernambucano foi minoritária na Igreja Anglicana do Brasil (IEAB) que, segundo ele, recebe forte influência dos colegas americanos.
Foi justamente por causa de sua crítica à ordenação do bispo gay que Dom Robinson se viu “desligado” da IEAB pelo bispo primaz Orlando Santos Oliveira. Desde então, a Diocese do Recife integra a Comunhão Anglicana e é reconhecida pelo Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, porém, não faz mais parte da IEAB. Apesar de ser como um herege entre os anEm alusão ao seu isolamento teológico entre os anglicanos brasileiros, o bispo chegou a ser definido como “o John Wayne do Nordeste”. Dom Robinson falou sobre sua solitária luta contra as ideias liberais entre os anglicanos durante sua passagem pela cidade de Itaquaquecetuba, na região do Alto Tietê (SP), onde visitou o Ponto Missionário de Discípulos Emaús que, assim como outras comunidades anglicanas no Sudeste, está sob jurisdição eclesiástica da Diocese do Recife. Confira:


Exibir gospel - De que forma o senhor embasou sua posição contrária à união homossexual entre os anglicanos liberais?


Dom Robinson Cavalcanti - Nossa posição tem sido explicitada desde que foi ordenado um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos, em 2003, quando teve início, então, um conflito com os anglicanos que defendem a teologia liberal. Na Conferência de Lamberth, na Inglaterra, que reuniu bispos anglicanos do mundo todo, em 1998, o Conselho Diocesano do Recife indicou que o seu bispo deveria votar pela resolução sobre sexualidade humana que diz que o sexo é um dom de Deus, uma coisa boa que deve ser usufruída pela humanidade, e o lócus ideal dessa sexualidade é a união heterossexual estável. Na Conferência de Lamberth, nós votamos junto com anglicanos do mundo todo que afirmaram a dignidade da pessoa humana, o pleno direito de cidadania para todos, mas que, ao mesmo tempo, disseram que é biblicamente impossível apoiar a prática homossexual. Os que têm inclinações homoeróticas devem ser acolhidos na sua luta, mas não se pode deixar de afirmar que essa prática é contrária ao ensino das Sagradas Escrituras. É a mesma posição da maioria das dioceses do mundo todo que aprovaram conosco a resolução sobre sexualidade humana em Lamberth.


EG - Se a sua posição é majoritária entre os anglicanos, por que desagrada tantos membros no Brasil?


Dom Robinson - Aqui a igreja anglicana sofreu, a partir dos anos 1980, uma forte influência da teologia liberal norte-americana e hoje a Província da IEAB é uma linha auxiliar do liberalismo teológico americano. Há uma ligação íntima entre os liberais brasileiros e americanos, que resulta em envio de verbas e intercâmbios. Na Conferência de Lamberth, os norte-americanos se insurgiram contra as decisões da Comunhão Anglicana e se tornaram, digamos assim, os líderes da oposição. Eles são a minoria a nível mundial, mas têm o apoio dos brasileiros. Por isso, a resolução sobre sexualidade foi aprovada por mais de 80% dos delegados em Lamberth, mas eu fui o único do Brasil que votou com a maioria e contra a dissidência americana.


EG - O fato de o casamento gay constar na pauta política nacional faz essa tensão se manter?


Dom Robinson - Sim. Por exemplo, em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) estendeu aos homossexuais o instituto das uniões estáveis. O bispo primaz da IEAB foi o único líder evangélico que saudou a resolução do STF. Enquanto isso, nós da Diocese do Recife fomos a público lamentar a decisão. Entendemos que houve uma extrapolação do Poder Judiciário, mais um choque entre o Estado e a Nação, que foi agredida nos seus valores e na sua história. No Brasil, o Poder Legislativo é o que menos legisla, o que na prática é feito pelo Poder Executivo, por meio de Medidas Provisórias, e pelo Poder Judiciário, por meio das suas interpretações questionáveis. Eu entendo que houve a legalização da imoralidade.


EG - Como o senhor define a teologia liberal?


Dom Robinson - A teologia liberal moderna era influenciada pelo iluminismo e racionalismo, baseada na ideia de que só se atinge a verdade pela razão, portanto, devemos tirar do ensino da Igreja qualquer dimensão de milagre. Isso foi uma experiência historicamente fracassada. As pessoas vão à igreja para buscar uma dimensão de mistério. Se elas quiserem reflexão intelectual, elas vão para a faculdade. Agora temos a teologia liberal pós-moderna. Ela não crê que existe verdade, ao contrário, prega que cada um tem a sua verdade, e isso redunda num relativismo. São pessoas que acreditam que a Bíblia é devocacional, mas que não contém revelação e que a igreja é apenas um espaço para compartilhar liturgia. Se você já tinha um esvaziamento da autoridade da Bíblia pela teologia liberal racionalista, agora piorou, porque na teologia liberal pós-moderna, você tem a negação explícita da singularidade de Jesus Cristo, a negação dos milagres e de tudo mais que possa soar uma declaração dogmática. Nesse contexto, a presidente da Igreja Anglicana nos EUA declarou que Jesus é ‘meu caminho, mas não o caminho’.


EG - O senhor faz distinção entre protestante e evangélico, o que os termos significam?
Dom Robinson - O termo protestante é bem amplo e diz respeito às igrejas oriundas ou influenciadas pela Reforma. No Brasil, o que chamo de ‘protestante de IBGE’ é a construção de uma categoria mais elástica que abriga desde os paraprotestantes até o imenso mundo neopentecostal que é tratado como protestante, mas que nem historicamente e nem doutrinalmente tem qualquer ponto de ligação com a Reforma. O termo evangélico na Europa é sinônimo de protestante, no sentido de reformado, mas eu diria que diz mais respeito à ala dos protestantes que crê na autoridade das Sagradas Escrituras, na singularidade de Cristo, no papel central da Cruz e na necessidade de conversão. O protestante não-evangélico seria o termo ideal para as seitas paraprotestantes como Testemunhas de Jeová, Mórmons e Ciência Cristã.


EG - Em qual classificação se encaixaria, por exemplo, a Igreja Universal?


Dom Robinson - Tem havido intenso debate sobre isso no meio acadêmico. Algumas pessoas como o sociólogo Paul Freston, professor da Universidade Federal de São Carlos, afirmam que ainda há traços de protestantismo na IURD e são otimistas quanto ao futuro e evolução dela na direção do evangelicalismo. Eu sou da posição contrária. Não identifico nenhum traço de protestantismo na IURD a não ser o uso físico da Bíblia,  e esses últimos 20 anos têm demonstrado que, ao contrário do que aconteceu com outras seitas no passado, a Igreja Universal não foi se aproximando mais do centro evangélico; ao contrário, ficou mais distante ao adotar superstições, afinal, falar em encosto no meio protestante é fazer tremer os ossos de Lutero.


EG - Como o senhor avalia a teologia da prosperidade?


Dom Robinson - É uma teologia que nega toda a doutrina cristã de dois mil anos, que é baseada na simplicidade, no despojamento e na crença da recompensa da vida eterna. No fundo, a referida teologia é uma maneira de acomodar o cristianismo ao capitalismo, que se tornou hegemônico após a queda do muro de Berlim, a crise da social-democracia e a ausência no momento, porque a história é dinâmica, de alternativas. É uma teologia que acoplou elementos da igreja romana, a água benta, e dos cultos afro-ameríndios, o conceito de encosto. A criação dessa nova vertente do cristianismo foi confundida como protestantismo. Muita gente rejeita a Reforma por causa dessas igrejas que de reformadas não têm nada.


EG - Qual é o maior risco que a Igreja enfrenta hoje?


Dom Robinson - Deixar de cumprir o seu papel. A Igreja não pode ser refém da agenda do seu tempo, ou seja, não pode acatar as crenças da época em que se vive. A agenda do nosso tempo é o secularismo, o multiculturalismo e o politicamente correto. Nos dias de hoje, adotar a agenda do nosso tempo significa acatar tudo isso. E então, e vez da Igreja ser o sal da terra, a terra passa a ser o sal da Igreja.


A identidade anglicana


De origem inglesa, a Igreja Anglicana é católica na sua liturgia e protestante em sua teologia, uma identidade mista que não é encontrada em qualquer outra denominação protestante. Desperta a curiosidade também por ser a denominação na qual se casaram o príncipe William, o sucessor do trono inglês, e Kate Middleton. O mundo inteiro acompanhou pela tevê a cerimônia e muitos se questionaram: é uma igreja católica ou protestante?
Os primórdios da igreja cristã inglesa apontam para as tradições dos primeiros celtas que se aproximaram do cristianismo. Quando a Bretanha era uma colônia romana, comerciantes e militares romanos passaram a exercer a sua influência. Tudo indica que os celtas tenham iniciado muito cedo a igreja cristã em sua etnia, especialmente ao norte da atual Inglaterra, Escócia e Irlanda.
Fiéis aos seus traços culturais étnicos, eles fizeram da igreja cristã uma instituição livre, sem vínculos com Roma, organizada de forma monástica e tribal. A igreja cristã inglesa existiu separada de Roma por seis séculos.
Mesmo quando foi incorporada pelo Papa Clemente, a Igreja Anglicana manteve as suas tradições essenciais. Quando o rei Henrique VIII, por motivos pessoais (ele queria se casar novamente, o que o Papa negou), optou pela ruptura, a tradição inglesa já existia.
Os anglicanos mantêm uma estética religiosa distinta, que abriga arquitetura, pintura, escultura e liturgia semelhantes à imagética católica. Eles despojaram de sua missa os elementos que não podem ser conciliados com a Bíblia, mas mantiveram as ordens sacramentais (diácono, presbítero, bispo).
Além disso, a hierarquia eclesiástica também lembra a romana, com uma diferença essencial: a ausência de um papa. No mais, o arcabouço teológico anglicano é ortodoxo e reformado. Para Dom Robinson Cavalcanti, tal identidade peculiar dá aos anglicanos a capacidade de incorporar na sua prática eclesiástica uma tradição muito mais rica.
Ele lembrou que no Brasil, por razões históricas, houve uma proibição imperial quanto ao uso de símbolos nas capelas evangélicas e, por causa da polarização com a igreja romana, os evangélicos perderam a dimensão do símbolo, o que a anglicana sempre manteve. “É a Igreja mais católica entre as protestantes e a mais protestante entre as católicas. Ou como me disse um matuto do Nordeste: tem casca de católico e miolo de crente”.


Fonte:  Renato Suhett

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Entrevista - Dr Russel Shed


Avivamento é uma admissão de carência e deficiência em uma área doutrinária ou prática

Por causa de suas muitas viagens para pregar, tanto em conferências de grande porte quanto em igrejas pequenas e pobres de várias denominações evangélicas por esse Brasil afora, muitos brasileiros conhecem Russell Philip Shedd, simpático missionário americano. Em 2012 ele irá completar 50 anos de ministério no Brasil. Nascido na Bolívia, onde seus pais eram missionários, e casado com Patrícia, sua ex-aluna em um colégio evangélico do Alabama, o doutor Shedd, como é conhecido, embora já tenha completado 80 anos e tenha tido um sério problema de saúde no final de 2010, ainda está em atividade. Seu ministério atual é dar cursos intensivos em escolas teológicas, fazer preleções e mensagens em congressos, igrejas e encontros, além de continuar a escrever livros. No momento, ele está trabalhando em um livro sobre autoridade e poder. Nesta entrevista, Shedd diz que, com a abertura do sexto selo, o pavor tomará conta de todo o mundo, levando qualquer pessoa, inclusive os ateus, a dobrar o joelho e confessar que Jesus é o Senhor.

Em sua carta à igreja de Éfeso, Jesus pediu que a comunidade se arrependesse e voltasse a fazer “o que faziam no princípio” (Ap 2.5). Ao longo da história, a igreja visível também tem precisado voltar atrás?
Certamente. O declínio das igrejas é visto repetidas vezes ao longo da história. A própria Reforma foi uma volta parcial ao início, especialmente na compreensão da doutrina da salvação.

Voltar atrás é virtude ou covardia?
Voltar atrás é claramente virtude, se se volta para a santidade com arrependimento e contrição. Não foi essa a atitude de Davi depois do seu adultério e homicídio?

Voltar atrás é a mesma coisa que se converter?
Pode ser um caso contrário. Uma pessoa genuinamente convertida, habitada pelo Espírito Santo, filha de Deus, pode cair em tentação, durante um período de frieza. Como no caso de Pedro, que negou a Jesus, mas voltou. Acredito que ele foi verdadeiramente um discípulo de Cristo antes e depois da negação.

O que é mais difícil: voltar atrás depois de um desvio de comportamento ou depois de um desvio de fé?
Dependendo do tipo de desvio, a volta depois de uma queda feia cria uma vergonha tão grande no desviado que ele não tem coragem de se mostrar mais na comunidade. A volta de um desvio da fé individual não é difícil, enquanto um desvio doutrinário que se implantou numa igreja ou denominação pode ser quase impossível. Será que a Igreja Católica, tendo mudado a fé neotestamentária durante mil anos, teria facilidade de voltar? A história de Reforma mostra com que dificuldade se retorna à simplicidade da fé.

Para a igreja experimentar um avivamento, ela e seus pastores precisam voltar atrás em algo?
Avivamento é uma admissão de carência e deficiência numa área doutrinária ou prática. Para reconhecer e voltar para o primeiro amor, para voltar para uma vida dedicada ao amor prático ou retomar um compromisso com missões, os líderes e o próprio povo têm de voltar atrás.

No que diz respeito a Maria, a Igreja Católica precisa dar um passo para trás e a igreja protestante, um passo para frente? Nada mais importante a dizer do que recomendar a leitura do livro “Quem é Jesus?” de Gerald Bray, (capítulo 2, “A anunciação”, p. 21-30). Tanto a doutrina da imaculada Conceição como a assunção de Maria têm pouca base bíblica para nossa fé. Os protestantes liberais, que negam a veracidade e infalibilidade das Escrituras, também geralmente negam o nascimento virginal de Jesus. Quem crê na inspiração divina das Escrituras não tem como negar que Maria foi a mãe de Jesus, concebido pelo Espírito Santo. Assim, Jesus Cristo é o Filho do Homem e o Filho unigênito de Deus (Jo 1.18).

Paulo afirma que “todo o Israel será salvo” (Rm 11.26). Isso significa que a nação eleita voltará atrás e reconhecerá Jesus como o Messias esperado? Ainda que alguns intérpretes não entendam esse texto bíblico dessa forma, penso que, de fato, Israel, antes da volta de Cristo, voltará atrás e aceitará seu Messias crucificado e ressurreto.

Paulo também afirma que ao nome de Jesus todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é o Senhor (Fp 2.10-11). Em algum momento, ainda futuro, o mundo inteiro voltará atrás quanto a Jesus? Entendo que esse texto seguramente mostra que todos reconhecerão quem é de fato o Senhor Jesus, mas não quer dizer que todos serão salvos. Um ato de adoração como esse, predito por Paulo, surgirá pela evidência do fato de que Jesus Cristo é o Filho de Deus. O pavor que encherá os corações (conforme o sexto selo, em Apocalipse 6) levaria qualquer pessoa, inclusive ateus, a dobrar o joelho e confessar que Jesus é Senhor.

Fonte: ultimato

Eudmarly Sena

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Entrevista - Dr. Agustus Nicodemus Lopes


Por Trás da Cortina - A neo-ortodoxia já majoritária em nossos seminários? Isso já se reflete no comportamento e no pensamento do evangélico comum?

Augustus -  Eu não conheço a situação de todos os seminários evangélicos. Falando da minha denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil, não creio que a neo-ortodoxia seja majoritária em seus seminários. Pode acontecer que existam seminários de outras denominações, onde professores comprometidos com essa linha teológica formam mais e mais pastores a cada ano. Como resultado, existirá um reflexo cada vez maior, que é às vezes sentido de forma indireta, no comportamento evangélico, como por exemplo, uma visão mais aberta sobre a sexualidade.

·        PTDC - Por que a teologia ortodoxa perde cada vez mais espaço na igreja do século XXI? Como este processo pode ser revertido?

Augustus - Eu não diria que a teologia ortodoxa tem perdido mais e mais espaço em nossos dias. Na verdade, acredito que ela tem passado por um processo de crescimento em vários quartéis do evangelicalismo brasileiro. Por exemplo, existem hoje no Brasil várias editoras dedicadas à publicação de literatura reformada e conservadora, coisa que era impensável 25 anos passados. Além do que, muitos autores brasileiros têm despontado no horizonte das publicações evangélicas, e muitos deles são conservadores na teologia. A realização de congressos, simpósios e encontros sobre a teologia reformada pelo Brasil afora em um número cada vez maior aponta para o crescimento do interesse pela teologia reformada e conservadora. Naturalmente, essa teologia ortodoxa precisa passar por um processo de adaptação às circunstâncias brasileiras, e em certo sentido, é isso que está faltando.

·        PTDC - No blog tempora-mores, você tem abordado muito o problema do liberalismo, e agora, da neo-ortodoxia. Entretanto, o neopentecostalismo não representa uma ameaça muito maior no contexto brasileiro? Por que este assunto ainda não foi abordado no blog?

Augustus - Acaba de ser, com uma postagem minha sobre a teologia da Marcha para Jesus, um evento que no Brasil é comandado por uma igreja neopentecostal. Considero a neo-ortodoxia, o liberalismo e o neopentecostalismo como ameaças concretas à Igreja de Cristo. Só que ainda o neopentecostalismo não recebeu tanto a nossa atenção. Somos três escritores no blog O Tempora, O Mores, e raramente paramos para fazer uma agenda dos assuntos a serem postados. No geral, somos livres para postar sobre qualquer assunto que quisermos. Nada impede que amanhã um de nós poste mais alguma coisa sobre o neopentecostalismo.


·        PTDC - Por que o impacto das igrejas históricas é tão reduzido na sociedade brasileira do século XXI? Quais são as falhas que levaram a este cenário?

Augustus - Não sei ao certo. Uma análise social talvez mostrasse que elas não parecem relevantes diante do cenário brasileiro. Uma análise bíblica talvez revelasse a necessidade de uma purificação e de um verdadeiro avivamento espiritual. Uma análise histórica talvez apontasse para a negligência de ênfases que no passado caracterizaram as igrejas reformadas que fizeram a diferença nas sociedades em que estavam inseridas. O que sei ao certo é que o impacto do Evangelho em nosso país passa por uma profunda reforma espiritual e doutrinária na igreja evangélica brasileira.

·        PTDC - Você tem esperança de que, um dia, as igrejas históricas e a teologia ortodoxa possam realmente impactar profundamente a sociedade brasileira? O que precisa acontecer para que este sonho se torne realidade?

Augustus - Não penso muito sobre isso. Talvez devesse, mas na realidade, ocupo-me mais em fazer o trabalho de base, em ensinar, pregar, escrever, responder perguntas e comentários, na expectativa de ajudar individualmente pessoas que amanhã poderão fazer a diferença.

·        PTDC - Caro irmão Augustus, você escreveu um artigo há muitos anos chamado "Mulheres no Ministério: o que o Novo Testamento tem a dizer?" aonde defendia a sua posição de restrição das mulheres quanto ao ministério pastoral. Tempos depois, um irmão, pastor também da IPB, chamado Carlos Alberto Chaves Fernandes, escreveu um outro artigo refutando completamente o seu artigo, chamado "Mulheres no Ministério: o que o Novo Testamento REALMENTE tem a dizer?". Gostaria de saber se o amado treplicou este artigo, e se o fez, se poderia nos enviar a tréplica.

      Augustus - Não considero que a réplica refutou completamente minha argumentação. Na verdade, acredito que passou muito longe disso. Não escrevi uma tréplica porque não desejei tornar o debate em um confronto pessoal e também porque não achei que era necessário. Qualquer pessoa razoavelmente preparada pode ler os dois artigos e perceber a diferença entre ambos. Deixemos que os artigos falem por si sós.

·        PTDC - Uma das máximas da fé reformada é o Sola Scriptura. No entanto, em  muitos artigos, livros, listas e textos de autores de linha reformada/calvinista encontro uma extrema profusão de citações a Calvino e a Credos e Confissões? Não seria isso, na prática, uma negação do Sola Scriptura? Não induziria isso ao entendimento de que Calvino e os Credos e as Confissões têm valor escriturístico, sendo, na prática, "sinônimos"?

 Augustus - Não vejo o menor perigo. Pode haver algum calvinista desavisado que acabe dando essa impressão, mas todo calvinista sério sabe que as confissões e os credos não são inspirados e nem são infalíveis. Sabem também que são muito úteis e que representam a condensação do pensamento do cristianismo clássico conservador através dos séculos. Sou aberto para investigar e estudar as Escrituras e aperfeiçoar o que pode ser aperfeiçoado na teologia, sem, contudo, relegarmos à obsolescência aquilo que homens melhores e mais preparados que nós fizeram no passado. Os que acusam os calvinistas de colocarem credos e confissões em igualdade à Bíblia se valem de credos e confissões de autores de outras linhas em sua leitura e interpretação da Bíblia.

·        PTDC - Em contato com muitos irmãos, tenho encontrado uma profusão de adjetivos: cessacionista, pedobatista, aliancista, reformado, supralapsariano, infralapsariano, congregacionalista... adjetivos estes adicionados ao nome como forma de identificação. Será que sermos apenas "cristãos" não é mais suficiente? Não é a ênfase extremada em tantos adjetivos e designações e especificações causa de muitas de "nossas infelizes divisões", como diz o Livro de Oração Comum?

·        PTDC - O cristianismo viveu uma época (séculos XVI a XVIII) onde a ortodoxia era defendida com tal rigor que mesmo onde as diferenças eram pequenas, o rompimento entre as partes era inevitável. Por outro lado, vivemos uma época onde a doutrina e a ortodoxia perderam sua importância na vida prática da igreja. É possível vivermos um cristianismo onde a ortodoxia não divida necessariamente as denominações, permitindo um trabalho conjunto em certos casos, mas não seja tão negligenciada na vida diária das igrejas e dos cristãos?

·        PTDC - Muitos cristãos dos dias de hoje defendem uma volta radical à teologia, prática e costumes que remontam às origens da reforma. Esse movimento se reflete não só nas questões de salmódia exclusiva, neopuritanismo e outras correntes entre os reformados, mas também em outras denominações protestantes. Essa reação ao relativismo não seria por demasiado radical, levando em consideração que os reformadores, os puritanos e os avivalistas reagiram face aos desafios propostos por sua própria época, e porque não dizer, um retrocesso?


Augustus - Acredito que se você estivesse convencido que a teologia e a práticada Reforma representam o Evangelho bíblico, também defenderia uma voltaradical as origens da Reforma certo? Para muitos evangélicos hoje, a Reformaprotestante representou um retorno às antigas doutrinas bíblicas que tinhamsido negligenciadas e abandonadas durante a idade média pelo catolicismoromano. Hoje, eles percebem que a situação é similar em muitos aspectos:práticas neopentecostais extremamente parecidas com as práticas católicas,um desvirtuamento do culto a Deus com a centralização no homem, umdesprezo pela doutrina bíblica, o sepultamento das doutrinas da graça e o surgimento de um semi-legalismo evangélico, e outros aspectos que pouco diferem da situação caótica em que estava o cristianismo no século 16. Tudo issofaz com que um retorno aos ensinamentos da reforma protestante pareça necessário, desejável e viável, já que as alternativas, como as igrejas tipo comunidades, as igrejas emergentes, os movimentos avivalistas, não têm nem de perto apresentado uma solução para a derrocada doutrinária e espiritual do evangelicalismo brasileiro. Isso não significa dizer que devemos trazer para osnossos dias as idiossincrasias de determinados grupos puritanos, como a questãoda salmodia exclusiva, a proibição radical da mulher falar no culto, a ausênciade instrumentos musicais da igreja, e outras particularidades. Essas coisas não fazem o menor sentido em nossos dias e devemos rejeitá-las firmemente. Elas não representam o cerne da reforma. E por fim, não considero um retrocessotrazemos para o presente as verdades bíblicas e que consideramos válidas euniversais em todas as épocas. Seria um retrocesso voltar a enfatizar ajustificação pela fé, a salvação pela graça, a soberania de Deus sobre o homem,a necessidade de santificação, a abrangência do cristianismo sobre todas asáreas da sociedade, que são ênfases da reforma protestante.

·        PTDC - Professor Nicodemus, o protestantismo histórico no Brasil tem se tornado uma religião cada vez mais elitista, perdendo força de penetração junto aos mais pobres, para os pentecostais e neopentecostais, e atualmente perdendo força junto à classe média, por conta dos avanços dos neopentecostais, das chamadas "comunidades evangélicas" e dos novos movimentos apostólicos. Como resgatar o envolvimento missionário dos protestantes, lembrando que os puritanos, o metodismo primitivo, os não-conformistas batistas e congregacionais tiveram seu maior exito junto às classes médias e baixas de sua época?


Augustus - Permita-me discordar da sua avaliação, implícita na pergunta. Emprimeiro lugar, não creio que o protestantismo histórico tenha se tornado cadavez mais elitista. Tenho viajado pelo Brasil afora e pregado em muitas igrejashistóricas de diferentes denominações, e raríssimas vezes tenho encontrado igrejas cuja membresia seja caracterizada por qualquer tipo de elite. Aocontrário, encontro mais e mais e irmãos das classes pobres, pois a classe pobretem crescido mais e mais no Brasil. Quem tem se tornado elitista, na verdade,como você disse, são as igrejas neopentecostais, os movimentos apostólicos,com seus pretensos apóstolos dirigindo carros importados e vivendo de maneira nababesca, e ensinando que ser pobre é pecado. O movimento pentecostaltambém tem se elitizado, atingindo cada vez mais a camada média e alta danossa sociedade, com padrão elevado de vida para os obreiros e dirigentes. Vocêencontrará nas favelas não somente igrejas pentecostais, mas também presbiterianas, batistas e outras. Não creio que devamos colocar a questãocomo uma alternativa de evangelizar os pobres ou evangelizar os ricos. Ambosprecisam de evangelização. Qual é o problema se as igrejas históricas tiveremmaior sucesso junto às elites e classe média, e os irmãos pentecostais entre as mais pobres? Se considerarmos as igrejas pentecostais e históricas como igrejas irmãs, podemos encarar a questão da seguinte maneira: num país tão grandecomo o Brasil, devemos repartir a tarefa de evangelização, cada um de nós sededicando a aquilo que sabe fazer melhor ou que tem a melhor oportunidade para fazer.

·        PTDC - Existem versículos que nos mandam evangelizar e pregar a Palavra. Mas também existem versículos que nos mandam alimentar os famintos, vestir os nus e nos envolvermos ativamente junto aos pobres. Os evangélicos em geral dão muita ênfase no pregar a Palavra e pouquíssima ênfase no fazer o bem a todos. Talvez isso se dê pela doutrina protestante da Salvação pela Fé e pela Graça, por oposição à Salvação pelas Boas Obras, do catolicismo. Ao negligenciarmos a ação social, não estamos deixando o fazer o bem como uma bandeira exclusiva de movimentos espíritas ou católicos romanos? Isso não é uma vivência de fé por demais individualista?


Augustus - Mais uma vez peço permissão para discordar das premissas de suapergunta. Não posso concordar que os evangélicos dão pouquíssima ênfase nofazer o bem a todos. Acredito que hoje o movimento evangélico do Brasil está mais sensibilizado do que antes para com as questões sociais, embora estejamos ainda muito longe de fazermos tudo que deveríamos fazer. Não sei se o motivopara termos ficado tanto tempo desconectados da realidade social brasileira foiuma reação à doutrina da salvação pelas obras do catolicismo e do espiritismo.Pode ser que tenha sido. Mas, tenho certeza que não foi por causa da doutrina protestante da salvação pela fé mediante a graça, pois somente quanto essa doutrina não é corretamente entendida é que ela se torna em um analgésico ouparalisante doutrinário. Uma pessoa que foi genuinamente salva pela graça,viverá a uma vida de gratidão a Deus, e demonstrará essa gratidão em boasobras de misericórdia. Infelizmente, as alternativas que têm surgido no cenário brasileiro, como a teologia da libertação, a teologia da prosperidade, e outras,acabam se tornando em sérios desvios doutrinários da palavra de Deus, fazendocom que os evangélicos sérios fiquem preocupados e receosos de entrar nessaárea sem uma teologia forte e firme por detrás. Creio que podemos aprendercom a Reforma protestante, especialmente com aquilo que os reformadores escreveram e praticaram acerca da responsabilidade social das igrejas, como por exemplo, na cidade de Genebra, sob a batuta do mestre Calvino.


·         O Dr. Augustus Nicodemus Lopes é Ministro Presbiteriano, editor do blog:http://tempora-mores.blogspot.com , agradecemos sua atenção ao ceder essa entrevista ao PTDC.
·         Para Maiores Esclarecimentos Sobre Neo-Ortodoxia visite o blog: http://tempora-mores.blogspot.com
·         Glossário de Termos Teológicos
1.      Neo – Ortodoxia: Expressão que designa a posição defendida por Karl Barth (1886-1968), sobretudo no que concerne à maneira como ele se inspirou e interagiu com a teologia do período da ortodoxia reformada.
2.      Ortodoxia: Termo empregado com diversas acepções, dentre as quais as mais importantes são: (a) “doutrina correta”, em oposição à heresia; (b) forma de cristianismo dominante na Rússia e na Grécia; (c) corrente que surgiu no seio do protestantismo, sobretudo no final do século XVI e início do século XVII, e que destacava a necessidade da definição doutrinária.
3.      Teologia da Libertação: Embora o termo possa designar qualquer movimento teológico que ressalte a importância do impacto libertador do evangelho, com o tempo passou a designar especificamente o movimento que surgiu na América Latina, no final da década de 1960, que enfatizava o papel da ação política e orientava-se conforme o propósito de uma libertação política frente à miséria e à opressão.
4.      Protestantismo: termo, que surgiu em conseqüência da dieta de Speyer (1529), utilizado para designar aqueles que “protestavam” contra as práticas e doutrinas da Igreja Católica Romana. Antes de 1529, esses indivíduos e grupos se autodenominavam “evangélicos”.
5.      Protestantismo Liberal: movimento que surgiu na Alemanha, no século XIX, que destacava o aspecto da continuidade entre religião e cultura, o qual floresceu entre o período de Scheleiermacher e Paul Tillich.
6.      Reformado: termo que designa a tradição teológica inspirada nas obras de João Calvino (1510-1564) e seus sucessores. Seu uso é preferido

Fonte: Por Trás da Cortina