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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Acautelai-vos da Apologética!

Acautelai-vos da Apologética!

Acautelai-vos da Apologética! O título acima é uma paródia do artigo do dr. Greg Bahnsen sobre a vã filosofia.1  Naquele texto, expondo Colossenses 2.8, o dr. Bahnsen alerta contra “um determinado tipo de filosofia” que  não é “segundo Cristo”, pois rouba você de todos os tesouros da sabedoria e da ciência que estão depositados em Cristo.

Porém, contrário que possa parecer, o dr. Bahnsen não está se posicionando contra o estudo da filosofia. Pelo contrário, ele está defendendo que a melhor maneira de acautelar-se da filosofia é estudando-a. Em razão disto é que Paulo “adverte contra o potencial destrutivo da filosofia”. Para tanto, contra a má filosofia, apenas a boa filosofia, e esta é segundo Cristo “em quem estão todos os tesouros da sabedoria”(Cl 2.3). Em outras palavras, o melhor remédio contra uma “vã filosofia” é aquela em que Jesus Cristo seja não apenas a conclusão, mas também o ponto de partida do pensamento.

Ora, o cristão não deve ter outro compromisso exceto o de submeter-se ao Cristo revelado nas Escrituras. Jesus Cristo é a autoridade primeira em matéria de filosofia cristã. Assim, ao estudarmos filosofia, fazemo-lo para cumprir a ordem paulina com maior clareza e eficiência. Nas palavras do dr. Bahnsen:

Estudamos filosofia para certificarmos de que nossos pressupostos sobre a realidade, conhecimento e ética são verdadeiramente pressupostos que honram de Cristo. Estudamos filosofia para identificar quais tipos de pensamento podem nos tornar presas fáceis em nossa cultura. Em suma, estudamos filosofia acautelando-nos de pensar equivocado e comprometermo-nos a pensar a verdade sobre o homem e o mundo.

Apologética Segundo Cristo: suaviter in modo, fortiter in re
Agora, no tocante à Apologética, tenho a dizer o mesmo. Na iminência de concluir um mestrado Teologia Filosófica, com ênfase em Apologética e Exegese, fui descobrindo como é necessário ter cuidado com a Apologética. Em contato com autores de renome na área da Teologia Filosófica, Exegese e Apologética, descobri inúmeras advertências para que a nossa apologética seja “segundo Cristo”. E embora  não tenha conhecido pessoalmente quase nenhum dos autores que li, pude presenciar a aplicação destes princípios na postura de meu próprio orientador, o dr. Davi Charles Gomes, e de meus mestres – Prof. Fabiano Oliveira, Filipe Fontes, Tarcízio Carvalho, João Alves e outros.

O  dr. Davi Gomes, orientador de outros mestres, encarnou a máxima do dr. Cornelius Van Til, suaviter in modo, fortiter in re (gentil na maneira de agir, mas forte na resposta). E penso que esta frase reflete exatamente as palavras do apóstolo Pedro no texto que é considerado a base da apologética (1Pe 3.15). Aliás, ouvi no Seminário Presbiteriano do Norte (novembro de 2008), o dr. Davi fazer uma exposição deste texto e, como aplicação, ter trabalhado os “seis inimigos da Apologética”.


É curioso que enquanto muitos envolvidos com apologética consigam recitar com segurança a parte do verso que diz “estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”, alguns têm imensa dificuldade com o verso seguinte (na ARA): “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência...”(v. 16), isso sem contar que as palavras de Pedro para exercitar tal mandato iniciam como “santificai ao Senhor Deus em vossos corações”(ACF). Assim, Apologética começa com santificação de nossos corações a Cristo e opera respondendo com mansidão e temor aos que nos perguntam de nossa esperança.

Apologética Humilde, mas não Fraca
John G. Stackhouse,2  em seu Humble Apologetics, faz a seguinte advertência sobre a Apologética.

Apologética é um trabalho perigoso. Em uma época em que as vozes de vários lados relembram-nos de qual problemático são as reivindicações humanas para o conhecimento; em uma cultura que resiste cada vez mais e se ressente de que pede a conversão do outro; e em uma atividade cujo estereótipo é de vaidade racionalista e intimidação intelectual – que pessoa consciente e inteligente gostaria de se envolver em apologética? Se estamos a defender e recomendar a nossa fé, devemos fazê-lo em um novo modo: com uma voz diferente e em uma postura diferente. Nossa apologética deve ser humilde. Ela deve ser humilde por diversas razões, mas a principal entre elas é que Deus mesmo veio a nós em humildade, buscando o nosso amor e nos atraindo a ele. O Senhor Jesus Cristo é nosso modelo de humildade; o Espírito Santo de Deus é nosso companheiro humilde que nos ajuda a seguir o exemplo de Cristo como também a proclamarmos a mensagem de Cristo.

Apologética humilde não significa  uma apologética fraca, “em que alguém deve, digamos assim, perder um argumento e ganhar uma alma”.3  Falamos do reconhecimento que apologética é ferramenta cujo fim não é a vitória sobre outro, mas sim anular sofismas e levar pensamentos cativos a Cristo. Deixe-me apresentar um exemplo que o pastor John Burke conta em seu livro:4

Lembro-me de ter assistido a um debate na Willow Creek entre um conhecido ateísta e um apologista do cristianismo. Havíamos acabado de iniciar o ministério Axis em nossa igreja, e muitos de nossos líderes jovens haviam convidado amigos céticos para o debate. Do ponto de vista intelectual, o cristão destruiu os argumentos do ateísta e venceu claramente o debate. Entretanto, interrogando depois os líderes do Axis, descobrimos que seus amigos céticos concordaram que o cristão havia vencido a discussão, mas a maioria ficou tão desgostosa com sua atitude depreciativa para com o oponente que aquilo os convenceu ainda mais de que não queriam ser cristãos.

Infelizmente, alguns pensam que Apologética é uma ferramenta a ser usada como porrete para bater nos outros. O fato de a apologética servir para responder e atacar o incrédulo não significa que ela seja para brigar com todos.  O silêncio, às vezes, é também uma resposta. Se até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio, muito mais o experiente que fecha os seus lábios em tempo certo, visto que ao servo do Senhor não convém contender. Joshua Harris e Eric Stanford  acertam o alvo quando afirmam que “precisamos ser corajosos em nossa posição em favor da verdade bíblica. Mas também precisamos demonstrar graça em nossas palavras e em nossas interações com as pessoas [...]. Um dos erros frequentemente cometidos por nós cristãos é que aprendemos a repreender como Jesus, mas não a amar como Jesus”.5

Sempre que a Apologética não cumprir seu papel “com mansidão e temor” ela não estará sendo “segundo Cristo”. Portanto  é contra este tipo de apologética que precisamos lutar, porque ela rouba a beleza dos tesouros de Cristo e coloca a Criatura no lugar do Criador, uma vez que a glória de Deus é desviada para outro lugar: para o próprio apologista ou para longe do Evangelho. Francis Schaeffer, magistralmente, encontra o lugar da apologética: “o propósito da ‘apologética’ não é meramente ganhar uma disputa ou uma discussão, mas que as pessoas com as quais estamos lidando tornem-se cristãs que realmente colocam a sua vida sob o senhorio de Cristo, deixando-o tomar conta de toda a sua vida”.6  Isso  leva-me a considerar que a razão do “porrete apologético” encontra-se na separação da Apologética do Evangelho. Em outras palavras, quando alguns apologistas, especialmente os das novas mídias e redes sociais, veem a apologética como somente, eu disse somente, uma disciplina acadêmica, de vencer debates e demonstrar que têm argumentos, o resultado é um conhecimento que apenas incha. Você pode ver isto, além dos “debates facebookeanos”, também nos compêndios de Apologética. Estes são espécies de “manuais científicos” e, praticamente, voltados para o ambiente acadêmico. Aqueles “manuais Schopenhaureano” de como humilhar o oponente. Pode-se até parecer que a apologética não se aplica realmente ao dia a dia das pessoas comuns.

Não estou advogando uma apologética simplória, mas uma apologética simples, que o sapateiro ou o aluno na oitava série possam apresentá-la como bons discípulos de Cristos.

Como expressão desta “apologética academicista”, cito abaixo um exímio apologista cristão. Em seu livro Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time,7  o dr. Craig faz a seguinte declaração:

Alguns dos leitores de meu estudo da onisciência divina, The Only Wise God, ficaram surpresos acerca de minha observação de que alguém que deseje aprender mais sobre o atributo da onisciência de Deus seria mais bem aconselhado ler as obras dos filósofos Cristãos em vez dos teólogos Cristãos. Não apenas essa observação foi verdadeira, mas sustento o mesmo para a eternidade divina (grifos meus).

Em outro lugar, diz o autor: “Se você quiser praticar uma apologética eficaz, precisa ser treinado na filosofia analítica [...]. Seja qual for a área de especialização, você estará mais bem qualificado como apologista se tiver recebido treinamento em filosofia analítica”.8  Neste sentido, não custa perguntar com Tertuliano: “Quid ergo Athenis et Hierosolymis?( O que tem a ver Atenas e Jerusalém?).

A despeito de sua inquestionável habilidade e piedade, dr. Craig aproxima a Apologética de um campo do saber que está além da maioria dos cristãos. O resultado é que, exceto pelos acadêmicos, a apologética entre os leigos é, na maioria das vezes, péssima caricatura da boa defesa da fé.

Apologética, Teologia e Discipulado
A Apologética é uma disciplina eminentemente bíblica, por isso deveríamos esperar maior interação da disciplina com outras que relacionam com a Teologia ou com a “Enciclopédia Teológica” ,9 onde fica cada vez mais claro que a “Teologia Sistemática tem uma relação mais próxima com Apologética do que com qualquer outra disciplina”.10  O dr. Oliphint, em uma crítica ao dr. Craig, nos diz que,

Se alguém quer saber sobre a onisciência de Deus ou sua eternidade; se alguém quer pensar profundamente sobre Deus e seu relacionamento com o Mundo; se alguém quer fazer apologética, o primeiro lugar para olhar é para Escritura, e, depois, para aqueles teólogos que fielmente articularam seus ensinos. A Filosofia, mesmo a filosofia Cristã, tem uma longa e resoluta história de virar suas costas para a consistente Teologia Reformada. Portanto, ela não foi muito positiva com respeito às discussões Teológicas (ou filosófico-teológica).11

Especialmente diante da Grande Comissão (Mt. 28. 18 – 20),12  o cristão deverá anunciar “todas as coisas” que foram ensinadas pelo Senhor Jesus em sua missão de fazer discípulos. Isso não seria uma tarefa fácil. Pode-se falar dessa tarefa na forma que o Senhor disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos”(Mt. 10.16).

Os discípulos, em suas idas para transmitir o Evangelho, depararam-se com diversos desafios a fim de comunicar o Evangelho. Pedro e João perante o Sinédrio; Paulo perante os filósofos estoicos e epicureus; Paulo e Barnabé perante os sacerdotes de Listras; Paulo nas sinagogas dos Judeus arrazoando constantemente com eles demonstrando que Jesus é o Cristo etc. Mas também eles encontraram uma Lídia, uma vendedora de púrpura, que estava à beira do rio; responderam à pergunta do Carcereiro; Paulo defendeu a fé perante o povo (At. 21.72 – 22.21); e ensinou a todos que o visitavam na prisão domiciliar.

Pode-se dizer, portanto, que a base da apologética é o mandato de fazer discípulos. Nesse fazer discípulos, estão envolvidas algumas pressuposições: 1) que haveria necessidade de comunicar o Evangelho de modo eficaz; 2) que haveria necessidade de explicar o Evangelho aos contradizentes (Tt. 1.10); 3) que haveria a necessidade de justificar a crença no Evangelho; 4) que haveria a necessidade de confirmar a fé dos já crentes e; 5) que haveria a necessidade de desafiar os incrédulos no confronto com suas crenças.

Ora, na apologética somos, portanto, discípulos de Jesus Cristo. Por isso, devemos refletir seu caráter. O apologista deve ser gentil, paciente, cortês e não beligerante.

Estas qualidades dificilmente aparecem a muitos que sustentam fortes posições doutrinárias e que são prontos a defender suas posições. É fácil tornar-se teimoso e fervoroso para dominar seu oponente. Todavia, é a atitude oposta, que é pacífica e gentil, que demonstra que nossa sabedoria vem de cima (Tiago 3.13 – 17).13

Como  disse acima, na palestra do dr. Davi Gomes  no Seminário Presbiteriano do Norte,  sobre “seis inimigos do compromisso apologético”. Ele tomou por base, entre outros, o texto do dr. Douglas Groothius, professor de filosofia e apologética no Denver Seminary, “Six Enimies of Apologetics Engagement”.14  Ambos concordam que, “no outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do ‘apologista sabe-tudo’ que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa”. Certamente, este é o pecado que tenazmente nos assedia: o orgulho intelectual. E ele deve ser evitado a todo custo – lembra-se? Santificai a Cristo em vossos corações... – pois a verdade que temos nos veio como um dom da graça de Deus. “Nós desenvolvemos nossas habilidades apologéticas ao santificarmos na verdade, ao ganhar almas para Cristo e glorificar a Deus. Devemos ‘falar a verdade em amor’(Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância. Amor sem verdade é sentimentalismo”.15

Conclusão
Apologética é de suma importância ao cristão e todos os cristãos estão envolvidos, de um modo ou de outro, com apologética. Mas a apologética pode se degenerar em “vã apologética”, a apologética que não é “segundo Cristo”. E contra este tipo de apologética, uma boa apologética bíblica é o remédio. O apologista cristão precisa ter claro diante de si que sua resposta e desafio ao pensamento incrédulo devem ser feitos “com mansidão e temor”, santificando a Cristo em seu coração. Ele deverá oferecer a Deus  seu coração, pronto e sincero, como está escrito no selo de Calvino.

McGrath afirma que a “apologética corre o risco de passar a impressão de que basta mostrar que a fé é racional”.16  Sim, a fé cristã é racional, mas não basta apenas mostrar isso ao incrédulo. Não basta apresentar todas as premissas, as inferências ou provas, nem mesmo os mais elaborados silogismos e retórica. É preciso oferecer a Cristo o que Ele mesmo tem nos dado. Na construção do Templo do Senhor, todo o povo de Israel, juntamente com seus líderes e príncipes, “voluntariamente contribuíram” para a construção da Casa de Deus. Então, Davi louvou ao Senhor, reconhecendo que Deus mesmo, o Eterno, é o dono de todas as coisas nos céus e na terra. Então, o Rei perguntou: “Pois quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos [...]. SENHOR, nosso Deus, toda esta abundância, que preparamos, para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão, e é toda tua” (1Cr. 29.1 – 16). O que tem o apologista cristão que não tenha recebido?

C.S. Lewis certa vez descrevendo o perigo que o apologista corre, disse:

Não tenho encontrado nada mais perigoso para a fé de alguém do que a tarefa de um apologista. Nenhuma doutrina da fé parece para mim tão espectral, tão maravilhosa do que aquela que acabei de defender em um debate público. Por um momento, veja você, ela parecia repousar sobre si mesmo: como um resultado, quando você se vai do debate, já não parece tão forte quanto o fraco pilar. É por isto que nós, apologistas, tomamos nossas vidas em nossas mãos e podemos ser salvos apenas por retroceder continuamente das redes de nossos argumentos, de nossa reação intelectual, para a Realidade – da apologética Cristã para o próprio Cristo. Também é por isso que precisamos da ajuda um dos outros – oremus pro invicem(Oremos uns pelos outros).17

O apologista pode até se gloriar por sua brilhante atuação, seus elaborados argumentos irrefutáveis, “mas autoglorificação nunca é uma coisa espiritualmente saudável”,18  e ele estará colocando-se em terreno escorregadio, uma vez que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”(Pv. 16.18). E, por absolutizar a própria apologética, o apologista estará reduzindo a própria fé ao argumento em si, fazendo da apologética a sua tábua de salvação, ou seja, um ídolo.

O que disse acima não significa que eu não corra o mesmo risco. Pelo contrário, luto diariamente em apresentar uma defesa da fé cristã que seja tal como os diálogos de Jesus Cristo. Procuro lembrar-me de suas palavras: “sem mim, nada podeis fazer”(Jo. 15.5). De minha maneira de argumentar em algumas ocasiões mais acirradas, alguns amigos cunharam meus argumentos de ad tratorium (risos). Estou sempre ciente de que o Evangelho é sempre ofensivo ao incrédulo. Mas nem por isso devemos fazer de nossa apologética a palmatória, pois a única cruz a ser apresentada é a de Cristo, que é em si mesma escândalos para os incrédulos.

Certa vez, o dr. Van Til, advertindo acerca dos ídolos, disse:

Pela graça você é salvo. Você não foi mais sábio do que outros homens. Não é você quem tem escolhido a Cristo como seu Salvador. É Cristo, o Salvador, quem tem escolhido você para ser sua testemunha. Não é você, pela psicologia profunda, tem descoberto a verdadeira necessidade do homem; é Cristo que, através de seu servo João, diz a você que o mundo inteiro já no maligno.19

Mais uma vez afirmamos que humildade apologética não quer dizer abrir mãos das questões da verdade que cremos e defendendo dos incrédulos. O dr. Van Til dizia que a apologética deveria ser perseguida com uma “humildade ousada”. O dr. Bahnsen explica isso dizendo que “isto não quer dizer abrir mão nem mesmo um centímetro das questões da verdade sobre as quais discordamos com os incrédulos. Mas, isto quer dizer [...] que nós continuemos a pagar o próximo cafezinho para nosso oponente”.20

Esteja sempre preparado para responder a quem pedir a razão da esperança que há em você. Mas faça-o com mansidão e temor. Continue a pagar o próximo cafezinho. Mas lembre-se: Acautelai-vos da Apologética!


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1Disponível em: <http://profgaspardesouza.blogspot.com.br/2010/07/acautelai-vos-da-filosofia.html>.
2STACKHOUSE, John G. Humble Apologetics: Defending the Faith Today. Oxford University Press, 2002, p. 227.
3SIRE, James. W. Why Good Arguments Often Fail: Making a More Persuasive Case for Christ. Downer  Grove. Ill: IVP Books, 2006, p. 165.
4BURKE, John. Proibida a Entrada de Pessoas Perfeitas – um chamado à tolerância na igreja. São Paulo: Vida Acadêmica, 2007, p. 213.
5HARRIS, Joshua; STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde – defendendo as verdades bíblicas sem ferir as pessoas. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 20, 22.
6SCHAEFFER, Francis. O Deus que se Revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 214.
7CRAIG, William Lane. Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time. Wheaton, Ill: Crossway, 2001, p. 11.
8CRAIG, William Lane. Conselhos aos Apologistas Cristãos. Disponível em: <http://www.reasonablefaith.org/portuguese/conselhos-aos-apologistas-cristaeos>. (grifos meus)
9VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p.21.
10Idem.
11OLIPHINT, Scott R.; TIPTON, Lane G. Revelation and Reason – New Essays in Reformed Apologetic. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2007. p. 3 (Grifos meus).
12Não é por uma preferência apenas do texto da Grande Comissão que ele é tomado aqui, mas por lembrar-nos de que em nossa missão temos a responsabilidade de anunciar “todas as coisas” que o Senhor Jesus tem ensinado.
13BAHNSEN, Greg L. Always Ready – directions for defending the faith.  Atlanta, Georgia: American Vision, 1996, p. 64.
14Disponível em: < http://www.leaderu.com/common/sixenemies.html>. Há uma versão em português disponível em: < http://profgaspardesouza.blogspot.com.br/2014/05/seis-inimigos-do-ideal-apologetico.html>
15Idem.
16MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 17.
17Apud STACKHOUSE, idem, p. 230.
18Idem.
19VAN TIL, Cornelius. Keep Yourself from Idols. Presbyterian Guardian, n.34, vo. 6 (jul/ago, 1965).
20BAHNSEN, Greg L. Van Til´s Apologetic: Readings and Analysis. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 1998, p.32.

Fonte: Teologia Brasileira

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Deus existe?


por José Augusto Lemos  

No final do século passado, a ciência acreditava ter todas as chaves do conhecimento: decifrar os últimos mistérios da natureza era só uma questão de tempo. Agora, na entrada de um novo milênio, as certezas mais claras agonizam e os cientistas se perguntam...

Existe uma luz no fim do túnel? Eu sinceramente espero que sim. Afinal, faz várias semanas – meses talvez – que estou perdido nesse labirinto escuro.
Eu não sei o que fiz para merecer tamanho castigo. De todos os trabalhos que poderiam me dar nesta vida de jornalista, não deve ter abacaxi mais cascudo que esse: uma reportagem sobre Deus... e justo numa revista científica!

Mecânica quântica e matemática do caos a gente até entende – com a ajuda de um bom professor, claro. Deus é outra história. É o infinito imponderável: aquilo que não dá para se pensar nem imaginar. É o infinito inefável: aquilo que não dá para se falar. Ou pelo menos essa é a maneira mais segura de abordar – e encerrar – o assunto sem cair no ridículo nem ofender ninguém.

Mas são os próprios cientistas que não param de falar em Deus. Os últimos dez anos em especial viram nascer um novo filão literário dedicado a discutir o Divino – aquele mesmo, um Criador Onipotente e Onisciente! – à luz da física e da matemática, da química e da biologia.

O culpado, ao que tudo indica, é o físico inglês Stephen Hawking, ocupante da cadeira que foi de Isaac Newton na ultra-prestigiosa Universidade de Cambridge e um dos principais teóricos dos buracos negros. Hawking, todo mundo sabe, realizou um milagre digno do Grande Arquiteto Celestial ao vender mais de dez milhões de cópias de um tratado de cosmologia e astrofísica, denso o suficiente para fritar o cérebro do público leigo. Publicado em 1988, Uma Breve História do Tempo tornou-se o mais inesperado best seller da história e até filme virou – não sem antes deixar no ar, bem no parágrafo final, uma sedutora insinuação de casamento entre ciência e religião:

“Se chegarmos a uma teoria completa, com o tempo esta deveria ser compreensível para todos e não só para um pequeno grupo de cientistas. Então, todo mundo poderia tomar parte na discussão sobre por que nós e o Universo existimos... Nesse momento, conheceríamos a mente de Deus.”

Aviso importante: Hawking nunca se declarou religioso e usa essa idéia mais como uma frase de efeito, uma metáfora do conhecimento total do Universo. Mas não demorou para outro cientista inglês do alto escalão, o físico Paul Davies, extrair todo um livro – e mais um sucesso comercial de arromba! – levando ao pé da letra as palavras do colega. Acolhido com uma chuva de prêmios destinados à divulgação científica, A Mente de Deus (1992) passa em revista a história da ciência e da filosofia para afirmar, com convicção, que tudo no cosmo revela intenção e consciência. Como o próprio Davies resumiu em uma entrevista: “Acredito que as leis da natureza são engenhosas e criativas, facilitando o desenvolvimento da riqueza e da diversidade na natureza. A vida é apenas um aspecto disso. A consciência é outro. Um ateu pode aceitar essas leis como um fato bruto, mas para mim elas sugerem algo mais profundo e intencional.”

Estava dada a deixa para uma verdadeira enxurrada de físicos-teólogos atacar o assunto em dezenas de publicações semelhantes, como Ian Barbour, Arthur Peacocke, Hugh Ross, Frank Tipler e Gerald Schroeder. Dessa turma, o mais ativo é o também inglês John Polkinghorne, colega de Hawking no departamento de Física de Cambridge, que – depois de 25 anos de carreira acadêmica brilhante – largou tudo para se ordenar pastor anglicano e escrever seus livros de “cristianismo quântico”.
“Eu não abandonei a física porque estava desiludido com ela, muito pelo contrário: continuo acompanhando o assunto com o máximo interesse. Só não faço mais pesquisa científica. Mas boa parte dos meus livros consiste em ensinar física quântica aos leigos”, disse ele à SUPER. “Acredito que precisamos de ambas as perspectivas, a científica e a religiosa, para compreender esse mundo admirável em que vivemos.”

Alguma transformação radical deve ter ocorrido para que a crença em Deus, assunto que havia se tornado tabu em laboratórios e universidades, renascesse com tanta força. Cem anos atrás, a ciência se projetava como a própria imagem do progresso e da civilização: decifrar todos os mistérios da natureza era só uma questão de tempo. Era como se estivéssemos em um trem, atravessando planícies ensolaradas, com uma visão cada vez mais ampla de tudo que nos cercava. Nós mesmos havíamos nos tornado os senhores do universo. Ninguém necessitava mais de fantasias como “providência divina”. Conceitos desse tipo – e entidades sobrenaturais em geral – passaram a ser considerado ou uma infantilização neurótica (Freud) ou um meio das classes dominantes subjugarem os pobres e oprimidos (Nietzche e Marx).

De repente, sumiram de vista as planícies, a luz do sol e os próprios trilhos do trem. Um terremoto, depois outro, haviam nos atirado dentro de um túnel escuro, onde as velhas certezas voltavam a se converter em mistérios. Esses dois cataclismas eram justamente a física quântica e a matemática do caos.

“Ambas teorias mostravam que existe uma imprevisibilidade inevitável espalhada por toda a natureza. Não acho que isso deva ser interpretado como uma infeliz ignorância de nossa parte e sim como sinal de que os processos físicos são muito mais abertos do que a mecânica de Newton sugeria. Quando falo ‘abertos’, estou querendo dizer que existem outros princípios causais em ação, acima e além das trocas de energia que a física descreve”, afirma Polkinghorne.

O físico brasileiro Ricardo Galvão, da Universidade de São Paulo – que se diz “bastante religioso” – completa o quadro: “A partir das equações da mecânica de Newton e da teoria do eletromagnetismo de Maxwell, a ciência clássica dava a impressão de que, conhecendo essas leis matemáticas, conseguiríamos descrever todo o Universo. É o que se chama de conceito determinístico, segundo o qual se acreditava que, conhecendo as condições iniciais de um evento ou sistema, poderíamos prever toda sua evolução futura. Mas já no final do século passado, o matemático e físico francês Henri Poincaré (1854-1912) tocou no problema de que essas condições iniciais nunca são bem conhecidas. Ele mostrou que mesmo a mecânica de Newton não era determinística no sentido que se pensava. Aí, veio a mecânica quântica e introduziu o conceito de que é impossível se conhecer simultaneamente a posição e o movimento de uma partícula. Esse é o Princípio da Incerteza de Heisenberg, que realmente derrubou aquela atitude científica do tipo ‘conhecemos tudo e podemos prever o futuro’ ”.

Foi justamente o Princípio da Incerteza que fez Einstein soltar, em protesto, sua frase mais famosa: “Deus não joga dados!”. A imprevisibilidade quântica era demais para ele aceitar. Einstein, como se sabe, falava o tempo todo em Deus – até o dia em que o encostaram na parede e perguntaram se ele acreditava mesmo no Dito Cujo. “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia e na ordem da natureza, não em um Deus que se preocupa com os destinos e as ações dos seres humanos”, respondeu o criador da teoria da relatividade, citando o filósofo holandês do século XVII para quem Deus e o Universo seriam a mesma “substância”. Tal entidade, para Spinoza, só poderia ser acessível à mente humana em dois de seus infinitos atributos: o pensamento consciente e o mundo das coisas materiais.

A definição de Einstein decepcionou muita gente – John Polkinghorne, inclusive – por excluir o que costuma se chamar de “Deus pessoal”. Assim, até um ateu convicto como Carl Sagan aceita a divindade. “A idéia de Deus como um gigante barbudo de pele branca, sentado no Céu, é ridícula. Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que rege o Universo, então claramente existe um Deus. Só que é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!”, disse o famoso astrônomo americano.

Sagan foi um dos raros cientistas a se declarar ateu. A grande maioria prefere o termo “agnóstico”, criado em 1869 pelo biólogo inglês Thomas Huxley – apelidado “buldogue de Darwin” pela sua incansável defesa da teoria da evolução em um dos maiores conflitos da história entre ciência e religião. Há uma grande diferença entre as duas posições: dizer-se ateu é recusar a existência de um Deus, enquanto o agnóstico (“sem conhecimento”, em grego) admite que nada sabe sobre dimensões sobrenaturais no Universo – e que o mais provável é que seja impossível superar tal ignorância. É essa combinação exemplar de humildade e a diplomacia – nada a ver com o cão-de-guarda que usaram para batizar Huxley! – que define até hoje a postura de quase todos os cientistas não-religiosos.
Mesmo assim, o americano Allan Sandage – um dos astrônomos mais respeitados mundialmente, hoje com 74 anos – considerava-se ateu com todas as letras, até os 50 anos. Sua conversão ao cristianismo veio de repente, provocada pelo “simples desespero de não conseguir responder só com a razão perguntas como ‘por que existe algo ao invés de nada?’.”

“Foi o meu trabalho que me levou à conclusão de que o mundo é muito mais complicado do que pode ser explicado pela ciência. Só através do sobrenatural consigo entender o mistério da existência”, afirma ele. “A ciência torna explícita a incrível ordem natural, as interconexões em vários níveis entre as leis da física e as reações químicas encontradas nos processos biológicos da vida. Por que será que os elétrons têm todos a mesma carga e a mesma massa? A ciência só pode responder questões bem específicas, do tipo ‘o que?’, ‘quando?’ e ‘como?’. O seu método de investigação, por mais poderoso que seja, não pode responder ao ‘por que?’.”

Enxergar Deus na inteligência com que a natureza se organiza – manifesta através de leis matemáticas – não é só a porta de entrada da religião para contemporâneos como Sandage e John Polkinghorne, como uma tradição que vem desde a própria a raiz do conhecimento científico. Nem o ateísmo confesso de Bertrand Russell – lógico, matemático e filósofo reconhecido como um dos pensadores mais brilhantes do século XX – o impediu de valorizar essa linha peculiar de devoção: “A combinação de matemática e teologia, que começou com Pitágoras, caracterizou a a filosofia religiosa na Grécia Antiga, na Idade Média e chegou à modernidade com Kant. Tanto em Platão como em Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza e Leibniz há essa ligação íntima entre religião e razão, entre aspiração moral e admiração lógica do que é atemporal.”

Para quem compartilha desse espírito pitágorico, o melhor retrato de Deus já não está nas pinturas de Miguelângelo e sim nas fractais – aquelas imagens geradas por equações matemáticas que estão entre as mais incríveis descobertas relacionadas à teoria do caos. Essa nova geometria, até então oculta na natureza, apareceu – entre as décadas de 60 e 70 – tanto nos estudos de variações climáticas realizadas pelo metereologista Edward Lorenz, quanto nas estatísticas visualizadas em computador pelo matemático Benoit Mandelbrot. O que as fractais tanto mostram que, para alguns, adquire um caráter de revelação divina? Que processos aparentemente irregulares como a ramificação de uma árvore, ou o recorte de uma costa marinha, seguem um desenho-padrão que, por sua vez, obedece uma fórmula matemática.

Mais ou menos na mesma época – começo dos anos 70 – um jovem físico chamado Fritjof Capra estava sentado na praia quando teve uma espécie de êxtase místico, provocado pela visão das ondas em sincronia com sua respiração. O resultado dessa sua experiência está em O Tao da Física, best seller que, apesar de desprezado pela comunidade científica, ajudou a lançar o movimento new age, explorando paralelos entre a física quântica e as principais religiões orientais: hinduísmo, budismo e taoísmo. Não faltam no livro citações dos próprios Werner Heisenberg e Niels Bohr – dois dos pais da mecânica quântica – sobre as afinidades entre suas descobertas e a visão de mundo contida nestas tradições religiosas.

O conceito chinês do tao, destacado no título do livro – algo como fluxo ou ritmo universal – não espelha apenas a “dança cósmica” que Capra vê na física quântica. Pode igualmente ser associado aos padrões da natureza revelados nas fractais. Mas sua inspiração inicial mostra uma das principais limitações da ciência nesse tipo de comparação: ela não pode depender de experiências pessoais e instranferíveis, como o transe de Capra à beira-mar. O físico Guimarães Ferreira, da Unicamp – outro cientista brasileiro religioso – acredita que esse é um bom motivo para não se misturar as duas coisas: “Deus é um Ser que gosta de ser pessoal”, diz ele. “É muito mais fácil encontrá-lo em nossas experiências de vida do que no laboratório. O maior pensador do mundo ocidental, Santo Agostinho, já dizia que é mais fácil achar Deus dentro de si do que no mundo exterior.”

No outro extremo está o físico Frank Tipler, crente de que a ciência pode – e deve – ser utilizada para provar a existência de Deus, como princípio criador, organizador, onisciente, onipotente etc, como rezam as escrituras. Tipler escreveu todo um livro, The Physics of Immortality (1994), apresentando a versão mais radical de uma visão compartilhada com mais cautela por John Polkinghorne, Paul Davies e os cientistas que apóiam o chamado princípio antrópico – a mais surpreendente teoria dos últimos tempos. Para eles, o modo como o caos espontaneamente gera ordem e todo o cosmo parece conspirar a favor da existência de vida revela atributos divinos como consciência e intenção. A vida, assim, deve ser vista como nada menos que um milagre; e a vida consciente, um milagre maior ainda. O princípio antrópico postula que o Universo foi criado da maneira que nós o percebemos justamente para ser observado por criaturas inteligentes (nós mesmos!) e que é nossa conciência que seleciona uma realidade entre todas as probabilidades quânticas. Não custa lembrar que Brandon Carter, que apresentou pela primeira vez o princípio antrópico em 1973, não é nenhum guru aloprado e sim um cientista respeitadíssimo entre seus pares por suas pesquisas na linha-de-frente da nova física.

Tem mais: a teoria mais aceita para explicar a origem do Universo – a explosão de uma bola de energia – também vale para esses estudiosos como sinal de uma criação intencional e inteligente. Como diz o próprio astrônomo que batizou essa teoria de Big Bang, o inglês Fred Hoyle: “Uma explosão num depósito de ferro velho não faz com que pedaços de metal se juntem numa máquina útil e funcional!”

E o que teria existido, então, antes do Big Bang? Os físicos são unânimes em dizer que é impossível saber. Enquanto houver mistérios intransponíveis para a mente humana, idéias de divindade não só sobrevivem, como proliferam – e até são atualizadas cientificamente. Quando Stephen Hawking fala de uma “teoria completa” que nos permitiria conhecer a “mente de Deus”, está se referindo à busca principal da física no século XX: um modelo que unifique a teoria da relatividade, que explica o movimento dos corpos celestes, e a mecânica quântica, que descreve o outro extremo: energia e matéria no nível subatômico. Aqui reside um dos mais chocantes enigmas quânticos: ondas de energia podem se comportar como partículas de matéria e vice-versa.

A própria mente humana – acreditam psiquiatras, neurologistas e companhia – guarda talvez mais mistérios que o Universo lá fora. Como afirma o físico brasileiro Newton Bernardes, da Unicamp, sem nenhuma crença religiosa: “A ciência depende da linguagem. A religião, não. Ela está no campo do indizível e aí temos que abandonar a razão: só resta a fé. Mas pode existir, sim, conhecimento sem linguagem. Essa é uma limitação da ciência.”

Enquanto isso, no Instituto de Física Aplicada da USP, Ricardo Galvão pondera a localização exata de um conhecimento sem linguagem: a criatividade, presente tanto nas artes como na ciência mais exata. “A própria teoria da relatividade, é difícil imaginar como o Einstein chegou a ela – não foi por dedução. Idéias científicas precisam ser formuladas matematicamente, mas na hora surgem muitas vezes de um estalo.” E de onde, então, vêm essas magias chamadas intuição e inspiração? Existem hipóteses, é claro, como o inconsciente de Freud. Mas, por enquanto, só Deus sabe!

Fonte: SuperInteressante

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O apologista e suas características




A apologética, arte de se defender a fé, não é uma ferramenta exclusiva daquele que deseja desenvolver um ministério voltado para a defesa da fé. Não! A apologética é uma obrigação de todo crente que professa uma fé genuína em Jesus Cristo.

Podemos entender, biblicamente, essa afirmação ao entendermos que o próprio Jesus Cristo foi um apologista, ao defender a fé contra as hipocrisias dos fariseus e de sua falsa religiosidade. Os apóstolos foram apologistas, ao defenderem a fé contra as investidas dos judaizantes, dos agnósticos, dos falsos profetas, de falsos irmãos e de falsas doutrinas. A igreja primitiva praticou a apologética ao defender-se da frouxidão moral e dos ataques que sofreu quando agrediram a doutrina da trindade, da divindade de Cristo, da salvação pela fé, da inspiração bíblica, da personalidade e divindade do Espírito Santo e do real sentido da comunhão dos santos.

Foi a apologética que militou na frente de batalha todas as vezes que a fé cristã foi atacada. No início da Igreja, o primeiro mártir, Estevão, dá um verdadeiro exemplo de como se fazer apologética. No texto de Atos capítulo 7 encontramos o discurso de Estevão, cheio de preciosas informações para as nossas vidas cristãs e para a tão necessária, importante e estimada vida apologética.

No versículo 2, Estevão começa demonstrando a importância de se conhecer bem a história, pois ele começa citando fatos históricos principiados com Abraão. O conhecimento histórico é vasto em todo o discurso de Estevão.

No versículo 3, encontramos a necessidade de conhecimento bíblico. Tanto o conhecimento teológico como a memorização de passagens bíblicas. Aqui Estevão começa a citar passagens bíblicas de memória, no seu devido contexto e com a aplicação e entendimentos teológicos corretos.

No versículo 22, é destacado o fato de Moisés ter sido instruído em toda ciência dos egípcios. Acredito que todo conhecimento é proveitoso se for usado da maneira certa e com o propósito certo, por isso, talvez, Estevão tenha salientado em seu discurso esse fato que julgou importante.

Nos versículos 39 até 41, destaca-se a importância da fidelidade para com Deus. Aqui entendemos que o coração daquele povo estava voltado para a velha vida, e não havia esperança na nova vida futura. Faltava caráter, pois caráter é aquilo que somos quando ninguém está vendo. Bastou Moisés dar as costas que o povo voltou à idolatria.

Nos versículos 48 até 50, entendemos que a comunhão verdadeira com Deus não está limitada a quatro paredes, mas a uma vida de continuidade espiritual embasada no reconhecimento da soberania de Deus.

Nos versículos 51 até 53, Estevão conduz os ouvintes à contextualização da mensagem, isto é, depois de todas as informações trazidas seria necessário aplicar tal mensagem em suas vidas, porém não estavam fazendo isso.

De volta ao versículo 51, a coragem é demonstrada, mesmo diante do perigo de vida os judeus são confrontados com a afirmação de que possuíam dureza de coração e insensibilidade para com o Espírito Santo.

No versículo 55, encontramos a afirmação chave do sucesso da vida de Estevão: a plenitude do Espírito Santo. Estevão não apenas tinha o conhecimento, mas tinha em sua vida a prática do conhecimento. Ele tinha vida. Ele era capaz de dar a própria vida pela sua fé, e assim o fez.

Por último, nos versículos 59 e 60 Estevão demonstra a verdadeira convicção de sua crença ao voltar sua preocupação para Cristo e a realidade eterna do céu, e na suposta realidade passageira de seu temporário martírio. Ele morre apedrejado, mas morre suplicando que Deus perdoe os seus atrozes executores.

Com tudo isso, e muito mais que não foi citado, podemos entender a importância da apologética e a necessidade de crentes que tenham essa visão, em meio a uma sociedade de borbulha de atrozes executores de crentes genuínos.

O evangelho no século XXI necessita de crentes que possuam o conhecimento histórico correto, o conhecimento bíblico genuíno e consistente, que valorizem o estudo, deem importância a fidelidade e comunhão com Deus, que saibam contextualizar o ensino bíblico adequadamente, que tenham coragem, que possuam a plenitude do Espírito Santo e tenham segurança e confiança através de uma vida vivida pela fé.

Mesmo que ninguém queira ser esse crente, que nós o sejamos.

Fonte: NAPEC
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Coisas que até um ateu pode ver


Um número razoável de cientistas e filósofos ateus ou agnósticos vem em anos recentes engrossando as fileiras daqueles que expressam dúvidas sérias sobre a capacidade da teoria da evolução darwinista para explicar a origem da vida e sua complexidade por meio da seleção natural e da natureza randômica ou aleatória das mutações genéticas necessárias para tal.

Poderíamos citar Anthony Flew, o mais notável intelectual ateísta da Europa e Estados Unidos que no início do século XXI anunciou sua desconversão do ateísmo darwinista e adesão ao teísmo, por causa das evidências de propósito inteligente na natureza. Mais recentemente o biólogo molecular James Shapiro, da Universidade de Chicago, ele mesmo também ateu, publicou o livro Evolution: A View from 21st Century onde desconstrói impiedosamente a evolução darwinista.

Thomas Nagel


E agora é a vez de Thomas Nagel, professor de filosofia e direito da Universidade de Nova York, membro da Academia Americana de Artes e Ciências, ganhador de vários prêmios com seus livros sobre filosofia, e um ateu declarado. Ele acaba de publicar o livro Mind & Cosmos (“Mente e Cosmos”) com o provocante subtítulo Why the materialist neo-darwinian conception of nature is almost certainly false (“Por que a concepção neo-darwinista materialista da natureza é quase que certamente falsa”), onde aponta as fragilidades do materialismo naturalista que serve de fundamento para as pretensões neo-darwinistas de construir uma teoria do todo (Não pretendo fazer uma resenha do livro. Para quem lê inglês, indico a excelente resenha feita por William Dembski e o comentário breve de Alvin Plantinga).

Estou mencionando estes intelectuais e cientistas ateus por que quando intelectuais e cientistas cristãos declaram sua desconfiança quanto à evolução darwinista são descartados por serem "religiosos". Então, tá. Mas, e quando os próprios ateus engrossam o coro dos dissidentes?

Neste post eu gostaria apenas de destacar algumas declarações de Nagel no livro que revelam a consciência clara que ele tem de que uma concepção puramente materialista da vida e de seu desenvolvimento, como a evolução darwinista, é incapaz de explicar a realidade como um todo. Embora ele mesmo rejeite no livro a possibilidade de que a realidade exista pelo poder criador de Deus, ele é capaz de enxergar que a vida é mais do que reações químicas baseadas nas leis físicas e descritas pela matemática. A solução que ele oferece – que a mente sempre existiu ao lado da matéria – não tem qualquer comprovação, como ele mesmo admite, mas certamente está mais perto da concepção teísta do que do ateísmo materialista do darwinismo.

Ele deixa claro que sua crítica procede de sua própria análise científica e que mesmo assim não será bem vinda nos círculos acadêmicos:

“O meu ceticismo [quanto ao evolucionismo darwinista] não é baseado numa crença religiosa ou numa alternativa definitiva. É somente a crença de que a evidência científica disponível, apesar do consenso da opinião científica, não exige racionalmente de nós que sujeitemos este ceticismo [a este consenso] neste assunto” (p. 7).

“Eu tenho consciência de que dúvidas desta natureza vão parecer um ultraje a muita gente, mas isto é porque quase todo mundo em nossa cultura secular tem sido intimidado a considerar o programa de pesquisa reducionista [do darwinismo] como sacrossanto, sob o argumento de que qualquer outra coisa não pode ser considerada como ciência” (p.7).

Ele profetiza o fim do naturalismo materialista, o fundamento do evolucionismo darwinista:

“Mesmo que o domínio [no campo da ciência] do naturalismo materialista está se aproximando do fim, precisamos ter alguma noção do que pode substitui-lo” (p. 15).

Para ele, quanto mais descobrimos acerca da complexidade da vida, menos plausível se torna a explicação naturalista materialista do darwinismo para sua origem e desenvolvimento:

“Durante muito tempo eu tenho achado difícil de acreditar na explicação materialista de como nós e os demais organismos viemos a existir, inclusive a versão padrão de como o processo evolutivo funciona. Quanto mais detalhes aprendemos acerca da base química da vida e como é intrincado o código genético, mais e mais inacreditável se torna a explicação histórica padrão [do darwinismo]” (p. 5).

“É altamente implausível, de cara, que a vida como a conhecemos seja o resultado da sequência de acidentes físicos junto com o mecanismo da seleção natural” (p. 6).

Não teria havido o tempo necessário para que a vida surgisse e se desenvolvesse debaixo da seleção natural e mutações aleatórias:

“Com relação à evolução, o processo de seleção natural não pode explicar a realidade sem um suprimento adequado de mutações viáveis, e eu acredito que ainda é uma questão aberta se isto poderia ter acontecido no tempo geológico como mero resultado de acidentes químicos, sem a operação de outros fatores determinando e restringindo as formas das variações genéticas” (p. 9).

Nagel surpreendentemente defende os proponentes mais conhecidos do design inteligente:

“Apesar de que escritores como Michael Behe e Stephen Meyer[1] sejam motivados parcialmente por suas convicções religiosas, os argumentos empíricos que eles oferecem contra a possibilidade da vida e sua história evolutiva serem explicados plenamente somente com base na física e na química são de grande interesse em si mesmos... Os problemas que estes iconoclastas levantam contra o consenso cientifico ortodoxo deveriam ser levados a sério. Eles não merecem a zombaria que têm recebido. É claramente injusta” (p.11).

Num parágrafo quase confessional, Nagel reconhece que lhe falta o sentimento do divino que ele percebe em muitos outros:

“Confesso um pressuposto meu que não tem fundamento, que não considero possível a alternativa do design inteligente como uma opção real – me falta aquele sensus divinitatis [senso do divino] que capacita – na verdade, impele – tantas pessoas a ver no mundo a expressão do propósito divina da mesma maneira que percebem num rosto sorridente a expressão do sentimento humano” (p.12).

Para Nagel, o evolucionismo darwinista, com sua visão materialista e naturalista da realidade, não consegue explicar o que transcende o mundo material, como a mente e tudo que a acompanha:

“Nós e outras criaturas com vida mental somos organismos, e nossa capacidade mental depende aparentemente de nossa constituição física. Portanto, aquilo que explicar a existência de organismos como nós deve explicar também a existência da mente. Mas, se o mental não é em si mesmo somente físico, não pode, então, ser plenamente explicado pela ciência física. E então, como vou argumentar mais adiante, é difícil evitar a conclusão que aqueles aspectos de nossa constituição física que trazem o mental consigo também não podem ser explicados pela ciência física. Se a biologia evolutiva é uma teoria física – como geralmente é considerada – então não pode explicar o aparecimento da consciência e de outros fenômenos que não podem ser reduzidos ao aspecto físico meramente” (p. 15).

“Uma alternativa genuína ao programa reducionista [do darwinismo] irá requerer uma explicação de como a mente e tudo o que a acompanha é inerente ao universo” (p.15).

“Os elementos fundamentais e as leis da física e da química têm sido assumidos para se explicar o comportamento do mundo inanimado. Algo mais é necessário para explicar como podem existir criaturas conscientes e pensantes, cujos corpos e cérebros são feitos destes elementos” (p.20).

Menciono por último a perspicaz observação de Nagel, que se a mente existe porque sobreviveu através da seleção natural, isto é, por ter se tornado na coisa mais esperta para sobreviver, como poderemos confiar nela? E aqui ele cita e concorda com Alvin Plantinga, um filósofo reformado renomado:

“O evolucionismo naturalista provê uma explicação de nossas capacidades [mentais] que mina a confiabilidade delas, e ao fazer isto, mina a si mesmo” (p. 27).

“Eu concordo com Alvin Plantinga que, ao contrário da benevolência divina, a aplicação da teoria da evolução à compreensão de nossas capacidades cognitivas acaba por minar nossa confiança nelas, embora não a destrua por completo. Mecanismos formadores de crenças e que têm uma vantagem seletiva no conflito diário pela sobrevivência não merecem a nossa confiança na construção de explicações teóricas do mundo como um todo... A teoria da evolução deixa a autoridade da razão numa posição muito mais fraca. Especialmente no que se refere à nossa capacidade moral e outras capacidades normativas – nas quais confiamos com frequência para corrigir nossos instintos. Eu concordo com Sharon Street [professora de filosofia na Universidade de Nova York] que uma auto-compreensão evolucionista quase que certamente haveria de requerer que desistíssemos do realismo moral, que é a convicção natural de que nossos juízos morais são verdadeiros ou falsos independentemente de nossas crenças” (p.28).

Não consegui ler Nagel sem lembrar do que a Bíblia diz:

"Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim" (Eclesiastes 3:11).

"De um só Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós" (Atos 17:26-27).

Nagel tem o sensus divinitatis, sim, pois o mesmo é o reflexo da imagem de Deus em cada ser humano, ainda que decaídos como somos. Infelizmente o seu ateísmo o impede de ver aquilo que sua razão e consciência, tateando, já tocaram.

By Augustus Nicodemos

Fonte: Tempora-Mores

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quem precisa de apologética?


Por Eudmarly Sena


    Parece que, em pleno século XXI, os líderes cristãos, ainda não abriram a sua mente para importância da apologética, alguns ainda teimam em querer dizer que é somente pela fé. Lembro aqui que essa expressão “é pela fé” não condiz nada com expressão da reforma protestante, muito pelo contrário, se aproxima mais da ideia de que a fé é um salto no escuro, reconheço que talvez eles nem saibam o que isso significa exatamente, mas é aí que está o problema, falam de algo que não conhecem as suas implicações, a apologética ainda é vista de uma forma muito negativa para a maioria cristã, reconheço que nos arraiais evangélicos tem crescido o interesse pela apologética, porém ainda não é o ideal. Os líderes cristãos precisam dar uma importância maior a questão, o Cristianismo tem sido atacado por todas as vertentes; Agnósticos, céticos, neo-ateus.
    O fato é que todo tipo de religião tem sido atacado de forma grosseira, e especialmente o Cristianismo. O que o mundo vem fazendo para derrubar o Cristianismo, não é de se deixar passar despercebido, nossos jovens e adolescentes tem sofridos constantes ataques à sua fé, alguns até chegam a abandoná-la, pois é, e parece que não estamos nenhum pouco preocupados com a questão, então, quem precisa de apologética? Os cristãos precisam saber que sua fé é bem fundamentada, historicamente confiável e racionalmente coerente. O próprio apostolo Paulo se preocupou com o fundamento de fé cristã, como sendo de suma importância o seu valor histórico.
   O capitulo15 da primeira carta aos coríntios, Paulo, está preocupado com a historicidade da ressurreição, ele, estava fazendo uma apologia (defesa). De acordo com Paulo se a ressurreição não ocorreu a fé é vã, e vai além, quando diz que seríamos os mais miseráveis de todos os homens (v. 19). A fé não é um salto no escuro.
   Dizer que tudo tende a fé, simplesmente, não é Evangelho, pois o mesmo não é irracional, está bem fundamentado, por isso, Judas nos convida a batalhar pela fé que foi entregue aos santos (v. 3).
   Portanto, a igreja precisa da apologética, a nossa fé é histórica , muito se deve a grandes homens, que com sua fé e militância, procuraram preservar o ensino dos apóstolos, o qual nos foi transmitido, dizer que não se precisa de apologética, é desrespeitar o árduo trabalho de luta de grandes homens na história cristã que procuraram seguir o conselho de Judas, lutar pela pureza da fé herdada. Acima de tudo, dizer que não precisamos de apologética, é o mesmo que negligenciarmos o nosso papel evangelístico, pelo menos em parte, pois, Pedro fala que devemos dar razão de nossa esperança (I Pe. 3.15).
   Nossa fé é racional (não confundir racional com racionalista), não temos escolha ao dizermos que não se precisa de apologética, e ao deixarmos a questão no “é tudo pela fé”, continuaremos perdendo muitas batalhas, e a a influência do cristianismo diminuirá bastante, a cultura precisa ser moldada por valores cristãos e ignorar a apologética é perder isso de vista.
   A igreja precisa da apologética, esta, embora não seja o fim último, é  uma ferramenta relevante, um auxilio valoroso, muito valiosa para evangelização e  transformação da cultura.

Deus em Cristo nos abençoe sempre.




sábado, 2 de junho de 2012

Dostoiévski e Nietzsche - Do homem-deus ao super-homem


Os privilégios do homem excepcional

"[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como
bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus
e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o
único no mundo a viver assim." - F. Dostoiévski - O diálogo com o demônio (in Irmãos Karamazov,
1879)
O jovem estudante Raskolhnikov angustiava-se no seu pequeno quarto, na verdade uma gaiola
desbotada que o sufocava. Ali matutava como um ser dotado de inteligência reconhecidamente
superior, como a dele, estava reduzido àquela vida miserável, sem tostão e sem futuro enquanto que,
naquela mesma cidade de São Petersburgo, a capital do império russo, à bem poucas quadras dali,
uma velha usurária, chamada Aliona IvaOs privilégios do homem excepcional
novna podia entregar-se livremente à exploração de
desgraçados como ele.
Porque não eliminar aquele ser parasitário, inútil, e utilizar-se do seu dinheiro para sair daquela
situação apremiante, salvando também sua mãe e sua irmã, reduzidas ao opróbrio? Foi nestas
circunstâncias terríveis que o jovem estudante desenvolveu sua doutrina do "direito ao crime", na
qual todo aquele que se sente além das convenções tradicionais acerca do bem e do mal, que
percebe-se mais forte do que os demais homens, na verdade tem "direito a tudo", inclusive o direito
de eliminar os que considera estorvantes e prejudiciais ao seu objetivo, pois o homem
extraordinário deve, obediente às exigências do seu ideal, "ultrapassar certas barreiras tão longe
quanto possível".
O surgimento do homem-idéia
Esta é a essência da novela que F. Dostoiévski publicou em 1867 com o título de Crime e castigo.
Uns anos depois ele manifestaria ainda seu fascínio por este tipo de personagem, pelo homem-idéia,
pelo ateu que vive de acordo com suas próprias regras, indiferente ao sofrimento que suas ações
possam provocar. Esse personagem típico da era moderna reaparece em Os demônios, de 1870, nas
roupagens do jovem aristocrata, o barin Nikolai Stavroguin. Como líder de um grupo subversivo
(acredita-se que esse personagem tenha sido inspirado no terrorista Netcháiev) que conspira contra
as autoridades no seu lugarejo natal. Para atingir seu fim de atacar a ordem social todos os caminhos
são válidos, inclusive o premeditado e brutal assassinato de um jovem conjurado arrependido.
Tempos antes, quando morava na capital, Stavroguin não hesitou em praticar pequenos roubos e em
molestar sexualmente uma menina.
"Se Deus não existe....."
Pouco antes de morrer, Dostoiévski voltou novamente ao homem-idéia pois entendia-o como a
encarnação maléfica das pulsões modernas; o ateísmo, o liberalismo, o socialismo e o niilismo, que
ameaçavam sua Santa Rússia ortodoxa. Desta vez esse personagem ressurge nos Irmãos
Karamazov, de 1879, na figura do filho mais velho de Fiodor Karamazov, Ivan. O pai, o velho
Karamazov, um incorrigível libertino, um canalha completo, terminou assassinado por um servo,
seu filho bastardo, chamado Smerdiakov, que confessa a Ivan que o que motivou para o crime foi
um artigo que soube ter ele escrito no qual defendia a idéia de que "se Deus não existe, tudo é
permitido".
Na inexistência de um Criador, de um grande ser moral, o homicida Smerdiakov não se via um
degenerado, nem mesmo um abominável parricida, mas sim um daqueles homem-deus aos quais
tudo é possível. Aterrorizado pela confissão do seu meio-irmão, atacado por culpas mil, Ivan
mergulha numa febre nervosa em que, em meio a uma alucinação, até o demônio dialoga com ele.
O ser ideológico
Dostoiévski foi o primeiro grande nome das letras do século passado a perceber a emergência do
moderno homem-idéia, dos seres ideológicos, os quais vivem, matam e morrem em função de uma
causa desvinculada de injunções religiosas. Como cristão convicto, chegando por vezes ao
fundamentalismo, tentou combatê-los fazendo com que, em seus romances, eles se vissem atacados
por terríveis dilacerações depois de terem cometido seus crimes, mostrando-os vítimas de delírios,
de convulsões, tendo sua vida transformada num inferno. O jovem Raskolhnikov entrega-se à
polícia e, na prisão, dá os primeiros passos para reencontrar-se com o Cristianismo. Nikolai
Stavroguin, deixando uma impressionante confissão, suicida-se, enquanto que Ivan Karamazov
simplesmente enlouquece, arrasado pelas conseqüências do seu artigo ateu.
Nietzsche e o super-homem
Nietzsche, porém, um confesso admirador de Dostoiévski, quase no mesmo momento em que o
grande russo baixava à sepultura, em 1881, chegou à conclusões totalmente opostas ao grande russo
quando iniciou a redação de Assim falou Zaratustra. A sua concepção de super-homem parece-me
extraída diretamente daquelas novelas.
Ateu militante, Nietzsche tirou as conseqüências últimas do homem-deus, não visualizando para ele
nenhum grande tormento caso ele seguisse o seu ideário até o fim. Ao contrário, previu e enalteceu
o homem-idéia que, em função da sua causa seria uma máquina de insensibilidade, trafegando,
altaneiro, bem acima dos preceitos morais do seu tempo. Fazendo novas regras restritas a uma elite,
o Übermensch teria seu comportamento a amoral regulado apenas pela sua inata vontade de
domínio - Wille zur Macht - e por uma compulsiva sede de vida.
Uma nova ordem
Uma nova casta se formaria em torno de princípios e identificações comuns, uma nova Ordem dos
Templários, composta por seres que não só "saibam viver mais além dos credos políticos e
religiosos, senão que também hajam superado a moral." Podiam fazer o que lhes desse na telha, sem
receio de qualquer tipo de punição supersticiosa. Nietzsche, antes de Freud, aboliu o pecado.
E assim foi feito. Os homens-idéia do nosso século, os nazi-fascistas, os comunistas, os liberal-
imperialistas, transformaram nosso mundo numa grande arena ideológica, eliminando dela tudo
aquilo que, em algum momento, lhes pareceu adverso, dissidente, parasitário, bizarro, nocivo,
atrasado ou banal... a maioria deles sem esboçar um remordimento sequer. Nietzsche, em essência,
nada mais fez do que transpor para a filosofia o discurso do demônio relatado por Dostoiévski, o
que não lhe causou nenhum constrangimento moral, porque, afinal, se Deus não existe, também não
há Satanás.
Nietzsche internado
Consta que Nietzsche foi internado depois de um estranho acidente em que se
envolveu em Turim, em janeiro de 1889. Ao ver da sua janela um pobre Nietzsche (1844-1900)
cavalo ser brutalmente espancado pelo dono, interpôs-se entre o carroceiro e o animal, envolvendo-
o com um abraço, beijando-lhe o focinho em lágrimas. Repetia, inconscientemente, a cena descrita
no sonho de Raskolhnikov; quando aquele, ainda criança, enlaça e beija a carcaça ensangüentada de
uma égua brutalizada por um bando de bêbados. Foi a última homenagem de Nietzsche, já demente,
fez à ficção de Dostoiévski. Conduziram-no primeiro para um sanatório na Basiléia, do qual foi
removido para Naumburg, aos cuidados da mãe. Em 1897, com ela morta, sua irmã Elizabeth
levou-o para Weimar, onde faleceu em 25 de agosto de 1900.

Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/nietzsche_dostoievski.htm

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Deus não morreu


Nos últimos tempos, o mercado literário tem sido inundado por títulos defendendo o ateísmo. Boa parte deles viraram best-sellers – caso de Deus, um delírio, de Richard Dawkins, o mais ruidoso lançamento recente nesta linha. Pode-se supor, à primeira vista, que seja impossível aos pensadores modernos defender intelectualmente a existência de Deus. Todavia, um exame rápido nos livros do próprio Dawkins, bem como de autores como Sam Harris e Christopher Hitchens, entre outros, revela que o chamado novo ateísmo não possui base intelectual e deixa de lado a revolução ocorrida na filosofia anglo-americana. Tais obras refletem mais a pseudociência de uma geração anterior do que retratam o cenário intelectual contemporâneo.


O ápice cultural dessa geração aconteceu em 8 de abril de 1966. Naquela ocasião, o principal artigo da revista Time, um dos maiores semanários da imprensa americana, foi apresentado numa capa completamente preta, com três palavras destacadas em vermelho: “Deus está morto?”. A história contava a suposta “morte” de Deus, movimento corrente na teologia naquela época. Porém, usando as palavras de Mark Twain, a notícia do “falecimento” do Senhor foi prematura. Ao mesmo tempo em que teólogos escreviam o obituário divino, uma nova geração de filósofos redescobria a vitalidade de Deus.

Para entender melhor a questão, é preciso fazer uma pequena digressão. Nas décadas de 1940 e 50, muitos filósofos acreditavam que falar sobre Deus era inútil – aliás, verdadeira tolice –, já que não há como provar a existência dele pelos cinco sentidos humanos. Essa tendência à verificação acabou se desfazendo, em parte porque os filósofos descobriram simplesmente que não havia como verificar a verificação! Esse foi o evento filosófico mais importante do século 20. O fim do império da verificação libertou os filósofos para voltarem a tratar de problemas tradicionais que haviam sido deixados de lado.

Com o renascimento do interesse nas questões empíricas tradicionais, sucedeu algo que ninguém havia previsto: o renascimento da filosofia cristã. A mudança começou, provavelmente, em 1967, com a publicação de livro God and Other Minds: A Study of the Rational Justification of Belief in God (“Deus e outras mentes: um estudo sobre a justificação racional da crença em Deus”), de Alvin Plantinga. Seguiram-se a ele vários filósofos cristãos, que militaram escrevendo em jornais eruditos, participando de conferências e publicando suas obras nas melhores editoras acadêmicas. Como resultado, a aparência da filosofia anglo-americana se transformou. Embora talvez ainda seja o ponto de vista dominante nas universidades americanas, o ateísmo hoje é uma filosofia em retirada.

Em um artigo recente, o filósofo Quentin Smith, da Universidade Western Michigan, lamentou o que chama de “dessecularização” da academia, que no seu entender evoluiu nos departamentos de filosofia desde o fim dos anos 60. Ele se queixa da passividade dos naturalistas diante da onda de “teístas inteligentes e talentosos que entram na academia hoje”. E conclui: “Deus não está morto na academia; voltou à vida no fim da década de 60 e hoje está vivo em sua última fortaleza acadêmica – os departamentos de filosofia”.
Teologia natural – O renascimento da filosofia cristã foi acompanhado pelo ressurgimento do interesse na teologia natural, ramo que tenta provar a existência de Deus sem usar a revelação divina. O alvo dessa teologia natural é justificar uma visão de mundo teísta ampla, que é comum entre cristãos, judeus e muçulmanos – e, claro, deístas. Embora poucos os considerem provas atraentes da existência de Yahweh dos cristãos, todos os argumentos tradicionais a favor da veracidade de Deus, além de alguns novos, encontram hoje defensores hábeis.

O argumento cronológico, por exemplo, defende que tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua natureza ou em uma causa externa. E, se há uma explicação para a existência do universo, essa é a existência de Deus. Trata-se de um argumento com validade lógica, já que uma causa externa para o universo tem de estar além do espaço e do tempo; portanto, não pode ser física nem material. O argumento cronológico é defendido por estudiosos como Alexander Pruss, Timothy O’Connor, Stephen Davis, Robert Knoos e Richard Swinburne, entre outros.  

Já o argumento cosmológico considera que tudo que começa a existir tem uma causa; portanto, se o universo passou à existência, também ele tem uma causa. Stuart Hackett, David Oderberg, Mark Nowacki e eu, particularmente, o defendemos.  A premissa básica com certeza parece mais plausível do que sua negativa – afinal, acreditar que as coisas simplesmente comecem a existir sem uma causa é pior do que acreditar em mágica. Ainda assim, é surpreendente o número de ateus que evitam tal explicação. Tradicionalmente, os ateus defendem a eternidade do universo. Há, porém, muitos motivos, tanto filosóficos quanto científicos, para duvidar dessa eternidade. Para a filosofia, por exemplo, a idéia de passado infinito é absurda; se o universo nunca teve início, então o número de eventos históricos é infinito. Essa idéia é muito paradoxal, e, além disso, levanta um problema: como o evento presente poderia acontecer se houvesse um número infinito de eventos para acontecer antes?
Além do mais, uma série notável de descobertas astronômicas e astrofísicas do século passado conferiu nova vida ao argumento cosmológico. Temos, hoje, evidências bem fortes de que o universo não é eterno no passado, mas que teve um início absoluto há cerca de 13,7 bilhões de anos, em um cataclismo conhecido como Big Bang. Esta tese é espantosa porque representa a origem do universo a partir de praticamente nada – afinal, toda matéria e energia, inclusive o espaço e o tempo físicos, teriam derivado dele. Os recentes experimentos com o LHC, o mega-acelerador de partículas instalado nos Alpes suíços, caminham justamente nesta direção. Alguns cosmólogos até tentaram fabricar teorias alternativas para fugir a esse início absoluto – porém, nenhuma delas foi aceita pela comunidade científica.

Em 2003, os cosmólogos Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin conseguiram provar que qualquer universo que exista, em estado de expansão como o nosso, não pode ter passado eterno; mas teve, necessariamente, um início absoluto. “Os cosmólogos não podem mais se esconder atrás da possibilidade de um universo com passado eterno”, diz Vilenkin. “Não há como fugir – eles têm de encarar o problema do início cósmico”. Segue-se, então, que precisa ter havido uma causa transcendente que trouxe o universo à existência. Uma causa plausível no tempo, acima do espaço, e portanto, imaterial e pessoal.
“Assinatura de Deus” – Resta o argumento teológico. Este permanece firme como sempre, defendido, em várias formas, por gente como Robin Collins, John Leslie, Paul Davies, William Dembski e Michael Denton. Ultimamente, com o movimento denominado Projeto Inteligente, boa parte destes pesquisadores prosseguem na tradição de encontrar exemplos da “assinatura de Deus” nos sistemas biológicos. Todavia, o ponto sensível da discussão enfoca a recente descoberta da sintonia do cosmos com a vida. Essa sintonia assume dois aspectos – primeiro, porque quando as leis da natureza são expressas em equações matemáticas, como a da gravidade, apresentam certas constante. Logo, não determinam esses valores. Segundo, há certas variantes arbitrárias que fazem parte das condições iniciais do universo – a quantidade de entropia, por exemplo. Essas constantes e quantidades se encaixam em um alcance extraordinariamente pequeno de valores que permitem a existência de vida. Se fossem alteradas em valor inferior ao da grossura de um fio de cabelo, o equilíbrio que permite a existência e sustentação da vida seria destruído – ou seja, não haveria vida.

A essência dessa argumentação é de que a existência do universo, tal qual o conhecemos, decorre do acaso ou de um projeto. Quanto ao acaso, teóricos contemporâneos cada vez mais reconhecem que as evidências contra a sintonia são quase insuperáveis, a não ser quese esteja pronto a aceitar a hipótese especulativa de o nosso universo ser apenas um membro de um hipotético conjunto infinito e aleatório de universos. Nesse conjunto, pode-se imaginar qualquer tipo de mundo físico, e obviamente só encontraríamos um onde as constantes e quantidades são compatíveis com nossa existência.
Claro que todos esses argumentos são objeto de réplicas e contra-réplicas – e ninguém imagina que algum dia se chegará a consenso. Na verdade, há sinais de que o gigante adormecido do ateísmo, após um período de passividade, vai despertando de sua soneca e entrando na briga. J. Howard Sobel e Graham Oppy escreveram livros grandes e eruditos criticando os argumentos da teologia natural, e a Cambridge University Press lançou Companion to Atheism (“Companheiro do ateísmo”) no ano passado. De toda forma, a simples presença do debate na academia prova como é saudável e vibrante a visão de mundo teísta hoje.
Relativismo – Muita gente pode pensar que a reaparição da teologia natural em nossos dias seja apenas trabalho desperdiçado. Afinal, não vivemos em uma cultura pós-moderna, onde o apelo a argumentos apologéticos como esses deixaram de ser eficazes? Hoje, não se espera mais que argumentos para defender o teísmo funcionem. Não por outra razão, cada vez mais cristãos apenas compartilham sua história e convidam outros a participar dela.

Esse tipo de raciocínio carrega um diagnóstico errado, desastroso para a cultura contemporânea. A suposição de que vivemos em uma cultura pós-moderna não passa de mito. Na verdade, esse tipo de cultura é impossível; não poderíamos viver nela. Ninguém é relativista quando se trata de ciência, engenharia e tecnologia – o relativismo é seletivo, só surge quando o assunto é religião e ética. Mas é claro que isso não é pós-modernismo; é modernismo! Não passa do antigo verificacionismo, que sustentava que tudo que não se pode testar com os cinco sentidos é uma questão de preferência pessoal.

Fato é que vivemos em uma cultura que continua profundamente modernista. Se não for assim, não haverá explicação para a popularidade do novo ateísmo. Dawkins e sua turma são inegavelmente modernistas e até científicos em sua abordagem. Na leitura pós-modernista da cultura contemporânea, seus livros deveriam ter sido como água sobre pedra – porém, as pessoas os agarram ansiosas, convictas de que a fé religiosa é tolice.

Sob essa ótica, adequar o Evangelho à cultura pós-moderna leva à derrota. Deixando de lado as armas da lógica e da evidência, deixaremos o modernismo nos vencer. Se a Igreja adotar esse curso de ação, a próxima geração sofrerá conseqüências catastróficas. O cristianismo se tornará apenas mais uma voz em meio a uma cacofonia de vozes que competem entre si – cada uma apresentando sua narrativa e alegando ser a verdade objetiva sobre a realidade. Enquanto isso, o naturalismo científico continuará a moldar a visão da cultura sobre como o mundo realmente é.

Uma teologia natural consistente é bem necessária para que a sociedade ocidental ouça bem o Evangelho. Em geral, a cultura do Ocidente é profundamente pós-cristã – e este estado de coisas é fruto do iluminismo, que introduziu o fermento do secularismo na cultura européia. Hoje, esse fermento permeia toda a sociedade ocidental. Enquanto a maioria dos pensadores originais do iluminismo eram teístas, os intelectuais de hoje, majoritariamente, consideram o conhecimento teológico impossível. Aquele que se dedica ao raciocínio sem vacilar até o fim acabará ateísta – ou, na melhor das hipóteses, agnóstico.

Entender nossa cultura da forma correta é importante, porque o Evangelho nunca é ouvido isoladamente, mas sempre no cenário da cultura corrente. Uma pessoa que cresce em ambiente cultural que vê o cristianismo como opção viável estará aberta ao Evangelho – mas, neste caso, tanto faz falar aos secularistas sobre fadas, duendes ou Jesus Cristo! Cristãos que depreciam a teologia natural porque “ninguém se converte com argumentos intelectuais” têm a mente fechada. O valor dessa teologia vai muito além dos contatos evangelísticos imediatos. Ao passo que avançamos no século 21, a teologia natural será cada vez mais relevante e vital na preparação das pessoas para receberem o Evangelho. É tarefa mais ampla da apologética cristã, incluindo a teologia natural, ajudar a criar e sustentar um ambiente cultural em que o Evangelho seja ouvido como opção intelectual viável para pessoas que pensam. Com isso, lhes será conferida permissão intelectual para crer quando seu coração for tocado.

William Lane Craigé professor pesquisador de filosofia


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Caracterizando o que é uma SEITA [pseudo evangélica]



O que se segue é uma acurado teste para usarmos com várias religiões e denominações, para assim
podermos determinar se elas são realmente cristãs [bíblicas], ou se elas realmente são seitas
[querendo ser consideradas cristãs, mas na realidade sendo opostas à Bíblia em áreas fundamentais].
A falha em apenas UM só dos cinco testes abaixo é uma infalível indicação de que tais religiões e
denominações SÃO uma seita.
1. Têm Fontes de Autoridade Extra Bíblicas.
Este ponto leva uma seita a dizer e tentar provar aquilo que não é verdadeiro e, especialmente,
não é bíblico. O próprio caráter de Deus é atacado.
2Tim 3:1-17; 2Ped 1:19-21
“1 ¶ Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. 2 Porque
haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos,
desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, 3 Sem afeto natural, irreconciliáveis,
caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, 4 Traidores, obstinados,
orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, 5 Tendo aparência de
piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. 6 Porque deste número são os que
se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados,
levadas de várias concupiscências; 7 Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao
conhecimento da verdade. 8 E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também
estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé.
9 Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o
foi o daqueles. 10 ¶ Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé,
longanimidade, amor, paciência, 11 Perseguições e aflições tais quais me aconteceram em
Antioquia, em Icônio, e em Listra; quantas perseguições sofri, e o Senhor de todas me
livrou; 12 E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão
perseguições. 13 Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e
sendo enganados. 14 Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste
inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, 15 E que desde a tua meninice sabes as
sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo
Jesus. 16 Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para
redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; 17 Para que o homem de Deus seja
perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.” (2Ti 3:1-17 ACF)
“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a
uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça
em vossos corações.” (2Pe 1:19 ACF)


2. Negam a Real Divindade de Jesus Cristo.


Negar que Jesus é o Deus altíssimo, incriado, criador de tudo, eterno e todo-poderoso, é negar a
autoridade das Escrituras e a necessidade de obedecer a Deus. Muitos chamarão Jesus de o filho
de Deus, de um dos deuses, mas não o chamarão de o Deus altíssimo, incriado, criador de tudo,
eterno e todo-poderoso. Seu nascimento virginal e Sua eternidade são atacadas.
João 1:1, 14; 10:26-33; 14:8-9
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1:1
ACF)
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14 ACF)
“26 Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. 27
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; 28 E dou-lhes a
vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29 Meu Pai,
que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. 30
Eu e o Pai somos um. 31 Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar.
32 Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai;
por qual destas obras me apedrejais? 33 Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te
apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes
Deus a ti mesmo.” (João 10:26-33 ACF)
“8 Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. 9 Disse-lhe Jesus: Estou há
tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e
como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14:8-9 ACF)


3. Ensinam que a Expiação-Propiciação de Cristo não foi Total nem foi
Suficiente.


As seitas pseudo cristãs usam esta artimanha para fazerem seus membros trabalharem sem
nunca terem real sossego, e para escravizá-los aos minuciosos padrões criados pelas seitas,
assim mantendo controle sobre seus membros.
João 19:30; Heb 9:8-16
“E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça,
entregou o espírito.” (João 19:30 ACF)
“8 ¶ Dando nisto a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do santuário não estava
descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo, 9 Que é uma alegoria
para o tempo presente, em que se oferecem dons e sacrifícios que, quanto à consciência,
não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço; 10 Consistindo somente em comidas, e
bebidas, e várias abluções e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. 11
Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito
tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, 12 Nem por sangue de bodes e
bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado
uma eterna redenção. 13 Porque, se o sangue dos touros e bodes, e a cinza de uma novilha
esparzida sobre os imundos, os santifica, quanto à purificação da carne, 14 Quanto mais o
sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus,
purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? 15 ¶ E
por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão
das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a
promessa da herança eterna. 16 Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a
morte do testador.” (Heb 9:8-16 ACF)


4. Ensinam que a "Organização ou "Denominação" Deles tem um PapelCentral na Profecia dos Últimos Dias.


Esta artimanha é usada para provar que é a denominação deles que saudará o retorno de Deus oude Cristo ao mundo. Ademais, isto adiciona uma falsa legitimidade [ou mesmo exclusividade] à
seita deles.
Apo 7:4-8 “4 E ouvi o número dos assinalados, e eram cento e quarenta e quatro mil assinalados, de todas as tribos dos filhos de Israel. 5 Da tribo de Judá, havia doze mil assinalados; da tribo
de Rúben, doze mil assinalados; da tribo de Gade, doze mil assinalados; 6 Da tribo de
Aser, doze mil assinalados; da tribo de Naftali, doze mil assinalados; da tribo de Manassés,
doze mil assinalados; 7 Da tribo de Simeão, doze mil assinalados; da tribo de Levi, doze
mil assinalados; da tribo de Issacar, doze mil assinalados; 8 Da tribo de Zebulom, doze mil
assinalados; da tribo de José, doze mil assinalados; da tribo de Benjamim, doze mil
assinalados.” (Re 7:4-8 ACF)


5. Ensinam que a "Organização ou "Denominação" Deles é a Única
Organização a ser Salva.


Se você não é um membro da denominação deles, então não há escape: você não está salvo, não
está indo para o céu. Isto piora ainda mais a idéia de se esforçar trabalhando para obter a
salvação pelas obras (sem nunca ter segurança total), piora os falsos ensinos, etc.
João 3:16; Rom 10:8-10, 13
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo
aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16 ACF)
“8 Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra
da fé, que pregamos, 9 A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu
coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. 10 Visto que com o
coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.” (Rom 10:8-10
ACF)
“Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Rom 10:13 ACF)


Miguel Jurna
Pastor First Baptist Church of Olivehurst
(traduzido por H.M.S., 2004)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Debate: William Lane Craig contra Sam Harris – resumo



William Lane Craig – primeiro discurso
É ótimo estar aqui e eu estou grato pelo convite da Universidade de Notre Dame. A questão da fundação correta da moralidade não é só de interesse acadêmico, mas também de interesse prático nas nossas vidas.
Vamos começar pelas concordâncias: Dr. Harris e eu concordamos que existem valores morais objetivos. Dizer isso é dizer que eles são válidos e obrigatórios independentemente da opinião humana. Dizer que o Holocausto foi objetivamente errado é dizer que ele foi errado mesmo que os nazistas que o praticaram o achassem correto; e mesmo se eles tivessem feito lavagem cerebral para todos acreditarem no mesmo.
Uma das afirmações mais valiosas do último trabalho de Harris é a forte alegação de que existem valores morais objetivos, ao contrário do que ele chama dos seus colegas “ateus moralmente niilistas e relativistas que se recusam a condenar como objetivamente errado atrocidades terríveis como a mutilação genital de garotas pequenas”.
Como diz Harris:
Se qualquer pessoa no mundo derrubasse uma pequena criança, aterrorizada e em prantos, e cortasse seus genitais com uma poderosa lâmina, a única questão seria: o quão severamente essa pessoa deve ser punida? O que não está em questão é que essa pessoa fez algo horrível, objetivamente errado.
Então a discordância no debate de hoje é: qual é a melhor fundação para a existência de valores morais objetivos? No debate de hoje, defenderei duas asserções básicas:
  • (p1) Se Deus existe, então existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
  • (p2) Se Deus não existe, então não existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
Observe que essas são afirmações condicionais. Eu não vou defender no debate de hoje a idéia de que Deus existe, que é uma pergunta diferente e que não afeta a validade condicional das minhas afirmações.
Vamos para a primeira asserção: “Se Deus existe, então existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo”.
Primeiro, teísmo providencia uma boa base para valores morais objetivos. Valores morais tem relação com o que é “bom” ou “mau”. Para o teísta, os valores morais estão fundados em Deus, que é o maior ser concebível e, portanto, o sumo bem. A natureza santa e boa de Deus providencia padrões absolutos para quais todas as ações são julgadas. Então se Deus existe, valores morais objetivos existem independentemente de seres humanos.
Segundo, teísmo providencia uma boa base para deveres morais objetivos. Na visão teísta, deveres morais objetivos são constituídos pelos comandos de Deus. A natureza moral de Deus se expressa em relação a nós em comandos, que constituem nossos deveres morais. Longe de ser arbitrários, eles são consistentes com sua natureza boa e santa, que refletem seu caráter moral.
Agora vamos para a segunda asserção. Se Deus não existe, que base resta para a existência de valores morais objetivos? Em particular, por que pensar que seres humanos – produtos acidentais da natureza, evoluídos muito recentemente em um infinitésimo pedaço de areia no Universo e que estão todos condenados a perecer individual e coletivamente dentro de relativamente pouco tempo – são dotados de valor moral objetivo em si? No ateísmo, parece difícil pensar que o bem-estar humano é mais objetivamente bom do que o bem-estar de ratos ou insetos.
Isso é o que Dr. Harris chama de “o problema do valor”. Rejeitando a teoria platônica, seu único meio é tentar fundamentar valores morais dentro do mundo natural. Mas como fazer isso se a natureza, em si mesma, é moralmente neutra? No ateísmo, valores morais são só comportamentos produzidos por fatores sociobiológicos. Assim como babuínos cooperam para sobreviver, os seres humanos também. Mas isso não faz de forma algum essa moralidade vinculante e obrigatória. Como diz Michael Ruse, “A moral é resultante da adaptação biológica, como nossas mãos e pés; ética é ilusória. Não há nenhum significado mais profundo por trás dessas ações que não possuem fundação”. Se a evolução acontecesse de novo, então pessoas com valores morais bastante diferente poderiam ter surgido, por essa posição. Sem Deus, qualquer tentativa de valorizar a moral como objetiva não passa de enganos especistas de quase-macacos num pedaço de areia sofrendo de sérias ilusões.
E como Harris resolve o problema do valor? O truque que ele propõe é simplesmente redefinir “bem” e “mal” em termos não-morais. “Nós devemos definir bem como aquilo que dá suporte ao bem-estar de criaturas conscientes. Questões sobre valores são questões de aumentar o bem-estar. Por isso, não faz sentido perguntar: maximizar o bem-estar é bom?”. Claro, pois, na sua definição, não seria nada mais do que perguntar “por que maximizar o bem-estar das criaturas é maximizar o bem-estar das criaturas?”. Seria uma tautologia. Harris resolve o problema do valor apenas redefinindo os termos. Não é nada mais do que um jogo de palavras.
E o os deveres morais? Há dois problemas. Primeiro: a ciência nos fala apenas do que “é”, não do que “deveria ser”. A ciência pode nos dizer como nós somos, mas não que nós somos errados em ser dessa maneira e que deveríamos ser de outra. Por quê devemos escolher atos que levam a um maior bem-estar humano? Sem Deus, que fundação há para deveres morais? É difícil pensar, no ateísmo, que nossos deveres não são só apenas impressões mentais subjetivas deixadas por condicionamento social.
Segundo problema: “dever” precisa de “poder”. Uma ação moral depende de uma dimensão de escolha. Por exemplo: se alguém lhe empurra contra uma criança. Você não tem culpa de ter feito isso; você simplesmente não teve escolha. Sam Harris acredita que todas nossas ações são causalmente determinadas e que não há livre-arbítrio. Harris rejeita libertarianismo e também compatibilismo. Se não há livre-arbítrio, não há responsabilidade moral para ninguém. Não há como existir deveres morais, porque, na visão de mundo de Harris, não há controle sobre aquilo que fazemos e também não há uma fonte para um dever moral.
Harris falha em dar uma base objetiva para valores e deveres morais objetivos no naturalismo. Em conclusão, nós vimos que o teísta tem uma boa base para a moralidade objetiva; mas se Deus não existe, então nós não temos uma boa base para a moralidade objetiva. Não ofereço um novo conjunto de valores morais; nós provavelmente concordamos em boa parte de nossas opiniões éticas. Ao invés disso, minha oferta é de uma boa fundação para a existência de valores morais objetivos, cuja existência nós dois concordamos. Obrigado.
Sam Harris – primeiro discurso
Estou feliz de estar aqui e debater com William Lane Craig, o apologista que parece colocar medo nos meus colegas ateus. Vocês não sabem o número de e-mails que recebi dizendo: “Por favor, irmão, não estrague tudo nesse debate!”. Mas vocês serão o juiz hoje.
Uma das razões que as pessoas dão para defender Deus não é a existência de muitas evidências, mas porque acreditam que a crença em Deus é a única fonte para moralidade objetiva. Eu também acredito que a preocupação da erosão da moralidade no secularismo não é uma preocupação vazia. Mas acho que nós poderíamos fazer grandes progressos se passássemos a entender moralidade como “florescimento do bem-estar de seres conscientes”.
Estive discutindo isso recentemente. Alguém me perguntou: “Como você pode dizer que a burca é errada?”. É evidente para mim que certo e errado se relacionam ao bem-estar humano; e forçar metade da população a viver embaixo de panos não é uma maneira de maximizar o bem-estar humano. Ela disse: “Essa é só sua opinião!” Eu perguntei sobre uma cultura que retirasse os olhos de terceiros filhos e ela também me disse que não poderíamos dizer que isso era errado. Mas essa mesma que estava disposta a perdoar culturas que retirem olhos aconselhou o presidente Obama a tratar como uma violação imoral da liberdade cognitiva usar máquinas para testar se terroristas estavam mentindo. Vejo esse duplo padrão como perigoso. E entendo que é sobre a destruição desse tipo de senso comum moral que as pessoas religiosas estão preocupadas. E espero que no final dessa hora vocês percebam que a “Crença em Deus” e “Religião” não são necessárias para uma moralidade universal.
Todos nós pensamos que a ciência pode nos ajudar a conseguir pelos fatos o que nós valorizamos – mas não dizer o que tem valor ou não. Parece científico dizer que não há nada no Universo que diga o que é certo e errado além de nossas mentes, o que parece uma projeção de nossos valores a uma realidade intrinsicamente sem valor.
Mas de onde vêm nossas noções de certo e errado? Claramente foram implantadas em nós pela evolução e moldadas pela cultura. O ciúme sexual, que deu origem ao casamento, parece uma soma desses tipos de fatores. E a Ciência não poderia dizer que é errado trair o parceiro.
Aqui é onde as pessoas religiosas começam a ficar preocupados, como acredito que deveriam. E a solução é colocar o deus de Abraão como um árbitro para a verdade moral. É errado trair porque “Javé” disse que sim em um livro sagrado – apesar de ele ser genocida e escravizador em outras partes.¹
É divertido ver Dr. Craig me acusar de apenas querer aumentar o bem-estar das criaturas conscientes no planeta. Se esse é um pecado, eu aceito. Imagino só no que Dr. Craig está focado.
Ao dizer que valores se reduzem ao bem-estar de criaturas conscientes, eu estou tomando dois pontos.
Vamos começar com consciência. Imagine um universo constituído de pedras. Claramente, não há bem ou mal, felicidade ou sofrimento – então valores morais não se aplicam.
E o bem-estar? Talvez isso seja discutível, mas não deveria. Aqui é a única assunção que você tem que fazer: imagine um mundo onde criaturas conscientes vivam em um estado de “maior miséria [em relação ao bem-estar] possível”. E se a palavra “mal” pudesse ser aplicada em algum lugar, com certeza seria esse. Se você não acha isso ruim, então não sei do que você está falando. A menor base moral possível é evitar o estado de “maior miséria possível para todos”. Se nós temos um dever moral de fazer qualquer coisa, então é esse.
E como o estado de seres conscientes depende da natureza, então haveria maneiras corretas ou erradas de verificar cientificamente. Esse é o argumento para verdade moral dentro da ciência:
  1. Questões de bem ou mal dependem de mentes;
  2. Mentes são fenômenos naturais (i.e., que dependem das leis da natureza);
  3. Moralidade pode, logo, ser entendida em termos científicos, porque nós estamos falando de fatos naturais que influenciam o bem-estar de seres com mentes;
Eu vejo essa experiência como o “moral landscape”, que corresponde com picos de maior bem-estar e com depressões que correspondem ao maior mal-estar. E você consegue perceber esse tipo de senso comum moral, a menos que seja um bioeticista na comissão do presidente Obama.
Então as coisas podem ser boas ou ruins independentemente da opinião das pessoas. Alguns podem dizer que eu não defini “bem-estar”. Considere uma analogia com “bem-estar físico”. Isso pode parecer difícil de definir. Mas você sabe que é mais saudável que alguém sempre vomitando, gritando de dor e com febre mortal.
Ao falar de moralidade, eu acredito que estamos falando de bem-estar mental. E a verdade é que a ciência está ligada com valores. Uma frase como “A água é composta de H2O” parece neutra sobre valores. Mas se alguém duvida disso, o que podemos fazer? Apelar para os valores científicos. O valor das evidências, o valor do entendimento, o valor da consistência lógica – e se alguém não compartilha desses valores é impossível conversar com essas pessoas.
William Lane Craig – segundo discurso
Vocês lembram no meu primeiro discurso que eu disse que iria defender duas afirmações principais essa noite:
  • (p1) Se Deus existe, então existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
  • (p2) Se Deus não existe, então não existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo;
Harris não discordou da primeira, mas possivelmente se confundiu dizendo  “se a religião não for verdadeira, então palavras como “bem” e “mal” não tem significado”. Eu não estou defendendo isso. Essa é uma confusão de ontologia moral – a fundação dos valores morais – e semântica moral – o significado de termos morais. Minhas afirmações são sobre ontologia.
Em segundo lugar, deveres morais são determinados por Deus em resposta a sua natureza moral. A resposta de Harris foi a referência a eventos da Bíblia hebraica. Mas isso é irrelevante. Há vários teóricos de comandos divinos que não são judeus ou cristãos e não precisam da Bíblia. Então essa não é uma objeção a teoria dos comandos divinos, que eu defendo essa noite. De qualquer forma, leia o livro “Is God a Moral Monster?” de Paul Copan para entender essas questões sobre a Bíblia.
E se Deus não existe, existe uma boa fundação moral para a existência de valores morais objetivos? Aqui, Dr. Harris diz “Você não precisa de religião para ter moralidade universal”. De novo, essa é confusão. É claro que não. Os nazistas poderiam ter vencido a segunda guerra mundial e imposto uma moralidade universal. O assunto não é universalidade, é objetividade. E minha posição é que na ausência de Deus, não existe uma boa fundação moral para a existência de valores morais objetivos.
Harris diz: “Nós podemos imaginar o maior estado de miséria possível e um estado onde as pessoas tenham um maior bem-estar. E é óbvio que o segundo é melhor do que o primeiro”. Mas esse não é o debate. Eu concordo que o florescimento do bem-estar é bom. A questão real é: “Se o ateísmo for verdadeiro, o que faz o maior bem-estar ser objetivamente bom?”. Criaturas podem achar que é melhor para elas terem mais bem-estar, mas o que garante que isso é objetivamente bom no ateísmo?
Sam Harris está fazendo uma confusão no uso de termos “bom” e “mau”, “certo” e “errado”, usando em termos não morais. Por exemplo, poderíamos aplicar em: “Há jogadas objetivamente boas e más no Xadrez”. Mas esses não são usos morais das palavras “objetivamente bom” e “mau”, elas são apenas direcionadas para a vitória ou não. Mas você não está sendo uma pessoa má ao fazer a jogada errada. E da mesma forma diríamos “Esse seria um bom modo de você se suicidar!”, sem nos referirmos a um valor moral de “bom”.
O contraste feito por Harris, entre uma vida boa e uma vida ruim, não é um contraste ético entre uma vidamoralmente boa e uma vida moralmente má. Não é uma distinção ética e sim “prazerosa” e “miserável”. No ateísmo não temos bases objetivas para afirmar uma bondade e maldade objetivas relacionadas a isso. O que Harris fez foi tornar a propriedade p “Ser bom” é idêntica p’ “Promover o florescimento humano” e não providenciou bons argumentos para isso.
Na verdade, acho que temos um argumento definitivo contra isso. Sam Harris diz, no fim do seu livro, diz que “se estupradores, mentirosos e ladrões pudessem ser tão felizes quanto pessoas boas, então o meu “moral landscape” [N.T.: Qual seria a tradução exata para o termo? Panorama moral?] não seria mais um panoramamoral. [i.e., moral landscape]. Seria apenas um continuo de bem-estar cujo picos são ocupados por pessoas tanto boas quanto más da mesma forma”. Mas antes o próprio Harris cita que 3 milhões de americanos são psicopatas. Eles não se importam com os estados mentais de outros; na verdade, eles se divertem infligindo dor nos outros. Mas isso implica que existe um mundo possível concebível onde o florescimento do bem-estar humano não é um “panorama moral”; os picos de bem-estar podem ser ocupados por pessoas más. Mas isso implica que então no mundo real que o contínuo do bem-estar e o panorama moral não são idênticos da mesma forma. Pois a identidade é uma propriedade necessária, que não pode faltar em nenhum mundo possível.² E que se existe um mundo possível onde “A” difere de “B”, isso implica que “A” e “B” não são a mesma coisa no mundo real.
Se for possível que “bem-estar humano” e “bondade moral” não sejam a mesma coisa, então a conclusão, necessariamente, é que eles não são idênticos. Logo, a visão de Harris é logicamente incoerente.
E que tal os deveres morais objetivos? Eu argumentei, da distinção entre “ser” e “dever” que o ateísmo não tem uma base para afirmar deveres. O argumento de Harris é “Se nós temos um dever moral de fazer qualquer coisa, nós temos um dever moral de evitar o maior estado de miséria possível”. Mas o problema está no antecedente: “Se nós temos um dever moral de fazer qualquer coisa (…)”. Por que no ateísmo temos algum dever moral objetivo de fazer qualquer coisa? Essa é a distinção entre “ser” e “dever”, como notaram os comentaristas, é fatal para a posição de Sam Harris.
E ainda temos o problema do “dever” precisar de “poder”. Na impossibilidade de poder fazer qualquer coisa (determinismo) nós não temos deveres, pois não temos escolhas. Nós não somos mais do que robôs agindo em resposta eletroquímicas. Não há sequer possibilidade de “deveres morais” nessa opção.
Portanto, a posição de Harris que defende o valor e dever moral objetivo dentro do ateísmo é incoerente. Obrigado.
Sam Harris – segundo discurso
Lembrem-se que Dr. Craig não oferece uma visão diferente de moralidade. O ponto todo no Cristianismo seria garantir o bem-estar eterno das almas humanas.
Não há evidências do Inferno, mas nós deveríamos pensar no que implica pensar de acordo com esse “framework” moral. Milhares de crianças são mortas antes dos 5 anos em terror e agonia – várias antes de eu terminar essa sentença. De acordo com Dr. Craig, isso tudo faz parte do plano de Deus. Qualquer deus que permite esse tipo de ação é ou impotente ou malevolente.³ E o pior disso é que, pela visão do Dr. Craig, a maior parte dessas crianças vai para o Inferno por estar rezando para o Deus errado.
Há alguma evidência para isso? Não. Apenas é dito na Bíblia. E talvez você lembre do Senhor dos Anéis, que traz afirmações semelhantes sobre os elfos.
Por outro lado, há vários serial killers na América que podem ser perdoados depois de matarem várias pessoas. E essa visão não tem relação nenhuma com responsabilização moral.
Se Deus queria nos guiar, por que ele nos deu um livro? E por que justamente um livro que apoia atos de escravidão, assassinato, etc? Dr. Craig apoia a teoria dos comandos divinos morais que afirma que Deus não tem deveres morais, mas que seus comandos refletem sua natureza boa. Foi muito bom que Dr. Craig tenha trazido o assunto da psicopatia ao debate. Essa é uma teoria psicótica porque é ilusória; simplesmente não há razões para acreditar que nós vivemos em Universo governado por um monstro invisível chamado Javé. E também porque ela é totalmente contrária ao bem-estar dos seres humanos.
Lembre dos terroristas islâmicos. Dr. Craig não pode dizer nada a não ser que eles rezam para o “deus” errado dentro da teoria dos comandos morais divinos. Esse é o verdadeiro mal da religião, ao meu ver: ela permite que as pessoas acreditam aos bilhões aquilo que apenas os lunáticos acreditariam por si mesmo.
E eu também não sou a primeira pessoa a notar que há alguma coisa errada com um deus que deseja que você acredite nele a partir de evidências ruins. É verdade que há 2.000 anos havia milagres para nos fazer crer; mas a ciência e suas descobertas das origens humanas tem feito muito mais difícil acreditar em Deus. E não somente o Deus genérico do debate de hoje oferecido por Dr. Craig, mas o Deus Pai e Jesus Cristo que o Dr. Craig suporta.
O Cristianismo é a cultura do sacrifício humano; essa é a religião que não repudia o sacrifício humano, mas que apoia tanto que celebra um único sacrifício como sendo o efetivo. Se há algum “framework” moral menos valioso do que esse proposto pelo Dr. Craig, eu ainda não ouvi qual.
William Lane Craig – terceiro discurso
Há um “framework” menos valioso que o Cristianismo: o ateísmo! O ateísmo simplesmente não tem base alguma para valores morais objetivos. E eu estou triste em notar que nesse último discurso simplesmente não houve nenhuma defesa por parte de Sam Harris para a minha segunda afirmação no debate dessa noite: “Se Deus não existe, então não existe uma boa base para a existência de valores morais objetivos no mundo”.
Eu falei sobre o problema dos valores, eu dei um argumento para demonstrar que o “panorama moral” não é idêntico ao contínuo do desenvolvimento humano, nós falamos a diferença entre deveres morais, a distinção entre “ser” e “dever”, o problema do “dever” precisa do “poder”. Nenhum desses argumentos foi respondido por Sam Harris. Então se você quiser um sistema moral bastante ruim, tente o ateísmo: simplesmente não há nenhuma fundação para valores morais objetivos lá!
E que tal o teísmo? Harris ofereceu alguns ataques para a minha primeira afirmação de que “Se Deus existir, há uma base para uma moral objetiva para o mundo”. Infelizmente, a maior parte dos ataques foram red herrings. E eu não vou me distrair por red herrings, por exemplo: “Dr. Craig não ofereceu uma alternativa moral, pois a finalidade teísta é evitar o Inferno”. Infelizmente, isso só demonstra o quão pobremente Sam Harris entende o Cristianismo. A crença em Deus não é uma espécie de seguro contra fogos; nós adoramos a Deus por quem ele é. A perfeição de Deus o torna digno de adoração. Não há nada em relação a fugir do Inferno ou aumentar seu bem-estar.
Depois, Harris diz que “não há evidências para se crer em Deus. Veja os Problemas do Mal e o Problema dos que nunca foram evangelizados”. Mas isso é irrelevante. Como eu disse no início do debate, eu não estou argumentando que Deus existe e sim sobre que, se Deus existir, em condicional, então há uma boa base para deveres morais objetivos e o vice-versa.
Em segundo lugar, quero lembrá-los que o Mal prova a existência de Deus. Afinal, se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos não existem. Se o Mal existe, então segue que valores morais objetivos existem, pois alguns são maus. E então segue que Deus existe.4
Observe que Sam Harris não tem como julgar o Cristianismo objetivamente. Se o ateísmo é correto, então como alguém pode dizer que um sistema é melhor do que o outro? Não há bases para tal julgamento.
Harris também diz “é psicopático acreditar nessas coisas”. Desculpe, mas essa afirmação é tão estúpida quanto é insultante. Seria absurdo dizer que Peter Van Iwagen, Thomas Flint são psicopatas. Isso é simplesmente baixar o nível.
Eu penso que não vimos nenhuma refutação para a idéia de que se Deus existe, sua natureza moral é a base para a existência de valores morais objetivos.
E que tal deveres morais objetivos? Harris reclama que “a Bíblia suporta a escravidão”. Mas isso é irrelevante, pois eu não estou defendendo a Bíblia hoje. De qualquer forma, eu sugiro a leitura do livro de Paul Copan, Is God a Moral Monster?, para ver que essa é uma visão completamente errada. Sobre os talibãs, eu diria para eles a mesma coisa que Sam Harris diria. “Deus não ordenou vocês a realmente fazerem isso”. Nós temos diferentes motivos, mas a resposta é a mesma.
Então eu acho que minha primeira afirmação não está em disputa. É óbvio que se Deus existem, valores morais existem, não são dependentes da opinião humana e estão fundadas na natureza moral de Deus, sendo objetivos. O verdadeiro debate é: o ateísmo pode providenciar uma base para a moralidade objetiva? Eu penso que vimos razões poderosas para dizer que não.
Sam Harris – terceiro discurso
Talvez vocês tenham notado que Dr. Craig tem um costume charmoso de sumarizar os pontos do oponente de uma forma diferente das que elas foram colocadas. Eu claramente não chamei esses professores de psicopatas, como deixei claro.
De qualquer forma, Dr. Craig simplesmente definiu Deus como sendo intrinsicamente bom. Não há razões para acreditar que existe um deus mal ou severo. Esse é um jogo semântico por parte dele.
E eu apresentei um caso para a moralidade objetiva no contexto científico. E isso só é um problema se você achar que a ciência e moral tem que se justificar de uma maneira que nenhuma ciência jamais foi capaz de ser. Toda ciência começa com axiomas assumidos. Uma ciência moral seria da mesma maneira que ciência médica; você só precisa assumir que a maior miséria possível fosse um cenário ruim e digno de ser evitado. Se trazer um valor para a ciência é não-científico, então o que é científico?
Dr. Craig está confuso sobre o que significa objetividade moral para a ciência. Há duas maneiras em que podemos usar os termos “objetividade” e “subjetividade”. A primeira é epistemológica (como conhecemos). Quando falamos de “objetividade” aqui, estamos falando de como estamos pensando: sem parcialidade, de acordo com as evidência, aberta para as opiniões contrárias. Essa é a fundação absoluta para a ciência. E essa também é a diferença fundamental entre ciência e religião.5
Mas ciência não ignora que há fatos que são ontologicamente subjetivos: há fatos de primeira pessoa, como “Como é ser você?”, que a ciência pode estudar e entender. Nossos estudos nos permitem entender isso. Esse é um falso reducionismo.
A dor que você sente é um fato subjetivo sobre você, mas que podemos entender. O que meu argumento quer dizer é que podemos falar objetivamente sobre classes de fatos subjetivos que vão pela “moralidade”. E isso depende do “bem-estar de criaturas conscientes”. Assim, percebemos que uma pessoa que prefere ser neurótica está objetivamente errada, pois está mais perto do pior cenário de miséria possível.
O pior cenário de miséria possível é ruim? Nós atingimos a pedra de uma discussão filosófica com as pás de uma pergunta estúpida. Devo lembrá-los que ateus também podem querer experimentar experiências típicas de pessoas religiosas. Não há nada que impeça um ateu de ficar um ano em uma caverna como um místico verdadeiro faria e meditar em compaixão. O que ateus não fazem é só alegações injustificadas sobre a natureza do Cosmos por essas experiências. Eu mesmo medito com gênios espirituais e considero Jesus um gênio. Mas não precisamos pressupor, sem evidências, algo além disso para provar desse tipo de experiência humana. E o fato de várias religiões possibilitarem o mesmo tipo de experiência demonstra que há um princípio mais fundo por trás disso tudo.
Se quisermos entender o mundo além dessas experiências, devemos usar a ciência. Nós podemos ter uma conversa do século VII usando o Corão; nós podemos ter uma conversa do século I usando o Novo Testamento; ou podemos ter uma conversa do século XXI que nos leva a completa prosperidade do aprendizado humano. Pensem nisso.
William Lane Craig – discurso final
No meu discurso final, gostaria de lembrar de alguns pontos e discussão e pensar se chegamos a alguma conclusão.
Primeiro, eu argumentei que Deus, existindo, providencia uma base para a existência de valores morais objetivos. A resposta de Sam Harris no seu último discurso é de que eu simplesmente disse que Deus seria bom caso existisse. Mas Deus é um ser digno de adoração; qualquer ser que não tenha a propriedade “ser digno de adoração” não é Deus, além de ser o maior ser concebível. Logo, ele deve ser o sumo bem ou essencialmente bom. Ao entendermos o conceito de “Deus”, entendemos porque ele seria um ser bom se existisse. E se um ser assim existisse, então haveriam valores e deveres morais objetivos.
Segundo, eu disse que se Deus não existir não temos uma base para a existência de valores morais objetivos. Eu disse que, na sua visão, é impossível que o conceito de “panorama moral” seja igual ao “panorama do florescimento dos seres conscientes”. Logo, sua visão é incoerente.
Nós também vimos que “dever” precisa de “poder”, argumento que Harris jamais respondeu durante o debate.
No seu último discurso, ele diz que “nós somente precisamos confiar em alguns axiomas”.  Mas isso é o mesmo que dizer que você tem que acreditar por fé! E se esses axiomas são axiomas morais, então ele está admitindo meu ponto: no ateísmo não existe uma fundação para valores morais objetivos. Ele simplesmente os assume em um ato de fé.
Ele diz: “há várias maneiras de se referir a objetividade”. É verdade; mas eu deixei clara qual minha concepção no início do debate. E valores morais não são válidos e obrigatórios independentemente da opinião humana no ateísmo.
Ele diz: “A ciência pode estudar fatos subjetivos, como a dor”. Correto. Minha pergunta é: o certo e o errado são fatos subjetivos? No ateísmo, é difícil pensar porque eles são algo mais do que isso. E assim Dr. Harris não pode dizer, como nós dois concordamos, que a mutilação genital de uma criança indefesa é objetivamente errado, não só uma opinião subjetiva.
Ele diz: “Mas há algo de errado com neuróticos e psicopatas”. É claro, eu concordo com isso. Mas minha questão é: no ateísmo, há algum motivo para dizer que o que psicopata faz é objetivamente errado? Lembrem-se que o próprio Sam Harris disse que eles poderiam ocupar o pico de seu “panorama moral” e, portanto, ele não é moral no fim das contas.
[Craig termina seu discurso com uma citação]
Sam Harris – discurso final
Quantos de vocês são muçulmanos devotados? Há alguma mão levantada? Toda defesa que Dr. Craig disse hoje, com algumas modificações, pode ser dito em defesa do Islã – e, de fato, já foi dito em defesa dele. A lógica é a mesma. Nós temos um livro que diz sobre a natureza da moralidade e como devemos viver.
E se eles estiverem certos? Como devemos ver Deus, ou devo dizer Allah, em termos morais? Nós nascemos na cultura errada. Dr. Craig está condenado; não é preciso dizer. Eu fui confundindo pela Ciência. Onde está a compaixão de Allah? Por que Allah não muda essa situação? Pense em quão pouca preocupação você teve pensando nisso.
Escrituras foram escritas por pessoas que tinham menos acesso à ciência e ao senso comum menor do que qualquer pessoa nessa sala. Pense em quanto a mente de Abraão, Moisés… ou mesmo Jesus e Maomé eram fechadas. Mas Dr. Craig acredita que os autores da Bíblia sabiam tudo o que precisavam sobre o Cosmos para nos guiar nessa vida. Eu quero sugerir para vocês que essa visão da vida não pode ser possivelmente verdadeira. Assim como não há “física cristã”, não pode haver uma “moral cristã”; qualquer coisa que podemos discutir sobre esses assuntos, espiritualmente e moralmente, pode ser descoberta agora.
Nós devemos descobrir o maior número de fatos que permita ao maior número de nós viver uma vida realmente digna de ser vivida. E isso pode ser construída através de uma civilização global. Esse é o nosso desafio. Sectarismo moral a partir de Deus não é a maneira correta de seguirmos, sem falar no fato que não há evidência, em primeiro lugar, para adotar a visão teísta. Nós só precisamos de honestidade intelectual. Se a fé esteve certa sobre alguma coisa, foi por acidente. Muito obrigado.