quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

DOM ROBINSON CAVALCANTI: SEM PAPAS NA LÍNGUA!!




Desligado da Igreja Anglicana do Brasil por manifestar-se contra a ordenação de um bispo gay nos EUA, Dom Robinson Cavalcanti mantém-se firme em defesa da ortodoxia bíblica e dispara críticas a outras denominações brasileiras que se renderam às teologias liberal e da prosperidade


Paladino da ortodoxia bíblica, Dom Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife, ligada à Comunhão Anglicana, “tem comido o pão que o diabo amassou”, nas palavras de um amigo seu de longa data. O caso do bispo é sui generis no meio evangélico, pois a sua defesa do casamento e da exortação bíblica sobre o homossexualismo lhe rendem críticas e forte oposição dentro de sua própria denominação.
Na condição de bispo da Diocese recifense, Dom Robinson se opôs à ordenação de um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos. Embora muitas lideranças anglicanas mundo afora tenham manifestado o mesmo desconforto com a agenda liberal dos americanos, a posição do pernambucano foi minoritária na Igreja Anglicana do Brasil (IEAB) que, segundo ele, recebe forte influência dos colegas americanos.
Foi justamente por causa de sua crítica à ordenação do bispo gay que Dom Robinson se viu “desligado” da IEAB pelo bispo primaz Orlando Santos Oliveira. Desde então, a Diocese do Recife integra a Comunhão Anglicana e é reconhecida pelo Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, porém, não faz mais parte da IEAB. Apesar de ser como um herege entre os anEm alusão ao seu isolamento teológico entre os anglicanos brasileiros, o bispo chegou a ser definido como “o John Wayne do Nordeste”. Dom Robinson falou sobre sua solitária luta contra as ideias liberais entre os anglicanos durante sua passagem pela cidade de Itaquaquecetuba, na região do Alto Tietê (SP), onde visitou o Ponto Missionário de Discípulos Emaús que, assim como outras comunidades anglicanas no Sudeste, está sob jurisdição eclesiástica da Diocese do Recife. Confira:


Exibir gospel - De que forma o senhor embasou sua posição contrária à união homossexual entre os anglicanos liberais?


Dom Robinson Cavalcanti - Nossa posição tem sido explicitada desde que foi ordenado um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos, em 2003, quando teve início, então, um conflito com os anglicanos que defendem a teologia liberal. Na Conferência de Lamberth, na Inglaterra, que reuniu bispos anglicanos do mundo todo, em 1998, o Conselho Diocesano do Recife indicou que o seu bispo deveria votar pela resolução sobre sexualidade humana que diz que o sexo é um dom de Deus, uma coisa boa que deve ser usufruída pela humanidade, e o lócus ideal dessa sexualidade é a união heterossexual estável. Na Conferência de Lamberth, nós votamos junto com anglicanos do mundo todo que afirmaram a dignidade da pessoa humana, o pleno direito de cidadania para todos, mas que, ao mesmo tempo, disseram que é biblicamente impossível apoiar a prática homossexual. Os que têm inclinações homoeróticas devem ser acolhidos na sua luta, mas não se pode deixar de afirmar que essa prática é contrária ao ensino das Sagradas Escrituras. É a mesma posição da maioria das dioceses do mundo todo que aprovaram conosco a resolução sobre sexualidade humana em Lamberth.


EG - Se a sua posição é majoritária entre os anglicanos, por que desagrada tantos membros no Brasil?


Dom Robinson - Aqui a igreja anglicana sofreu, a partir dos anos 1980, uma forte influência da teologia liberal norte-americana e hoje a Província da IEAB é uma linha auxiliar do liberalismo teológico americano. Há uma ligação íntima entre os liberais brasileiros e americanos, que resulta em envio de verbas e intercâmbios. Na Conferência de Lamberth, os norte-americanos se insurgiram contra as decisões da Comunhão Anglicana e se tornaram, digamos assim, os líderes da oposição. Eles são a minoria a nível mundial, mas têm o apoio dos brasileiros. Por isso, a resolução sobre sexualidade foi aprovada por mais de 80% dos delegados em Lamberth, mas eu fui o único do Brasil que votou com a maioria e contra a dissidência americana.


EG - O fato de o casamento gay constar na pauta política nacional faz essa tensão se manter?


Dom Robinson - Sim. Por exemplo, em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) estendeu aos homossexuais o instituto das uniões estáveis. O bispo primaz da IEAB foi o único líder evangélico que saudou a resolução do STF. Enquanto isso, nós da Diocese do Recife fomos a público lamentar a decisão. Entendemos que houve uma extrapolação do Poder Judiciário, mais um choque entre o Estado e a Nação, que foi agredida nos seus valores e na sua história. No Brasil, o Poder Legislativo é o que menos legisla, o que na prática é feito pelo Poder Executivo, por meio de Medidas Provisórias, e pelo Poder Judiciário, por meio das suas interpretações questionáveis. Eu entendo que houve a legalização da imoralidade.


EG - Como o senhor define a teologia liberal?


Dom Robinson - A teologia liberal moderna era influenciada pelo iluminismo e racionalismo, baseada na ideia de que só se atinge a verdade pela razão, portanto, devemos tirar do ensino da Igreja qualquer dimensão de milagre. Isso foi uma experiência historicamente fracassada. As pessoas vão à igreja para buscar uma dimensão de mistério. Se elas quiserem reflexão intelectual, elas vão para a faculdade. Agora temos a teologia liberal pós-moderna. Ela não crê que existe verdade, ao contrário, prega que cada um tem a sua verdade, e isso redunda num relativismo. São pessoas que acreditam que a Bíblia é devocacional, mas que não contém revelação e que a igreja é apenas um espaço para compartilhar liturgia. Se você já tinha um esvaziamento da autoridade da Bíblia pela teologia liberal racionalista, agora piorou, porque na teologia liberal pós-moderna, você tem a negação explícita da singularidade de Jesus Cristo, a negação dos milagres e de tudo mais que possa soar uma declaração dogmática. Nesse contexto, a presidente da Igreja Anglicana nos EUA declarou que Jesus é ‘meu caminho, mas não o caminho’.


EG - O senhor faz distinção entre protestante e evangélico, o que os termos significam?
Dom Robinson - O termo protestante é bem amplo e diz respeito às igrejas oriundas ou influenciadas pela Reforma. No Brasil, o que chamo de ‘protestante de IBGE’ é a construção de uma categoria mais elástica que abriga desde os paraprotestantes até o imenso mundo neopentecostal que é tratado como protestante, mas que nem historicamente e nem doutrinalmente tem qualquer ponto de ligação com a Reforma. O termo evangélico na Europa é sinônimo de protestante, no sentido de reformado, mas eu diria que diz mais respeito à ala dos protestantes que crê na autoridade das Sagradas Escrituras, na singularidade de Cristo, no papel central da Cruz e na necessidade de conversão. O protestante não-evangélico seria o termo ideal para as seitas paraprotestantes como Testemunhas de Jeová, Mórmons e Ciência Cristã.


EG - Em qual classificação se encaixaria, por exemplo, a Igreja Universal?


Dom Robinson - Tem havido intenso debate sobre isso no meio acadêmico. Algumas pessoas como o sociólogo Paul Freston, professor da Universidade Federal de São Carlos, afirmam que ainda há traços de protestantismo na IURD e são otimistas quanto ao futuro e evolução dela na direção do evangelicalismo. Eu sou da posição contrária. Não identifico nenhum traço de protestantismo na IURD a não ser o uso físico da Bíblia,  e esses últimos 20 anos têm demonstrado que, ao contrário do que aconteceu com outras seitas no passado, a Igreja Universal não foi se aproximando mais do centro evangélico; ao contrário, ficou mais distante ao adotar superstições, afinal, falar em encosto no meio protestante é fazer tremer os ossos de Lutero.


EG - Como o senhor avalia a teologia da prosperidade?


Dom Robinson - É uma teologia que nega toda a doutrina cristã de dois mil anos, que é baseada na simplicidade, no despojamento e na crença da recompensa da vida eterna. No fundo, a referida teologia é uma maneira de acomodar o cristianismo ao capitalismo, que se tornou hegemônico após a queda do muro de Berlim, a crise da social-democracia e a ausência no momento, porque a história é dinâmica, de alternativas. É uma teologia que acoplou elementos da igreja romana, a água benta, e dos cultos afro-ameríndios, o conceito de encosto. A criação dessa nova vertente do cristianismo foi confundida como protestantismo. Muita gente rejeita a Reforma por causa dessas igrejas que de reformadas não têm nada.


EG - Qual é o maior risco que a Igreja enfrenta hoje?


Dom Robinson - Deixar de cumprir o seu papel. A Igreja não pode ser refém da agenda do seu tempo, ou seja, não pode acatar as crenças da época em que se vive. A agenda do nosso tempo é o secularismo, o multiculturalismo e o politicamente correto. Nos dias de hoje, adotar a agenda do nosso tempo significa acatar tudo isso. E então, e vez da Igreja ser o sal da terra, a terra passa a ser o sal da Igreja.


A identidade anglicana


De origem inglesa, a Igreja Anglicana é católica na sua liturgia e protestante em sua teologia, uma identidade mista que não é encontrada em qualquer outra denominação protestante. Desperta a curiosidade também por ser a denominação na qual se casaram o príncipe William, o sucessor do trono inglês, e Kate Middleton. O mundo inteiro acompanhou pela tevê a cerimônia e muitos se questionaram: é uma igreja católica ou protestante?
Os primórdios da igreja cristã inglesa apontam para as tradições dos primeiros celtas que se aproximaram do cristianismo. Quando a Bretanha era uma colônia romana, comerciantes e militares romanos passaram a exercer a sua influência. Tudo indica que os celtas tenham iniciado muito cedo a igreja cristã em sua etnia, especialmente ao norte da atual Inglaterra, Escócia e Irlanda.
Fiéis aos seus traços culturais étnicos, eles fizeram da igreja cristã uma instituição livre, sem vínculos com Roma, organizada de forma monástica e tribal. A igreja cristã inglesa existiu separada de Roma por seis séculos.
Mesmo quando foi incorporada pelo Papa Clemente, a Igreja Anglicana manteve as suas tradições essenciais. Quando o rei Henrique VIII, por motivos pessoais (ele queria se casar novamente, o que o Papa negou), optou pela ruptura, a tradição inglesa já existia.
Os anglicanos mantêm uma estética religiosa distinta, que abriga arquitetura, pintura, escultura e liturgia semelhantes à imagética católica. Eles despojaram de sua missa os elementos que não podem ser conciliados com a Bíblia, mas mantiveram as ordens sacramentais (diácono, presbítero, bispo).
Além disso, a hierarquia eclesiástica também lembra a romana, com uma diferença essencial: a ausência de um papa. No mais, o arcabouço teológico anglicano é ortodoxo e reformado. Para Dom Robinson Cavalcanti, tal identidade peculiar dá aos anglicanos a capacidade de incorporar na sua prática eclesiástica uma tradição muito mais rica.
Ele lembrou que no Brasil, por razões históricas, houve uma proibição imperial quanto ao uso de símbolos nas capelas evangélicas e, por causa da polarização com a igreja romana, os evangélicos perderam a dimensão do símbolo, o que a anglicana sempre manteve. “É a Igreja mais católica entre as protestantes e a mais protestante entre as católicas. Ou como me disse um matuto do Nordeste: tem casca de católico e miolo de crente”.


Fonte:  Renato Suhett

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