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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Uma maneira simples de encorajar seu pastor





By Kevin Deyoung
Eu decidir escrever este post agora enquanto ainda me restam quatro semanas para terminar minha licença dos estudos de verão, assim, isso que estou fazendo pode ser visto como um comentário geral sobre o ministério pastoral e não trama para mais elogios do meu povo. Eu sirvo uma grande igreja e nada neste curto espaço deve ser lido como uma reclamação clandestina.
Advertências no lugar, há uma coisa simples e muito importante que você pode fazer para encorajar seu pastor: diga-lhe que você está grato por sua pregação.
Eu não estou falando sobre afagar o ego de seu pastor, apenas para fazê-lo (ou você) sentir-se bem. Eu não estou falando de elogio superficial. Não estou falando sobre bajulação inútil. Não fale nada a seu pastor que realmente não queira.
Mas, se o sermão do seu pastor ajudou você a ver mais de Jesus, ou ajudou você a voltar do pecado, ou te ajudou a compreender melhor a Bíblia; ajudou você a ser um cônjuge melhor ou te ajudou a confiar em Deus no meio do sofrimento, ou ainda, mexeu com suas afeições para as coisas da glória, conte a ele. Não precisa ser toda semana ou mesmo todo o mês. Mas quando apropriado e legitimo, conte a ele. Pode ser curta com e-mail de duas frases ou uma conversa de dez segundos na porta. Apenas diga algo como “eu continuo a crescer como um cristão por causa de sua pregação” ou “eu tenho aprendido demais acerca da Bíblia durante as últimas series de sermões”.  Um pouco de encorajamento vai muito mais longe do que você imagina. Eu não digo isto porque os pastores têm o trabalho mais duro no planeta. De muitas maneiras é o trabalho mais privilegiado no planeta. Somos pagos (a maioria de nós) para estudar a Bíblia, falar para as pessoas sobre Jesus, orar com gente em situações difíceis, e, no geral, fazer certos tipos de coisas que os cristãos tentam fazer quando eles não estão trabalhando em um emprego normal. Mas ser pastor é único em que cada semana do nosso trabalho – e realmente nosso coração e alma – é posto em exposição para todos verem, apreciar ou dormir. É natural que um pastor goste de saber de vez em quando (e mais, assim como o tempo continua) “Como estou indo?”.
Na maioria das vezes, não penso que a questão se confunde ao redor da cabeça do pastor por causa do narcisismo, baixa autoestima, ou ambição egoísta. Eu penso que a maioria dos pastores genuinamente não tem ideia se estão fazendo qualquer diferença na vida de seu povo. Com certeza, há conversões dramáticas aqui e ali, e sem dúvida, membros estão constantemente animados e encorajados. Mas em geral, acho que ministros gastam muito tempo silenciosamente querendo saber se estão testemunhando no escuro.
Possivelmente alguns deles (alguns de nós) estão. Não há dúvidas, existem homens no ministério que serve melhor o reino fazendo algo a mais. E ainda, eu imagino que a maioria dos pastores não devem deixar o pastorado. Eles estão trabalhando duro. Estão usando qualquer dos dois ou cincos talentos que lhes foi dado. Eles ainda amam a Deus, amam seu povo e amam a Bíblia. Mas eles não estão certos de estarem realmente fazendo a diferença. Isso é porque, eu penso, que muitos pastores olham nos orçamentos, construções e nádegas no banco da igreja. Isso é quantificável! É mensurável! É algo para reafirmar o coração pastoral vacilante: “Olhe, você não está desperdiçando seu tempo (e deles)”.
Assim, alguma vez no mês – se há algo de valor a elogiar no sermão do pastor – vá em frente e comente para ele, pessoalmente e prazerosamente, à partir de seu coração.
Não se preocupe com sua cabeça ficando muito grande. O Senhor sabe como manter seus pastores humildes, assim, você pode se preocupar em manter seu pastor. Quem sabe qual é a época da dúvida que seu ministério pode estar enfrentando? Quem sabe qual é o desencorajamento que constantemente o incomoda? Quem sabe o quão próximo ele pode estar de deixar o ministério (por resignação tranquila ou por escândalo público)?

Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai (Fl 4.8). E se o sermão do seu pastor -- mesmo uma vez durante um período – cair na categoria de “aquelas coisas”, dê graças a Deus. E considere, deixando seu pastor ciente que você fez.

FONTE: http://www.thegospelcoalition.org/blogs/kevindeyoung/2015/07/28/one-simple-way-to-encourage-your-pastor/

tradução: Eudmarly Sena 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O pastor do século 21 - Uma reflexão na área da teologia



Preparada para a 1ª. Conferência da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Subseção Mesquitense, Mesquita, RJ, 9.9.11
INTRODUÇÃOFalar para pastores e líderes sobre temas do momento provoca-me dois tipos de percepção. Um é que alguns pensam que precisamos entender o nosso tempo para nos encaixarmos nele e também encaixarmos nele a nossa mensagem. Parece que este é o sentimento mais comum. Já me deixei dominar por ele, em tempos idos. Outra percepção é que devo me firmar mais nas raízes bíblicas e encaixar o tempo em que vivemos dentro dele. É este o sentimento que me conduz. 


Tempos atrás, falei num congresso de pastores de outra denominação sobre o tema “Como deve ser o pastor do século 21?”. Pus as cartas na mesa na primeira sentença gramatical: “Exatamente como deveria ser o pastor do século 20, o do século 18, o do século 15 e o do século primeiro”. E coloco as cartas na mesa, logo no início, também aqui. Nosso foco não deve ser um ajuste do que pregamos aos novos tempos, mas sim como pregar a mensagem de sempre aos novos tempos. Quando focalizou tempos futuros, os do fim, Paulo não prognosticou nenhum conteúdo diferente a Timóteo, mas exortou-o à firmeza: “Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que julgará todos os seres humanos, tanto os que estiverem vivos como os que estiverem mortos, eu ordeno a você, com toda a firmeza, o seguinte: Por causa da vinda de Cristo e do seu Reino, pregue a mensagem e insista em anunciá-la, seja no tempo certo ou não. Procure convencer, repreenda, anime e ensine com toda a paciência. Pois vai chegar o tempo em que as pessoas não vão dar atenção ao verdadeiro ensinamento, mas seguirão os seus próprios desejos. E arranjarão para si mesmas uma porção de mestres, que vão dizer a elas o que elas querem ouvir. Essas pessoas deixarão de ouvir a verdade para darem atenção às lendas. Mas você, seja moderado em todas as situações. Suporte o sofrimento, faça o trabalho de um pregador do evangelho e cumpra bem o seu dever de servo de Deus” (2Tm 4.1-4, NTLH).


O fundamental, para mim, não são os tempos em que vivemos, mas o que pregamos ao nosso tempo. O conteúdo independe do tempo, não pode ser ajustado a época e a cultura alguma. Judeus e gregos tinham cosmovisões completamente diferentes, mas a igreja pregava aos dois grupos o mesmo evangelho. Tanto que lemos em 1Coríntios 1.23-24: “Mas nós anunciamos o Cristo crucificado - uma mensagem que para os judeus é ofensa e para os não-judeus é loucura. Mas para aqueles que Deus tem chamado, tanto judeus como não-judeus, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus”. Era o mesmo evangelho e seu teor não fazia sentido para qualquer dos grupos. E isto não abateu a Igreja. Ela não teve dois evangelhos, um para cada cultura.


Mas parece que hoje temos uma preocupação muito grande em desvestir o evangelho da sua loucura e adorná-lo com a sabedoria humana. A preocupação de muitos pregadores é como torná-lo palatável ao incrédulo. Querem fazer com que o evangelho tenha sentido para o homem pecador. Mas ele continua sem sentido para os pecadores. Nossa tarefa é pregá-lo assim mesmo, na convicção de que o Espírito Santo tem poder para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Nossa tarefa não é tornar nossa mensagem aceitável. É pregar a mensagem, mesmo que pareça inaceitável. O evangelho não pode ser adaptado a tempos, culturas  e gostos. Quando tentamos fazer isto, produzimos o que se vê hoje, uma balbúrdia incrível no cenário evangélico. E um evangelho água com açúcar, que tem mais o rosto de Lair Ribeiro que o de Jesus.

1. MAS É ERRADO ANALISARMOS NOSSO TEMPO?Não, não é errado. É até necessário. O erro se dá quando analisamos o tempo em que vivemos, e com essa análise formamos uma maçaroca intelectual e queremos ver o que da Bíblia podemos aproveitar para não ferir a maçaroca que fizemos. Em termos mais elegantes: submetemos a Bíblia ao escrutínio do nosso tempo, e não o oposto. Prego para auditórios diversificados: intelectuais e gente de roça, estudantes e operários, senhores sisudos e jovens álacres. Mudo as ilustrações. Mudo a forma de me dirigir ao auditório, mas sempre falo da salvação que vem pela obra vicária de Cristo. Este é o tema. 


Continuo com cartas na mesa: a Bíblia é o microscópio pelo qual examinamos a cultura secular. Ela não é um objeto que analisamos pela cultura secular. Ela é senhora e não serva; é juíza e não ré, palavra última e não palavra penúltima.

Com tudo isto, quero dizer que nossa maior necessidade não é a de conhecimento de nosso tempo, mas sim de firmeza nas Escrituras para analisarmos nosso tempo por ela. Se nossos ouvintes gostarão, se acharão que é insensatez dizer que o destino eterno deles depende da resposta que darão à obra que um homem fez numa cruz, num lugarejo obscuro, há dois milênios, isso não importa. 


Conhecer nosso tempo é bom se isto mostra o terreno onde lançaremos a semente. Mas é um ato equivocado determinar a essência da semente pelo terreno. Na parábola do semeador havia tipos diferentes de solos. Mas não havia tipos diferentes de sementes. Nossa semente é o evangelho de Jesus, na certeza de suas palavras: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13.31). E para quem acha que isto é ultrapassado, que precisamos de refinamento cultural, e não de uma mensagem tão retrógrada, lembro outras palavras de Jesus: “Porque qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na do Pai e dos santos anjos” (Lc 9.26). Muitos não querem ser vistos como ultrapassados, e refinam a mensagem para torná-la atraente ao mundo atual.


Definidas estas coisas, quero lhes falar sobre como o obreiro de tempos pós-modernos deve se posicionar. Sei o que é pós-modernidade. Poderia discorrer sobre ela. Em meu site (www.isaltino.com.br) há uma apostila sobre o assunto. Mas o obreiro de um mundo pós-moderno não deve se mirar nos moldes do mundo e sim nos moldes de um obreiro leal à Palavra.
2. A NECESSIDADE DE UMA TEOLOGIA SADIA A Igreja carece de uma teologia sadia. E seus obreiros mais ainda. E muito mais que os obreiros de época anteriores. Porque vivemos numa negação de valores, de subjetivação da verdade, de relativismo filosófico e moral. Alguém precisa sinalizar alguma coisa nesta bagunça em que vivemos. E quem pode sinalizar corretamente é a Igreja de Cristo. Ela tem a verdade. E se alguns de seus setores pensam que não têm e que dizer isso é ser arrogante numa época de politicamente correto, deve mudar logo de lado, caso não queira entender o que é o evangelho. Nós temos a verdade. Quem não crê nisto, por favor, não fique marcando gol contra. Porque desconfio que torce para o time adversário. 
 Nós precisamos de uma teologia sadia. Porque precisamos ter as bases bem definidas e os contornos de nossa fé bem delineados. O obreiro e a Igreja de um tempo pós-moderno, um tempo vacilante e sem fronteiras, precisam ser firmes e devem ter suas fronteiras teológicas bem definidas. E isto mais que nunca.


A Igreja precisa sinalizar ao mundo que há um caminho e uma verdade. Nosso tempo é de relativismos: o que é verdade para você pode não ser verdade para mim. Hoje, as pessoas têm as suas verdades. A Igreja precisa deixar claro que ela tem a verdade de Deus. E antes de tudo precisa deixar isso claro para ela mesma. O neopentecostalismo criou uma situação surrealista: colocou a subjetividade humana no lugar da objetividade das Escrituras.  São sentimentos, insights, vislumbres, percepções parciais que ditam as normas. Até mesmo em igrejas ditas tradicionais ouvimos muito esta frase: “Eu senti em meu coração” ou “Eu sinto”, geralmente introduzindo uma observação da pessoa em defesa de alguma verdade. Desculpe-me, se você usa esta frase, mas o que você sente é irrelevante. O relevante é o que a Bíblia diz. Diz Jeremias 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”. 


Infelizmente, o “sentismo” e o “achismo” são as maiores vertentes hermenêuticas, hoje, no movimento evangélico. Precisamos restaurar a objetividade do ensino das Escrituras. Nossos sentimentos devem se subordinar a ela. Bem como nossos interesses e nossas perspectivas.


A maior batalha que teremos na área da teologia, nestes anos imediatos, é sobre a fonte de autoridade em matéria de religião. Sempre se apontou que a Bíblia é a fonte última. O preâmbulo da Declaração Doutrinária da CBB diz: “Através dos tempos, os batistas têm se notabilizado pela defesa destes princípios: 1º) A aceitação das Escrituras Sagradas como única regra de fé e conduta”. E todo o resto parte deste ponto. 


Precisamos ter uma teologia bem segura neste ponto: tudo parte da Bíblia e a ela tudo se submete. Infelizmente, todos afirmamos isto, mas nem sempre praticamos isto. Primeiro porque, como eu disse, temos o subjetivismo neopentecostal infiltrado em nossas igrejas, alimentado pelo romantismo da época, em que os sentimentos soam mais alto que a razão. Nossa geração não reflete, mas sente. Depois por causa da mentalidade pragmática que se dissemina entre nós. O que deu certo em algum lugar passa a ser a verdade. A verdade não é mais que o é certo, mas o que funciona. A pós-modernidade tira o foco da verdade objetiva para a funcionalidade. Precisamos lembrar bem que somos “a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (1Tm 3.15). E que “a coluna e firmeza da verdade” deve estar alicerçada sobre a Palavra que é a verdade: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).


Que a Igreja estude a Palavra, submeta suas práticas e sua liturgia à Palavra. Que os pregadores preguem a Palavra e não seus desinteressantes conceitos culturais. Há obreiros que julgam suas platitudes um autêntico oráculo de Yahweh. Precisamos de pregadores que preguem a Palavra e não que contem historinhas o tempo todo. O pastor do século 21, bem como a igreja do século 21, precisa de uma teologia bíblica sadia.
3. A NECESSIDADE DE UMA SOTERIOLOGIA CORRETAContinuamos afirmando, em nossas pregações, que Cristo é o Salvador. Mas, Salvador de quê, exatamente? 


Na teologia da libertação, entre muitos outros aspectos, Jesus é “o revelador dos verdadeiros valores humanos”.  Ele é “o homem para os homens”. Ele é mais um modelo que um Salvador.  A soteriologia da falecida teologia da libertação é de fundo econômico, mas ingenuamente alguns de seus propugnadores criam que Jesus era um modelo que os homens poderiam seguir e que assim seriam socialmente transformados. Sendo o homem intrinsecamente bom, as pessoas precisavam ver o “modelo Jesus”, e se disporiam a imitá-lo. Outros teólogos desta linha, como boa parte dos seus comentários bíblicos mostra, falam de um tal de “projeto de Jesus”, que nunca entendi qual seja. Um desses comentários, em cada página trazia o tal “projeto de Jesus”. Parece-me que era de um levantamento das massas contra as famosas “elites”, de quem todos falam, mas nunca identificam. Mas a soteriologia sempre se liga à libertação da pobreza material.


Ideologicamente, a teologia da prosperidade é irmã gêmea da teologia da libertação, pois sua soteriologia também se liga à libertação da pobreza material. Só que seu viés é pelo exorcismo, e não pela política. Acrescenta algo mais em sua panela de heresias: a resolução dos problemas relacionais e de saúde. 


Outros vêem Igreja como um lugar, apenas. E como um lugar de catarse, de liberação de emoções. É uma forma de terapia emocional. A Igreja acaba se tornando apenas um evento sócio-emocional. Salvação é se sentir bem e estar em paz consigo mesmo. A soteriologia tradicional parte da anunciação do nascimento de Jesus: “E ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21). A soteriologia correta parte daqui: perdão dos pecados. Há pecados e há o pecado. Não é ter paz consigo mesmo e se aceitar como se é. É ter paz com Deus e aceitar seu Filho. E, pelo poder do Espírito Santo, tornar-se aquilo que deve ser.


Fortemente marcados pelo mito da bondade inata dos homens, mito que vem do Iluminismo, nossa cultura prega a bondade humana. Nossas pregações têm omitido o pecado, a condenação e, principalmente, o inferno. Estas questões são consideradas como medievais e indignas de pessoas ilustradas, cultas, do século 21. Como disse alguém, há pouco tempo: “A missão da Igreja é despertar o melhor dos homens”. Frase feita, bonitinha. Mas sem nexo. Qual é o nosso melhor? Diz Isaías 64.6: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos nós caímos como a folha, e as nossas culpas, como um vento, nos arrebatam”. Não teremos soteriologia correta se não tivermos a noção correta de quem seja o homem: pecador, caído, perdido. É curioso como os próprios crentes não gostam da doutrina da depravação da raça e da pecaminosidade humana. Um dia vi um pastor zangado com um corinho (e não sou fã deles) que diz “Se olhares para dentro de mim nada de bom encontrarás”. Ele estava realmente zangado. E me disse: “Nós temos muito de bom!”. Mas não temos! A Bíblia diz que não temos. Nosso “bom” é “trapo da imundícia”, referência aos absorventes menstruais das senhoras da época do profeta. Se há algo bom em nós é produto da graça. É a graça que nos torna pessoas melhores. Talvez se possa dar um crédito por causa dos termos “bem” e “bom”, mas não somos bons. E, realmente, o pecado habita em nós. 


En pasant, reside aqui um dos muitos equívocos da maçonaria. Uma de suas frases de efeito diz: “Nós escolhemos os homens bons e os tornamos melhores”. Numa curta frase, dois erros teológicos. Primeiro: não há homens bons. “E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.” (Mc 10.18). Segundo: porque ninguém pode ser transformado se não for pela graça. Sou pessimista quanto ao homem. Lembro de uma frase de Billy Graham: “O homem é exatamente o que a Bíblia diz que ele é”.  E o retrato que ela faz do homem não é lisonjeiro.

Precisamos falar de pecado. A palavra está tão fora de modo que inspirou um livro teológico como o títuloO pecado ainda existe?  . A Igreja parece se reunir mais para celebrar (exatamente o quê?) que para confessar. Num exame superficial da Concordância bíblica da SBB encontrei 41 referências a “confessar” e 11 a “confissão”. Não examinei o número de vezes que aparece “pedir perdão” e semelhantes, e por isso não as considero. Aumentaria a lista. Mas culpa, pecado e perdão são palavras comuns nas Escrituras. Na década dos sessentas, um dos versículos que nossas igrejas mais recitavam era 2Crônicas 7.14. Hoje o mote é “Louvai ao Senhor”. Não se deduza que sou contra o louvor. Sou contra o culto que baniu a confissão. Sou contra a tentativa de varrer para baixo do tapete a reflexão e tudo submeter à agitação. Parece-me que as pessoas não pensam muito, mas apenas sentem e se sacodem. Nossa cultura não é reflexiva. É romântica, piegas e sensual (dos sentidos).


Há um grande esforço de algumas ciências e disciplinas para tirar do homem o sentimento de culpa. Ele é produto do meio, das circunstâncias, dos genes, mas nunca resultado de suas decisões e menos ainda alguém que diga como Paulo: “... eu sou carnal, vendido sob o pecado” (Rm 7.14) e “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.19-20). 


Além de desmentir a concepção iluminista de que o homem é bom, Paulo desmente a visão platônica de que saber é ser. Como isto nos tem marcado também! Todos os nossos problemas parecem que serão resolvidos com “conscientização”. Multar motoristas bêbedos e irresponsáveis? Não, isso é repressão, indústria da multa. Vamos conscientizar tais pessoas! Combater as drogas? Vamos conscientizar os nossos jovens. Ora, alguém não sabe que álcool e volante não combinam? Alguém ignora que drogas são destrutivas? Nosso problema não é cognitivo. É espiritual. Somos pecadores, dominados pelo pecado, e precisamos ser libertos do poder do Maligno: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente, sereis livres” (Jo 8.36). Quando a Igreja perderá o acanhamento de chamar as pessoas ao abandono do pecado, e até quando continuará pregando auto-ajuda, como se a obra salvífica de Cristo fosse nos fazer sentir-nos melhores, emocionalmente?


Precisamos de uma soteriologia centrada na obra vicária de Jesus Cristo. Seu evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). A Igreja precisa pregar que os homens são pecadores, estão perdidos, vão para a condenação eterna, e só Jesus Cristo salva.
4. A NECESSIDADE DE UMA CRISTOLOGIA CORRETAParte da argumentação foi feita aqui, mas com a conotação da teologia da salvação. Agora, trato da pessoa de Cristo. Precisamos enfatizar bem os aspectos centrais da vida do Salvador: nascimento virginal, vida sem pecado, morte vicária, ressurreição corporal, ascensão e sua segunda vinda em poder e glória para julgar o mundo. Porque há um esforço enorme para se descaracterizar a pessoa de Jesus. Ele já foi mostrado como hippie, como guerrilheiro, como modelo de vida, e agora parece ser um incômodo para a Igreja. Parece que muitas igrejas não sabem o que fazer com Cristo e sua cruz. A mídia procura distorcê-lo. E a teologia contemporânea insiste em desmitificá-lo, em buscar o Jesus histórico, tentando fazer uma nova história e nos dar um novo Cristo. Gente em gabinete com ar condicionado e poltronas estofadas pretende saber mais sobre o Jesus do Novo Testamento que os evangelistas e Paulo.


Muito da distorção sobre a figura de Jesus está vindo dos cânticos, onde ele quase nunca é cantado e quando é cantado, em alguns dos cânticos se assemelha mais a uma força que a uma pessoa. Parece mais uma energia cósmica que o Salvador do mundo.


Só há um Cristo digno de ser pregado, o do Novo Testamento. E este é o Cristo crucificado. Mas há cultos em que o nome de Jesus só é mencionado na oração: “Em nome de Jesus”. Passou a ser mais uma senha que o Senhor da Igreja. Quantos sermões você ouviu ou quantos pregou, neste ano, sobre o Cristo crucificado? Preguei no aniversário de uma igreja e havia cinco grupos de louvor escalados. Não era uma ordem de culto. Era um ajuntamento de números especiais. Cada grupo apresentou três números, e antes de cada número houve o famoso sermãozinho sobre o louvor. Cá pra nós: sermão de grupo de louvor é duro de ouvir. São platitudes dispensáveis. O culto começou às 19 horas e me deram a palavra às 20h50. Metade do auditório estava tão cansada de tanto louvor, que não acompanharia meia hora de sermão. A outra metade estava tão excitada que não acompanharia nenhum raciocínio. O culto foi um louvor ao louvor, não a Cristo. O louvor foi um fim em si mesmo. Quando me deram a palavra observei um fato muito triste: em uma hora e cinqüenta minutos de culto, o nome de Jesus só fora pronunciado na frase “em nome de Jesus”, nas orações que se haviam feito. A Igreja é de Cristo, mas o louvor não é a ele. E o foco também não é ele, mas as pessoas que se exibem.
 “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2). Culto em que Cristo não foi pregado e a mensagem da cruz não foi anunciada não foi um culto neotestamentário. Há pregações moralistas, há pregações de auto-ajuda, há pregações que caberiam numa sinagoga, mas a pregação numa igreja deve ser cristocêntrica. O centro do culto não é o louvor, mas é Cristo. 


Deu para notar que neste tópico, falando de uma cristologia correta, detive-me mais na cristologia prática, vivenciada na Igreja, que à Cristologia como aspecto da Teologia. Porque o que me incomoda é que a Teologia está sendo refeita, ou melhor, distorcida, nos cultos, e não nos seminários. Mas como já havia tocado no assunto no tópico anterior, ao falar da soteriologia, creio que já comentei o suficiente.
5. A NECESSIDADE DE UMA ESCATOLOGIA CORRETAHá pouco, os evangélicos brasileiros ficaram escandalizados porque um pastor muito presente na mídia negou a segunda vinda de Cristo. Dispenso-me de comentar o pastor, mas centro-me na segunda vinda. A Igreja crê mesmo nela? Quão raramente se prega sobre ela! Quão raramente se canta sobre ela! 


A teologia da libertação passou fogo na escatologia, dizendo-a ser um recurso das elites (de novo!) para manter as massas acalmadas. A teologia da prosperidade a aniquilou, porque quer o céu aqui. Não conseguiu entender a tensão do já  e do ainda não  da vida cristã. E, na realidade, muitos de nós estamos mais interessados em melhores empregos, melhores casas, carros zeros e maiores, que no céu. 


Mas não é de céu que quero falar, especificamente, no aspecto de  escatologia. Quero falar sobre a necessidade da igreja em advertir os pecadores de que haverá juízo. Que haverá um fim, que Cristo voltará e julgará a todos. A teologia da prosperidade em geral, e algumas de nossas pregações pragmáticas, em particular, têm empobrecido o ensino bíblico. “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.19).


Os crentes têm perdido a perspectiva do céu. Fico decepcionado com o desespero de alguns crentes quando perdem parentes crentes. Um colega me contou de uma senhora de sua igreja que ficou desesperada porque a mãe, com quase 90 anos e muito doente, partira para estar com o Senhor. E onde fica Filipenses 1.23, que diz: “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”? . Antes que me digam que eu não sei o que é perder mãe: perdi a minha aos meus 14 anos de idade. E ela não era crente. Era espírita. 


A questão é que as pessoas não ouvem pregações sobre o céu, não aspiram por ele, não o desejam, e querem apenas bênção sobre bênção, aqui na terra. Na realidade, nós não cremos no céu. Dizemos crer, mas não cremos.


Uma escatologia correta ensinará que a Igreja é hoje militante, e não triunfante (o que nos livrará de muitas ingenuidades pregadas e cantadas), mas um dia será triunfante. Que não será vencida, que pode sonhar e deve trabalhar pelo triunfo do evangelho. Não servimos a uma causa que pode ou não dar certo, mas que dará certo. E que o triunfo a cantar não é meu triunfo sobre minhas dificuldades pessoais, mas o triunfo de Jesus Cristo! Para muitos crentes, importa-lhes o seu triunfo, a sua bênção, e não a glória de Cristo, como Senhor do universo.


A mim, pouco me importa meu triunfo pessoal. Sou apenas um peão no tabuleiro do jogo de xadrez, que o Grande Jogador move para onde desejar, para fazer seu plano funcionar. Peão é descartável, é peça que sacrifica para se obter a vitória. Não aspiro a grandes coisas, mas apenas a ser útil. E não estou sendo vaidoso nem preciso ser elogiado por isso. É obrigação de cada cristão dizer como Paulo: “segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte.” (Fp 1.20). A escatologia correta é aquela em que sabemos do triunfo do evangelho, que este triunfo virá porque Cristo é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, e que nossa vida a serviço dele contribui para o avanço da obra.


Esta visão escatológica de vitória do reino nos ajuda a entender que seguir a Cristo não é uma viagem de primeira classe por este mundo, mas um engajamento no seu exército. Nós seremos vencedores. Mas, em termos humanos, nós faremos a vitória acontecer.
CONCLUSÃOPrimeiro quis apresentar esta palestra. Depois apresentarei mensagens bíblicas. Mas o que pretendi dizer aqui, dificilmente caberia num sermão. Procuro pregar expositivamente e aqui expus alguns conceitos teológicos que ficariam esparsos. Inseri-los nos sermões seria fazer piruetas exegéticas, o que não me soa correto.


O que aqui apresentei é o que creio. É minha convicção. E a síntese do que foi dito pode ser vista no uso que faço de Provérbios 22.28: “Não removas os marcos antigos que puseram teus pais”. Temos um balizamento de quatro séculos de história como batistas. Não removamos os marcos que nossos ancestrais estabeleceram.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A glória de Deus no chamado para pregar às nações


Por Franklin Ferreira
Sermão pregado na 27ª Conferência Fiel para Pastores e Líderes em 4 de Outubro de 2011.
Gostaria de usar o texto de Jeremias 1.4-19 para tratar de três temas vitais ao ministério cristão de ensino: vocação, a pregação e seu conteúdo e a coragem necessária para permanecer firme. Na verdade, gostaria de usar o texto de Jeremias como um texto de formação, que entrelace nossas vocações de ensino à vocação de Jeremias, que nos ajude a recuperar o senso de chamado para pregar a mensagem de Deus às nações. Antes de continuar, fazem-se necessárias algumas palavras introdutórias. Jeremias, que significa “aquele que exalta o SENHOR”, começou seu ministério no reinado de Josias, que iniciou uma reforma e renovação da aliança, de curta duração. Ele pertencia a uma família de sacerdotes e recebeu seu chamado quando tinha dezoito anos, na segunda década do século sétimo a.C., na pequena cidade de Anatote, a cinco quilômetros de Jerusalém. Na verdade, Jeremias viveu em meio a um turbulento momento político na história da região. A Assíria entrou em declínio como império; o Egito tentava recuperar sua influência; e a Babilônia era o poder em ascensão no leste. Pouco depois, Josias foi morto em Megido e, em rápida sucessão, três de seus filhos, Joacaz, Jeoaquim e Zedequias, e um neto, Joaquim, sucederam-no no trono. Por não temerem a Deus, esses reis conduziram o povo da aliança aos eventos mais devastadores da história de Judá, a invasão babilônica, a destruição do templo e o exílio no estrangeiro.
Nós hoje vivemos numa encruzilhada da história. A igreja tem crescido globalmente. Aqui no Brasil há muitos pastores devotos, crentes sérios, igrejas saudáveis, sinais da obra do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, há superficialidade e infidelidade bíblica, traição ministerial, divisões, idolatria por crescimento de igreja. Na esfera pública temos governos populistas, corrupção, pessoas morrendo nas portas de hospitais, violência crescendo sem parar e impunidade ampla, geral e irrestrita. Há preocupantes sinais de ameaças à liberdade de culto e de expressão. Diante desse quadro, (1) qual deve ser a imagem cultivada por aqueles chamados a obedecer à ordem de pregar a palavra de Deus? (2) Qual deve ser o conteúdo de tal mensagem? (3) Como aqueles chamados a pregar essa soberana Palavra devem se portar?
Vocação (4-8)4-7: O relato começa com a afirmação “a mim me veio, pois, a palavra do SENHOR” (1.4). Essas palavras ou expressões equivalentes ocorrem outras vezes no livro (7.1; 11.1; 14.1; 16.1; 18.1). A palavra way’hi (“continuou a vir”) sugere que este chamado veio não de forma súbita, mas de forma persistente. “Antes que eu te formasse”: estas primeiras palavras do SENHOR a Jeremias revelam que foi iniciativa de Deus o fato dele ter sido escolhido para ser profeta. O nome de Deus domina a cena: nessa pequena passagem o nome do SENHOR é citado doze vezes! Ele o predestinou para anunciar a mensagem, e antes mesmo de seu nascimento, Jeremias foi consagrado (“separado”, “santificado”) por Deus para essa tarefa (1.5; cf. Gl. 1.15). Desde a concepção até a consagração Deus tinha preparado cada etapa do processo, conhecendo todas as necessidades e sabendo como supri-las. Em outras palavras, Jeremias recebeu o caráter e a personalidade necessários para a obra profética. “E te constituí”: significa “dei”, isto é, antes mesmo de Jeremias nascer ele foi dado. Essa é a maneira de Deus agir. Ele fez isso com seu próprio Filho, Jesus Cristo (Jo 3.16). Deus o ofereceu às nações. Deus continua enviando aqueles que ele chama a pregar às nações, em obediência ao chamado e em imitação a seu Filho (1Co 11.1).
Por outro lado, a reação de Jeremias mostra que ele não era voluntário (1.6). Ele menciona sua idade: “Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança”. Na verdade, ele não queria dizer que era uma “criança”, mas que ainda não chegara aos trinta anos, que era o tempo quando os levitas iniciavam oficialmente seu ministério, sendo, portanto, muito jovem para atender o chamado. Mas Deus responde a objeção: “Não digas: Não passo de uma criança” (1.7). A compreensão de que ele tinha sido escolhido como instrumento da revelação de Deus para uma geração endurecida forneceu a convicção de que sua missão provinha de Deus, e levou-o a proclamar a palavra do SENHOR a uma nação teimosa e rebelde. E ele recebeu forças da comunhão constante com Deus em oração (cf. 12-20, as cinco “confissões” de Jeremias). “Porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás”: Quanto mais próximo do exílio, o cumprimento da profecia, mais sua timidez inicial é substituída por coragem, o que mostra o quanto ele amadureceu em sua vocação.
8. Os servos de Deus recebem muitas vezes a ordem “não temas”, como Abraão (Gn 15.1), Moisés (Nm 21.34; Dt 3.2), Daniel (Dn 10.12, 19), Maria (Lc 1.30), Simão (Lc 5.10) e Paulo (At 27.24). Diante do medo, uma emoção terrível e paralisante, Deus assegura que sustentará seu servo. Jeremias não estaria livre de oposição e até de perigo físico, porém cumpriria seu ministério em todas as dificuldades, porque Deus estaria com ele para fortalecê-lo. Portanto, Jeremias submeteu-se à sua vocação. E mesmo sem sair de Jerusalém, ele seria um profeta às nações – a mensagem de Deus ecoaria por Egito, Filistia, Moabe, Amom, Edom, Damasco, Quedar, Hazor, Elão e Babilônia (46-51). Talvez, como Jeremias, nunca viajemos para fora de nosso país para anunciar a mensagem de Deus. Mas podemos ser instrumentos para levar a Palavra de Deus às nações.
Parece que o estilo de vida dos homens que exercem hoje a vocação profética no Brasil está em ruínas. Esta vocação proclamadora foi substituída por estratégias comandadas por burocratas religiosos munidos de planos de negócios. Pensa-se hoje no pastor como alguém “que faz as coisas” ou que “faz as coisas acontecerem”. Pastores construtores de templos. Pastores administradores. Pastores executivos. Pastores seniores. Essa definição se aplica aos modelos básicos de liderança em nossa cultura: políticos, homens de negócios, celebridades e atletas. Mas nossa vocação precisa ser modelada por Deus, pelas Escrituras e pela oração. O elemento central da vocação profética não é de alguém “que faz as coisas”, e sim de alguém colocado na comunidade para estar atento e chamar a atenção ao que Deus fala em sua Palavra, palavra de juízo e denúncia, mas palavra de graça, misericórdia e renovação.
Neste sentido, precisamos relembrar: Deus chama alguns membros da santa comunidade sacerdotal para pregar o evangelho, as boas novas da livre graça de Deus. Essa vocação é uma obra interna de Deus, que chama os servos da Palavra. E embora seja interno, o chamado para o ministério inevitavelmente virá acompanhado por um testemunho externo. Ou seja, aqueles chamados para a pregação da Palavra demonstrarão dons e aptidões para o exercício do ministério. Eles são equipados pelo Espírito Santo para pastorear, evangelizar, pregar e ensinar – e frutos visíveis serão evidenciados por conta desse chamado interno. E será confirmado diante da igreja este chamado interno, por conta dos frutos externos da obra da graça que já aconteceu interiormente. Portanto, a vocação profética não pode ser reduzida a mero trabalho. Este pode ser quantificado e avaliado. Pode-se dizer se este chegou ao fim ou não, assim como se pode ser contratado ou despedido. Uma vocação não é um trabalho. A vocação profética é sobre a pregação da Palavra, sobre a administração dos sacramentos, sobre chamar o povo de Deus a adorar o Pai, Filho e Espírito Santo. Lembrar semanalmente à comunidade da fé os privilégios e responsabilidades da aliança.
Karl Barth afirmou que quem não houver sido chamado para pregar, que se abstenha totalmente de fazê-lo, pois não será pequeno mal que causará se subir ao púlpito sem haver sido escolhido por Deus para isto. Por outro lado, se você foi chamado para anunciar a santa Palavra, você só tem um, e um único oficio: anunciar fielmente “todo o desígnio de Deus” (At 20.27), portando-se como alguém que pertence exclusivamente ao SENHOR.
2. Conteúdo e Pregação (9-16)9-10: Tocando na boca do jovem, Deus simboliza a comunicação de sua mensagem. Agora o SENHOR proclama sua mensagem às nações tendo Jeremias por arauto. Para transmitir esta mensagem, Deus usa metáforas baseadas na agricultura e na construção, constituída por três pares de verbos, os dois primeiros negativos e o terceiro positivo: o profeta deve arrancar e derribar, destruir e arruinar para então edificar e plantar (1.10). Toda a corrupção na nação deve ser arrancada e derrubada, e somente depois disto é que se pode edificar e plantar de novo. Portanto, a mensagem do profeta teria duas funções. Em primeiro lugar, essa mensagem era uma declaração sobre a maldição da aliança que seria executada em seu devido tempo (Dt 28.1-68). Em segundo lugar, as bênçãos da aliança se tornariam realidade. Deus quer renovar, reconstruir e restaurar seu povo, mas antes da renovação é necessária a remoção radical do pecado e da infidelidade à aliança e eleição. A ruína é inevitável, enquanto a nação persistir no pecado, mas a palavra de renovação oferece esperança de restauração. Usando a linguagem do Novo Testamento, Deus tem primeiro de remover o pecado, antes de o pecador começar a crescer na graça e no conhecimento de Jesus Cristo.
11-13: Jeremias, entretanto, é humano. Ele reage inicialmente com medo e inadequação. São reveladas então a Jeremias duas visões inaugurais. A primeira é a de “uma vara de amendoeira” (1.11). Em hebraico, a palavra “amendoeira” (shaqéd) e o verbo “eu velo sobre” (shoqéd) têm som semelhante. Há um jogo de palavras aqui que ilustra a prontidão com que Deus cumpre suas promessas. Sempre que o profeta visse a cada primavera uma amendoeira em flor, ele seria lembrado de que o SENHOR está observando para assegurar que sejam cumpridas todas as palavras transmitidas em seu nome (1.12). A segunda visão tinha um tom mais sinistro, “uma panela ao fogo” (ou “fervendo”), literalmente uma panela sobre a qual alguém sopra, e cuja boca se inclina do Norte, indicando que seu conteúdo se derrama em direção ao sul (1.13). Essa visão indica a invasão babilônica, que virá do norte (20.4).
14-16: O exército da Babilônia executará o propósito de Deus de punir a idolatria de Judá e a quebra da aliança do Sinai. O verbo qtr, “queimar incenso” (1.16), é usado em outras passagens significando queimar a gordura dos sacrifícios (cf. 1Sm 2.16; Sl 66.15). A tensão entre o culto aos ídolos e a adoração exclusiva ao SENHOR chegaram ao clímax. A guerra viria para interromper um modo de vida inútil, impuro e indolente, obrigando o povo a voltar seus olhos para o que é essencial e eterno. Mas Jeremias não vai trazer o fim por meio da espada ou da ação política. Ele é chamado a proclamar a palavra do SENHOR quantas vezes for necessário, custe o que custar, e um alto preço será exigido dele.
Aqueles chamados ao ofício de anunciar a palavra de Deus não são chamados a trocar a mensagem da aliança pelo discurso político. Nenhuma ideologia é absoluta e nem pode ser confundida com o evangelho. Sempre que a igreja ou mesmo pastores e teólogos identificaram determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica, essa foi não apenas distorcida, mas acabou sendo perdida. Portanto, a preocupação primeira daqueles chamados a anunciar a Palavra de Deus não é tanto com a mudança da sociedade civil, mas com a reforma e renovação da igreja por meio da mensagem de Deus. Aqueles chamados ao ofício de anunciar a palavra de Deus não são chamados para lidar com aqueles que ouvem e se submetem à mensagem profética como se fossem problemas. É fácil reduzir as pessoas a problemas, pois na maior parte das vezes é fácil solucionar esses problemas. Mas os profetas são chamados a conduzir as pessoas dos ídolos a Deus, da rebelião para a aliança, por meio da Palavra, da adoração e da oração. Aqui somos meros instrumentos nas mãos de Deus. As pessoas não devem ser vistas como problemas em busca de solução, mas como pecadores que podem ser renovados à imagem de Deus. Portanto, a vocação é sobre conduzir as pessoas a Deus, por meio de sua Palavra, em humildade. Trata-se de permanecer junto ao povo.
A tentação à qual os profetas estão sujeitos é considerar Deus uma mercadoria, utilizá-lo para legitimar a idolatria (cf. 23.21-40 AM). Qual é, então, o conteúdo da mensagem profética? Deve-se conhecer o SENHOR (8.7; 24.7; 31.31-34). Este se dá por meio do Messias, o Renovo de Justiça, descendente de Davi, que executa juízo e justiça na terra (33.14-18), a fonte de águas vivas (2.13), o bálsamo de Gileade (8.22), o Bom Pastor (23.4), o Renovo Justo (23.5), o SENHOR justiça nossa (23.6), aquele que trará a nova aliança (31.31-34). E este novo conhecimento redunda em preocupação pelo aflito e necessitado e na prática da justiça e retidão.
A mensagem profética é o convite para “voltar” (4.1-2; cf. 9.24; 22.2, 13, 15; 23.5; 33.15). Este termo e cognatos é usado quase cem vezes neste livro e é o significado literal da palavra “arrependimento”. Implica voltar-se dos próprios caminhos para a aliança (6.16), é um chamado à comunidade para um retorno à “verdade”, “juízo” e “justiça”. Em suma, o povo é chamado ao arrependimento e ao conhecimento de Deus por meio do Messias. E o remédio de Deus para o coração enfermo (17.9) será gravar sua lei no coração da nova comunidade (31.31-34). Portanto, o verdadeiro profeta é aquele que procura distanciar o povo do mal, enfatizando as exigências de Deus na aliança (23.14, 22).
Usando a linguagem do Novo Testamento, aqueles dentre nós chamados ao santo ministério da Palavra, devem pregar as realidades grandiosas e magníficas de Deus e do Espírito Santo, da Escritura e da criação, da cruz de Cristo e da aliança, da salvação e de uma vida santa, a oração, o batismo, a santa ceia. E isso deve ser pregado no púlpito, nas salas de aula e na visitação pastoral, ansiando por vidas moldadas pela Palavra de Deus, renovada pelo Espírito Santo, de uma humildade disposta ao sacrifício, que erguem a Deus um louvor santo, sofrendo sem perder o contentamento, orando sem cessar, perseverando na santidade.
3. Segurança (17-19)17-19: O desânimo que o profeta sentiu ao entender o conteúdo da profecia é combatido por uma ordem direta: “cinge os lombos” (1.17), que pode ser traduzida como: “e você, prepare-se!” A frase é um termo militar hebraico usado para descrever um soldado vestido e devidamente preparado para tomar sua espada. Antes mesmo de nascer, ele foi convocado para lutar nessa batalha. Não lhe foram concedidos alguns anos nos quais pudesse refletir e decidir em que lado se posicionaria ou mesmo se iria lutar. Ele foi escolhido. Deus o chamou para ser um guerreiro. Então, ele deve ser fiel ao anunciar a Palavra de Deus e não deve temer ninguém. Mais do que isso, o SENHOR incita Jeremias a se preparar para a batalha. Se Jeremias perder sua coragem, Deus o abandonará por sua falta de fé: “Não te espantes diante deles, para que eu não te infunda espanto na sua presença”. Devemos entender: há uma verdadeira batalha espiritual sendo travada. Há maldade, crueldade e infelicidade. Há superstição e ignorância; brutalidade e dor. Não existe zona neutra no Universo. Cada centímetro quadrado é área de combate. Deus se levanta contra tudo isso. Ele está salvando, resgatando, abençoando, provendo, julgando, renovando: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.1-2).
Deus então faz uma das promessas mais ricas que ele pode fazer aos seus servos: “Tu, pois, cinge os lombos, dispõe-te e dize-lhes tudo quanto eu te mandar; não te espantes diante deles, para que eu não te infunda espanto na sua presença. Eis que hoje te ponho por cidade fortificada, por coluna de ferro e por muros de bronze, contra todo o país, contra os reis de Judá, contra os seus príncipes, contra os seus sacerdotes e contra o seu povo. Pelejarão contra ti, mas não prevalecerão”. Mesmo com todos contra ele, Deus estará ao seu lado, fazendo-o invencível. A presença de Deus lhe dá a certeza de que ele será uma fortaleza invencível, firme como uma “coluna de ferro” e resistente aos ataques como “muros de bronze”. E sua mensagem afetará pessoas de todas as classes sociais em Judá, dos líderes políticos e sacerdotes ao cidadão comum.
No início do verão de 1942, uma crente luterana, Sophie Scholl, participou da produção e distribuição de panfletos de um pequeno movimento de resistência pacífica chamado Rosa Branca. Ela foi presa, junto com seu irmão, Hans Scholl, e outro universitário, Christoph Probst, em 18 de fevereiro de 1943, depois que o reitor da Universidade de Munique os surpreendeu distribuindo esses panfletos no pátio da universidade. Em 22 de fevereiro de 1943 os três foram julgados em menos de quatro horas, acusados de alta traição e decapitados no mesmo dia. Suas últimas palavras foram: “Como podemos esperar que a justiça prevaleça quando são poucos os que estão dispostos a se doarem individualmente a uma causa justa? Um dia bonito e ensolarado, e eu tenho de partir, mas o que importa a minha morte, se através de nós milhares de pessoas forem despertadas e instadas à ação?” Sophie Scholl foi martirizada com vinte e um anos. Mesmo tão jovem, ela se opôs ao totalitarismo nazista, por causa de sua fé, num contexto de repressão, censura e conformismo. Isso é coragem invencível! Se você foi chamado a anunciar a Palavra, fique firme! A promessa e a graça de Deus estão com você! Como diz o hino do grupo Logos:
Meu servo, não temas!
Não temas, pois eu te escolhi!
Sei que é difícil, mas confia em mim!
Confia em mim e então,
Tu verás o meu poder!
Durante seus quarenta anos de ministério, Jeremias foi invencível. Diversas vezes passou por intensa agonia, mas não traiu sua vocação. Ele foi desprezado e perseguido, mas jamais deixou de anunciar a mensagem de Deus. Ele foi tremendamente pressionado para que fizesse concessões, desistisse e se escondesse, porém, jamais cedeu. Cada músculo do seu corpo foi exigido até o limite da fadiga. Mas ele foi corajosamente “coluna de ferro” e “muros de bronze”. Muitos se oporiam, mas Deus prometeu estar com ele e protegê-lo: “Eu sou contigo, diz o SENHOR, para te livrar” (1.19).
ConclusãoJeremias foi o profeta mais rejeitado e resistido da história israelita. Ele recebeu a ordem de não se casar ou ter filhos (16.1-4), uma experiência incomum de celibato. Experimentou oposição, castigos e prisões (11.18-23; 12.6; 18.18; 20.7; 26.9-19; 28.5-17; 37.11-38.28). Muitas vezes é chamado de o “profeta chorão” (9.1; 13.17; 14.17). Quando levado para o Egito, contra a sua vontade, caiu no esquecimento – de acordo com a tradição, ele morreu naquele país, dez anos depois, apedrejado por seus compatriotas, que ainda se recusavam a aceitar sua mensagem. Mas não somos chamados a andar por vista, mas por fé. Jeremias foi grandemente honrado pelos escritores do Novo Testamento. Sua profecia é citada quarenta vezes, a metade no Apocalipse (cf. 50.8; Ap 18.4; 50.32; Ap 18.8; 51.59s; Ap 18.24s). A mais longa citação do Antigo Testamento no Novo Testamento é a passagem da “nova aliança” (Jr 31.31-34; cf. Hb 8.8-13). As denuncias de Jeremias contra o povo como incircunciso de coração e ouvido (6.10; 9.26) foram repetidos por Estevão (At 7.51), uma pregação que lhe custou a vida. As lições tiradas da visita à casa do oleiro (18.1-10) foram aplicadas por Paulo ao chamado dos gentios por Deus (Rm 9.20-24). E Jeremias, que foi considerado o mais humano dos profetas, recebeu a maior honra, ter sido comparado ao Filho do Homem (Mt 16.14). Que obedeçamos nossa vocação, preguemos fielmente a mensagem recebida, que finquemos os pés no chão com coragem, para que em tudo Deus seja glorificado.
“Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai estupefatos, diz o SENHOR. Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (2.11-13).
“Dai glória ao SENHOR, vosso Deus, antes que ele faça vir as trevas, e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a mude em sombra de morte e a reduza à escuridão” (13.16).
“Não nos rejeites, por amor do teu nome; não cubras de opróbrio o trono da tua glória; lembra-te e não anules a tua aliança conosco” (14.21).
“Ó SENHOR, Esperança de Israel! Todos aqueles que te deixam serão envergonhados; o nome dos que se apartam de mim será escrito no chão; porque abandonam o SENHOR, a fonte das águas vivas. Cura-me, SENHOR, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor” (17.13-14).

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BIBLIOGRAFIAIssiaka Coulibaly, “Jeremias”, em Tokunboh Adeyemo (ed. geral), Comentário Bíblico Africano. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
Karl Barth, Carta aos Romanos. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.
F. Cawley, “Jeremias”, em F. Davidson (ed.), Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, s/d.
J. G. S. S. Thomson, “Jeremias”, em J. D. Douglas (ed.), Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 794-800.
R. K. Harrison, Jeremias e lamentações; introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova & Mundo Cristão, 1989.
Eugene H. Peterson, Memórias de um pastor. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.
Eugene H. Peterson, Ânimo; o antídoto bíblico contra o tédio e a mediocridade. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
J. R. Soza, “Jeremias”, em T. Desmond Alexander & Brian S. Rosner, Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Vida, 2009, p. 324-329.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

DOM ROBINSON CAVALCANTI: SEM PAPAS NA LÍNGUA!!




Desligado da Igreja Anglicana do Brasil por manifestar-se contra a ordenação de um bispo gay nos EUA, Dom Robinson Cavalcanti mantém-se firme em defesa da ortodoxia bíblica e dispara críticas a outras denominações brasileiras que se renderam às teologias liberal e da prosperidade


Paladino da ortodoxia bíblica, Dom Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife, ligada à Comunhão Anglicana, “tem comido o pão que o diabo amassou”, nas palavras de um amigo seu de longa data. O caso do bispo é sui generis no meio evangélico, pois a sua defesa do casamento e da exortação bíblica sobre o homossexualismo lhe rendem críticas e forte oposição dentro de sua própria denominação.
Na condição de bispo da Diocese recifense, Dom Robinson se opôs à ordenação de um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos. Embora muitas lideranças anglicanas mundo afora tenham manifestado o mesmo desconforto com a agenda liberal dos americanos, a posição do pernambucano foi minoritária na Igreja Anglicana do Brasil (IEAB) que, segundo ele, recebe forte influência dos colegas americanos.
Foi justamente por causa de sua crítica à ordenação do bispo gay que Dom Robinson se viu “desligado” da IEAB pelo bispo primaz Orlando Santos Oliveira. Desde então, a Diocese do Recife integra a Comunhão Anglicana e é reconhecida pelo Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, porém, não faz mais parte da IEAB. Apesar de ser como um herege entre os anEm alusão ao seu isolamento teológico entre os anglicanos brasileiros, o bispo chegou a ser definido como “o John Wayne do Nordeste”. Dom Robinson falou sobre sua solitária luta contra as ideias liberais entre os anglicanos durante sua passagem pela cidade de Itaquaquecetuba, na região do Alto Tietê (SP), onde visitou o Ponto Missionário de Discípulos Emaús que, assim como outras comunidades anglicanas no Sudeste, está sob jurisdição eclesiástica da Diocese do Recife. Confira:


Exibir gospel - De que forma o senhor embasou sua posição contrária à união homossexual entre os anglicanos liberais?


Dom Robinson Cavalcanti - Nossa posição tem sido explicitada desde que foi ordenado um bispo gay pela Igreja Anglicana dos Estados Unidos, em 2003, quando teve início, então, um conflito com os anglicanos que defendem a teologia liberal. Na Conferência de Lamberth, na Inglaterra, que reuniu bispos anglicanos do mundo todo, em 1998, o Conselho Diocesano do Recife indicou que o seu bispo deveria votar pela resolução sobre sexualidade humana que diz que o sexo é um dom de Deus, uma coisa boa que deve ser usufruída pela humanidade, e o lócus ideal dessa sexualidade é a união heterossexual estável. Na Conferência de Lamberth, nós votamos junto com anglicanos do mundo todo que afirmaram a dignidade da pessoa humana, o pleno direito de cidadania para todos, mas que, ao mesmo tempo, disseram que é biblicamente impossível apoiar a prática homossexual. Os que têm inclinações homoeróticas devem ser acolhidos na sua luta, mas não se pode deixar de afirmar que essa prática é contrária ao ensino das Sagradas Escrituras. É a mesma posição da maioria das dioceses do mundo todo que aprovaram conosco a resolução sobre sexualidade humana em Lamberth.


EG - Se a sua posição é majoritária entre os anglicanos, por que desagrada tantos membros no Brasil?


Dom Robinson - Aqui a igreja anglicana sofreu, a partir dos anos 1980, uma forte influência da teologia liberal norte-americana e hoje a Província da IEAB é uma linha auxiliar do liberalismo teológico americano. Há uma ligação íntima entre os liberais brasileiros e americanos, que resulta em envio de verbas e intercâmbios. Na Conferência de Lamberth, os norte-americanos se insurgiram contra as decisões da Comunhão Anglicana e se tornaram, digamos assim, os líderes da oposição. Eles são a minoria a nível mundial, mas têm o apoio dos brasileiros. Por isso, a resolução sobre sexualidade foi aprovada por mais de 80% dos delegados em Lamberth, mas eu fui o único do Brasil que votou com a maioria e contra a dissidência americana.


EG - O fato de o casamento gay constar na pauta política nacional faz essa tensão se manter?


Dom Robinson - Sim. Por exemplo, em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) estendeu aos homossexuais o instituto das uniões estáveis. O bispo primaz da IEAB foi o único líder evangélico que saudou a resolução do STF. Enquanto isso, nós da Diocese do Recife fomos a público lamentar a decisão. Entendemos que houve uma extrapolação do Poder Judiciário, mais um choque entre o Estado e a Nação, que foi agredida nos seus valores e na sua história. No Brasil, o Poder Legislativo é o que menos legisla, o que na prática é feito pelo Poder Executivo, por meio de Medidas Provisórias, e pelo Poder Judiciário, por meio das suas interpretações questionáveis. Eu entendo que houve a legalização da imoralidade.


EG - Como o senhor define a teologia liberal?


Dom Robinson - A teologia liberal moderna era influenciada pelo iluminismo e racionalismo, baseada na ideia de que só se atinge a verdade pela razão, portanto, devemos tirar do ensino da Igreja qualquer dimensão de milagre. Isso foi uma experiência historicamente fracassada. As pessoas vão à igreja para buscar uma dimensão de mistério. Se elas quiserem reflexão intelectual, elas vão para a faculdade. Agora temos a teologia liberal pós-moderna. Ela não crê que existe verdade, ao contrário, prega que cada um tem a sua verdade, e isso redunda num relativismo. São pessoas que acreditam que a Bíblia é devocacional, mas que não contém revelação e que a igreja é apenas um espaço para compartilhar liturgia. Se você já tinha um esvaziamento da autoridade da Bíblia pela teologia liberal racionalista, agora piorou, porque na teologia liberal pós-moderna, você tem a negação explícita da singularidade de Jesus Cristo, a negação dos milagres e de tudo mais que possa soar uma declaração dogmática. Nesse contexto, a presidente da Igreja Anglicana nos EUA declarou que Jesus é ‘meu caminho, mas não o caminho’.


EG - O senhor faz distinção entre protestante e evangélico, o que os termos significam?
Dom Robinson - O termo protestante é bem amplo e diz respeito às igrejas oriundas ou influenciadas pela Reforma. No Brasil, o que chamo de ‘protestante de IBGE’ é a construção de uma categoria mais elástica que abriga desde os paraprotestantes até o imenso mundo neopentecostal que é tratado como protestante, mas que nem historicamente e nem doutrinalmente tem qualquer ponto de ligação com a Reforma. O termo evangélico na Europa é sinônimo de protestante, no sentido de reformado, mas eu diria que diz mais respeito à ala dos protestantes que crê na autoridade das Sagradas Escrituras, na singularidade de Cristo, no papel central da Cruz e na necessidade de conversão. O protestante não-evangélico seria o termo ideal para as seitas paraprotestantes como Testemunhas de Jeová, Mórmons e Ciência Cristã.


EG - Em qual classificação se encaixaria, por exemplo, a Igreja Universal?


Dom Robinson - Tem havido intenso debate sobre isso no meio acadêmico. Algumas pessoas como o sociólogo Paul Freston, professor da Universidade Federal de São Carlos, afirmam que ainda há traços de protestantismo na IURD e são otimistas quanto ao futuro e evolução dela na direção do evangelicalismo. Eu sou da posição contrária. Não identifico nenhum traço de protestantismo na IURD a não ser o uso físico da Bíblia,  e esses últimos 20 anos têm demonstrado que, ao contrário do que aconteceu com outras seitas no passado, a Igreja Universal não foi se aproximando mais do centro evangélico; ao contrário, ficou mais distante ao adotar superstições, afinal, falar em encosto no meio protestante é fazer tremer os ossos de Lutero.


EG - Como o senhor avalia a teologia da prosperidade?


Dom Robinson - É uma teologia que nega toda a doutrina cristã de dois mil anos, que é baseada na simplicidade, no despojamento e na crença da recompensa da vida eterna. No fundo, a referida teologia é uma maneira de acomodar o cristianismo ao capitalismo, que se tornou hegemônico após a queda do muro de Berlim, a crise da social-democracia e a ausência no momento, porque a história é dinâmica, de alternativas. É uma teologia que acoplou elementos da igreja romana, a água benta, e dos cultos afro-ameríndios, o conceito de encosto. A criação dessa nova vertente do cristianismo foi confundida como protestantismo. Muita gente rejeita a Reforma por causa dessas igrejas que de reformadas não têm nada.


EG - Qual é o maior risco que a Igreja enfrenta hoje?


Dom Robinson - Deixar de cumprir o seu papel. A Igreja não pode ser refém da agenda do seu tempo, ou seja, não pode acatar as crenças da época em que se vive. A agenda do nosso tempo é o secularismo, o multiculturalismo e o politicamente correto. Nos dias de hoje, adotar a agenda do nosso tempo significa acatar tudo isso. E então, e vez da Igreja ser o sal da terra, a terra passa a ser o sal da Igreja.


A identidade anglicana


De origem inglesa, a Igreja Anglicana é católica na sua liturgia e protestante em sua teologia, uma identidade mista que não é encontrada em qualquer outra denominação protestante. Desperta a curiosidade também por ser a denominação na qual se casaram o príncipe William, o sucessor do trono inglês, e Kate Middleton. O mundo inteiro acompanhou pela tevê a cerimônia e muitos se questionaram: é uma igreja católica ou protestante?
Os primórdios da igreja cristã inglesa apontam para as tradições dos primeiros celtas que se aproximaram do cristianismo. Quando a Bretanha era uma colônia romana, comerciantes e militares romanos passaram a exercer a sua influência. Tudo indica que os celtas tenham iniciado muito cedo a igreja cristã em sua etnia, especialmente ao norte da atual Inglaterra, Escócia e Irlanda.
Fiéis aos seus traços culturais étnicos, eles fizeram da igreja cristã uma instituição livre, sem vínculos com Roma, organizada de forma monástica e tribal. A igreja cristã inglesa existiu separada de Roma por seis séculos.
Mesmo quando foi incorporada pelo Papa Clemente, a Igreja Anglicana manteve as suas tradições essenciais. Quando o rei Henrique VIII, por motivos pessoais (ele queria se casar novamente, o que o Papa negou), optou pela ruptura, a tradição inglesa já existia.
Os anglicanos mantêm uma estética religiosa distinta, que abriga arquitetura, pintura, escultura e liturgia semelhantes à imagética católica. Eles despojaram de sua missa os elementos que não podem ser conciliados com a Bíblia, mas mantiveram as ordens sacramentais (diácono, presbítero, bispo).
Além disso, a hierarquia eclesiástica também lembra a romana, com uma diferença essencial: a ausência de um papa. No mais, o arcabouço teológico anglicano é ortodoxo e reformado. Para Dom Robinson Cavalcanti, tal identidade peculiar dá aos anglicanos a capacidade de incorporar na sua prática eclesiástica uma tradição muito mais rica.
Ele lembrou que no Brasil, por razões históricas, houve uma proibição imperial quanto ao uso de símbolos nas capelas evangélicas e, por causa da polarização com a igreja romana, os evangélicos perderam a dimensão do símbolo, o que a anglicana sempre manteve. “É a Igreja mais católica entre as protestantes e a mais protestante entre as católicas. Ou como me disse um matuto do Nordeste: tem casca de católico e miolo de crente”.


Fonte:  Renato Suhett

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Paulo, um exemplo de expositor das Escrituras


Uma das características marcantes do ministério de Paulo era o seu método de pregação e ensino das Sagradas Escrituras, e quatro pontos nos chamam atenção em relação a esse método
O apóstolo Paulo é, sem dúvida, um dos maiores nomes da história da Igreja. Foi ele um dos grandes instrumentos usados por Deus na expansão da mensagem do Evangelho no primeiro século da Era Cristã e também o primeiro sistematizador das Doutrinas Cristãs (consciente ou inconscientemente) por meio da exposição das mesmas em suas epístolas.

Paulo recebera um chamado de Deus para pregar o Evangelho entre os gentios (At 13.47) e foi fiel a esse chamado (At 26.19). Aliás, é notável o cuidado que o apóstolo tinha em relação às igrejas sob sua responsabilidade e à Igreja em especial. Esse cuidado era manifesto por meio de:

1) Suas admoestações (At 20.31);

2) Sua emocionada preocupação (2Co 11.28);

3) Seu combate a dissensões nas igrejas (2Co 12.20);

4) Seu incansável trabalho realizado sob a luz de um inamovível propósito (Gl 4.11);

5) E sua intercessão constante em favor das igrejas (1Ts 3.10).

Uma das características marcantes do ministério de Paulo era o seu método de pregação e ensino das Sagradas Escrituras, e quatro pontos nos chamam atenção em relação a esse método. Se não, vejamos.

Em primeiro lugar, seu ensino era corroborado pelo seu exemplo. Não poucas vezes, o apóstolo Paulo, em suas epístolas, evoca o seu exemplo para corroborar algum ensino que ministrava à igreja (At 20.35; 1Co 4.16; 11.1; Fp 3.17; 4.9; 2Tm 1.13). Quando Paulo aconselhou Timóteo a como ter um ministério reconhecido, destacou a importância do exemplo (1Tm 4.12,15). O apóstolo dos gentios enfatizou que o jovem pastor de Éfeso deveria ter dois grandes cuidados para ter um ministério bem-sucedido: cuidado com a doutrina e com sua vida, com seu exemplo (1Tm 4.16).

Em segundo lugar, a pregação de Paulo não consistia em mera eloqüência humana, mas em demonstração do Espírito e de poder (1Co 2.1-5)

Em terceiro lugar, Paulo contextualizava sua mensagem saudavelmente (At 19).

Paulo nunca foi adepto de discursos filosóficos burilados e prolixos (1Co 2.1-5). No entanto, ao chegar em Atenas, encontrou filósofos epicureus e estóicos que pouco se importavam com sua mensagem simples. Eles “contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses, pois pregava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18).

Os epicureus eram discípulos de Epicuro (341-270 a.C.), fundador da filosofia ética que faz do prazer o ideal da vida. Os estóicos eram seguidores de Zeno (340-265 a.C.), que ensinou que nosso ideal de vida deve ser a conformação com a natureza, que tem como maior expressão o logos, a razão. Estes eram panteístas.

Em determinado momento, aqueles filósofos acharam por bem levar Paulo ao areópago para ouvir seu ensino. O motivo? Entre o povo de Atenas e os estrangeiros residentes, a mensagem do apóstolo dos gentios encontrara guarida (At 17.21). Admirados com a popularidade que ganhava sua mensagem, resolveram finalmente ouvi-lo.

No aerópago, Paulo não mudou o conteúdo de seu discurso. Só o estilo. Ele pregou de novo a Jesus e a ressurreição (At 17.31), os mesmos temas de sua pregação ao povo (At 17.18), mas, agora, o estilo do discurso era diferente. Ele contextualiza a mensagem simples do Evangelho àquele meio, para que fosse ouvido e compreendido.

Note que Paulo não faz concessões quanto ao conteúdo da mensagem. Ele não procura negociar princípios para ser ouvido. Apenas usa códigos comuns aos filósofos para "decodificar" a mensagem divina para eles. Pegando como "gancho" o altar “Ao Deus desconhecido” (17.22-26), partiu da crença num ser superior e divino, que criou todo o mundo (os atenienses eram muito religiosos e não teriam dificuldades para entender isso), e usou em seguida a expressão “tateando” (17.27) para referir-se à busca do homem por Deus (Platão tornara essa expressão célebre ao usá-la para referir-se às melhores opiniões sobre a verdade). Por fim, Paulo citou textos dos poetas gregos Epimênedes, Arato e possivelmente Cleanthes (17.28), para finalmente chegar em Cristo. Paulo é, sem dúvida, um dos maiores exemplos bíblicos de contextualização sadia.

Em quarto lugar, e não menos importante (muito ao contrário!), Paulo estudava constantemente a Palavra e era guiado pelo Espírito na sua ministração

Escrevendo as efésios, o apóstolo Paulo afirma que a Palavra de Deus é a “Espada do Espírito” (Ef 6.17). Isso significa dizer que ela faz parte da armadura espiritual do cristão, mas, para sabermos usá-la de forma correta nos embates espirituais e no nosso crescimento espiritual, precisamos do auxílio indispensável do Espírito Santo, o Dono da Espada, o Senhor da Palavra, para podermos manejá-la bem.

Quando buscamos ao Senhor da Palavra orientação e graça para estudá-la e pregá-la, constatamos o poder e a eficácia da Palavra, como ressaltada pelo escritor da Epístola aos Hebreus (Hb 4.12,13). É verdade que a Palavra de Deus, em si, já detém poder; sua mensagem já é poderosa independente do comprometimento de quem a anuncia com o Dono da Palavra, porque apesar de Deus só ter compromisso com aquele que tem compromisso com Ele, Deus tem compromisso irrestrito com a Sua Palavra; logo, como vaticinou o profeta, a Palavra do Senhor não volta vazia. Porém, quando quem anuncia a Palavra tem compromisso com o Deus da Palavra, então os resultados são ainda mais poderosos.

A Bíblia é a Espada do Espírito, mas uma espada só será eficiente se for corretamente manejada.
Fonte: CPADNEWS